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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

MARIA DA PENHA (às vítimas da violência doméstica)


Arrancaram os trilhos da cidade,
o trem já não passa de lembrança.
Ficamos ilhados,
sem comunicação com o outro lado da rua.
Nos condenaram às sentenças mais atrozes.
Deram-nos opções, as piores.
O campo está seco,
talvez falte-nos o pão.
Nessa terra que era minha,
abracei o estrangeiro,
convivi com o inimigo.
No ar pairava o cheiro do álcool.
Vi a face da covardia.
Ele, em suas mãos, trazia a força descontrolável,
covarde e odiosa.
Em seus olhos morava a maldade.
Num convívio ébrio e violento
tive a alma machucada,
conheci dores que, nem mesmo a eternidade me fará esquecer.
Mas,
de dor em dor,
de decepção a decepção,
minha essência não subjugou-se.
Lancei-me, então, à tempestade.
Andei pela minha cidade sem os trilhos,
meus passos tropeçaram no desconhecido.
Sem comunicação com outros corações, isolei-me.
E vi do alto o campo, outrora infértil,
agora encharcado de esperança...
...Nesse momento a minha alma recusa a dor.
Quando o dia amanhecer
Vou esticar meu coração sob o Sol
para que se evapore cada gota de humilhação
e fique em mim a certeza de que,
apesar dessa praga,
ainda verei meu campo lindamente florido.



(Seria este um desabafo ou apenas mais um devaneio do meu eu-lírico?!)

6 comentários:

Paixão, M. disse...

Ah, Lud...
Essa poesia é coisa mais linda, a coisa mais triste... uma das que eu mais gostei quando você me enviou suas poesias, por causa da força do sentimento, essa coisa visceral...

um beijo em você, querida!

Renata Mofatti disse...

Uma triste realidade relatada tão lindamente pelo seu eu lírico!!!

Ludmila Clio disse...

É, Renata... é uma interpretação tua... o texto é muito mais do que parece...

Um beijo, obrigada pela visita e pelo comentário!

Leca disse...

... NÃO SEI SE APENAS ADMIRO...OU SE CHORO TODAS AS LÁGRIMAS QUE AINDA POSSA ME RESTAR...
SE BEBO A DOSE DA DOR PARA AMENIZAR SEU SOFRIMENTO.
NÃO, NÃO TENHO ESSE DIREITO, APENAS BEBO A BELEZA DE CADA PALAVRA QUE JUNTAS-TE PARA NOS ALERTAR ÀS DORES ESCONDIDAS...
BEIJO, CONTINUE... SEU CAMINHO ESTÁ TRAÇADO.

Ludmila Clio disse...

Não, querida mãe! Não chore! Celebre!!! Não fosse esse inferno... e eu hoje não reconheceria com tamanha facilidade o céu em que eu vivo! As experiências ruins devem nos servir para não repetir os velhos erros e para detectar as bênçãos!!! Sou muito grata a Deus por ter me permitido passar e vencer essa fase!!
(Amei "seu caminho está traçado"... amém!!!)

Aluizio disse...

Lindo Lud, me comoveu, de verdade... Sem palavras