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segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Barbie Girl é o escambau!


Para quem só conhece meu lado poesia, eis aqui uma surpresa: eu sou meio revoltadinha com algumas (muitas) coisas desse mundo e tento me expressar com as palavras menos doces.

Sexta-feira passada, fim de tarde, chego com minha filha da escola e ela, numa felicidade radiante me diz: “mamãe, semana que vem vai ter festa na escola e eu vou dançar com a minha turma!!! Você quer ver?”

Sem titubear eu disparei: “Claro, Luísa! Dança pra eu ver se você está sabendo mesmo!” E, para minha triste (e quase suicida) surpresa, ela se posicionou e começou: “Sou a Barbie Girl, se você quer ser meu namorado, fica ligado, presta atenção na minha condição, é diferente, sou muito exigente...”

Eu, tão amante das palavras, não tenho sequer UMA para descrever meu desapontamento. Quem seria a irresponsável por tamanha afronta? A professora de Educação Física? Pega ela, agora!

Meu Deus, o que aquela infeliz e vazia da Kelly Key pode ensinar para minha filha e toda sua geração? Melhor eu nem me ater muito nisso.

Diariamente, ao levar minha filha à escola, eu observo os alunos que vão em volta da gente, sobretudo as alunas. Chocante. Meninas de 12, 13 anos, seminuas, com seus corpos expostos, falando num tom altíssimo, xingando os meninos, como se fossem um deles. Vez ou outra passo por uma criança esperando por outra criança. Será que elas já ouviram falar em Cartola? Tom? Vinícius? Toquinho?

Não é uma ciência exata, mas é quase. É evidente que a música influencia e denuncia direta e claramente o perfil e o comportamento das pessoas, sobretudo das crianças e dos adolescentes. Quando Luísa começou, toda empolgadinha, a dançar aquele lixo sonoro, eu fiquei do lado de cá, matutando “Meu Deus! Tanta coisa boa pra dançar, fazer coreografia e uma infeliz d’uma “professora” me vem com ‘Uma loura legal e que sabe o que quer, decidida, fatal, mas dengosa’”?

Pra começar, minha filha _ainda_ não é loura. Fatal? Meu Deus, por onde anda a beleza da infância, destilada, de tão pura? O que seria uma menina de 07 anos fatal? De novo, não quero nem pensar nisso.

É estarrecedor ver meninas de 07, 08 anos se vestindo como mini mulheres. Já não vejo meninas usando maria-chiquinha, sainhas rodadinhas, mas é constante vê-las maquiadas, de calças apertadinhas, meinha-arrastão, que avanço!

A única coisa que pude fazer como mãe foi massacrar minha raiva na hora e hoje, na segunda-feira, ir direto à diretoria da escola registrar minha indignação. Enquanto eu puder dar banhos de MPB, de ótimas letras e de conteúdos poéticos à minha filha, farei. Mas a guerra de braço é desigual, eu sei. Tudo na mídia hoje é “embalado” às batidas de Kelly Keys, de Perllas, de Latinos falando abertamente de sexo, bundas, bolinações, de “meninas fatais”... ah! Peraí, peralá!

Fiquei imaginando Luísa e sua turminha dançando “O Caderno” de Toquinho ou a sua “Aquarela”, ou ainda, o “Passarim” do Tom. Eu não sei o que vai dar na escola hoje, a diretora me assegurou que iria acabar com os ensaios e trocar a música.

Talvez pareça intransigência minha. Pensem o que quiserem, mas minha filha de 07 anos cantando, inconscientemente, que é uma vagabundinha fatal, nem pensar!

Barbie Girl é o escambau!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Classificados




Aluga-se um fim de tarde
Com direito a pôr-do-sol e doces palavras de brinde
O prêmio é oferecido por um coração sozinho,
Que deseja aplacar a solidão ao menos, nesse fim de tarde
Podem concorrer quaisquer abraços,
Ainda que não aparentem bom estado
_ neste caso, a aparência é o que menos importa
o que importa, são os Celsius que eles têm..._
Aluga-se um fim de tarde
E um par de ouvidos para ouvirem teus sons mais guardados
Aluga-se um fim de tarde
Com quatro pés entrelaçados sob a coberta,
No prenúncio da tempestade
Aluga-se um fim de tarde mobiliado de carinhos,
De todas as cores e tamanhos,
Com cheirinhos da nossa infância
Aluga-se um fim de tarde
Para descansar o corpo e reciclar a alma
Para esquecer das culpas e metades
Aluga-se um fim de tarde
Para quebrar o silêncio,
Para ter ao menos,
uma boa lembrança da vida.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Parede em branco



Hoje eu acordei com uma sensação estranha. Não era exatamente um mau humor... era uma introspecção, aquela que te provoca uma vontade de ser invisível, pra que nenhuma outra boca venha te perguntar alguma coisa... acordei com um desprezo profundo pelo telefone e justo hoje ele tocou bastante, tocou e retocou... até arriar a bateria... Eu não quero falar com (quase) ninguém. Claro que até pra mau humor ou introspecções... seja lá o que isso for... há as exceções. Se minha inspiração ligasse para mim, eu atenderia com um sorriso na voz: “oi, amor! É maravilhoso falar com você!”.... “Ah... que dia lindo, não?!” Excepcionalmente adoraria o dia, ainda que por um, dois minutos... o tempo que durasse a ligação. Ou talvez pelo resto do dia, mesmo!

É, mas a inspiração não ligou...

As palavras têm me atormentado, não me deixam mais dormir. Fecho os olhos e elas começam a vir... “poemas, problemas”... “mau humor, introspecção”... daí, já viu, né? Quem dorme? Levanto correndo, acho um toco de papel e derramo as palavras...

Dia desses tive um aborto semântico... poético, gramatical, sei lá... eu estava sonhando com uma poesia (é, poeta sonha é com poesia... essa coisa do amor amado... é pra quem lê, não pra quem escreve...) então, eu estava sonhando com uma poesia. Não pense que era uma cena de amor: eu e poesia, um beijo molhado... claro que não... No meu sonho havia uma casa, de paredes rosa clarinho, e numa delas, (que era branca) tinha pátina, toda espiralada... e pela janela eu podia ver um jardinzinho, simples e floridinho... eu conversava com não sei quem... (talvez sozinha, repetindo a realidade), eu apenas ouvia a minha voz em bom tom, falando o tal poema que talvez nunca mais vai nascer... falava em “dia cinzento como a Irlanda do Norte”, em “gelatina de sombra”...

Não me lembro de mais nada... aqui, no mundo cruel e real, tocaram a campainha... dei um pulo da cama e acabou-se poesia... E a visita inesperada pergunta: “estou te atrapalhando?” E eu respondo: “ ’magina!!!” ( e resmungo: “Você só abortou uma poesia...”)

Ai, minha poesia... Ela estava tão formadinha... imagino seu nomezinho como seria... mas foi tão súbito, que não tive tempo de vir acordando e, como num ritual, ir capturando as palavras borboleteando em minha mente... só agarrei pelo pé essas vagas idéias...

Um dia, quem sabe, eu não junte esses restos de sonhos a outros e crie uma obra-prima?

Mas eu sinto saudade daquela casa, de pátina espiralada, do tom pueril do rosa nas paredes... talvez eu volte... mas isso é quase impossível...

Hoje está um dia assim, meio irlandês, de baixa temperatura, de chuvinha fina e gelada, de céu gris, sem graça... e eu, bombardeada pelas palavras, introspectiva, mas já disse: não é mau humor! Coisas de TPM, talvez... e eu não quero falar com ninguém, mas esse silêncio me endoida...

Liga pra mim?!