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domingo, 15 de fevereiro de 2009

É dia de feira



Hoje é domingo. Para a maioria das pessoas, dia de ir à feira.
Acho que eu também vou, estou precisando de umas coisinhas por aqui, coisinhas tão importantes quanto os temperos na comida...
Vou buscar um fardo de carinho, porque tem-me faltado há algum tempo...
Vou buscar também uma caixa grande de alegria, é tão baratinha, sinto-me até um pouco constrangida por não tê-la com frequência...
Quero também um pacotinho de zelo. Sinto muita falta de zelo na minha vida, e é tão gostoso sentir que há zelo na vida da gente...
E vou ver se consigo tudo isso por saudade. É, vou tentar trocar a minha saudade pelo carinho, pela alegria e pelo zelo.

Pois saudade é tudo o que eu tenho.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Palpite


“_ Ele não vai ligar, ele não vai ligar.”

No apogeu de sua espera, essa certeza lhe entristecia como uma sentença. Numa cadência prestíssima, a tristeza lhe acometia. Uma tristeza profunda, solitária; uma tristeza desmedida.

Dentro de si ela sentia a tal tristeza misturar-se com seu sentimento bom numa simbiose tão perfeita, que ela já não sabia onde começava a tristeza, aonde acabava seu sentimento bom.

E essa sensação lancinante a tomava por inteira, fazendo-se insuportável em seu coração. Sentia seu corpo doer. Sentia seu corpo chorar. Chorava o corpo, chorava a alma.

Ela, pelas grades da janela, olhava o céu triste. E o céu parecia compreendê-la. Como uma atitude de solidariedade, estava gris, abatido e chorando. Sim, chovia. Sem vestígio de luz, sem o menor sinal de alegria ou de vida.
Ela, transida de melancolia, sentia a face queimada pelas lágrimas que morriam, ainda quentes, sobre suas pernas.

Naquela tarde deveras infeliz, prostrada, dilacerada, ela contemplava suas impressões. Do que se tratava? Não sabia. Apenas percebia que era um sentimento indelével. E pior, visceral.

Seu peito doía. Parecia-lhe que nele não cabiam tantos (e tamanhos) anseios. Pressentiu uma síncope. Numa tentativa de abreviação dos sentidos, pensou em morrer. Tratava-se de uma avalanche de sentimentos tão violenta que, de fato, sugeria-lhe a morte. E no ápice de seu tormento, desesperada, ela achava isso natural. Contudo, logo se refez:

“_ Cruzes!”

A moça fechava forte os olhos. As lágrimas escorriam-lhe pela face mais ativamente. Seu choro agredia a própria natureza; seu pranto fazia-se mais forte que a chuva.

“_ Ele não vai ligar, ele não vai ligar.”

Um axioma assombroso. Corrosivo.

O silêncio de seu amado tirava-lhe o chão. Poderia até não significar nada, nada grave, mas multiplicava nela um medo atroz. Medo de perdê-lo. Medo de que ele tivesse desistido.

Desesperação. A dor tornava-se ainda mais aguda. Dor, dor, somente dor. O sentimento bom passara.

“_ Meu Deus, o que é isso, o que é isso que não tem fim?”

Questionava em vão. Sentia saudade. Saudade do carinho dele, de sua voz. Saudade de seu desenho contra a luz, de seus segredos. E de suas células. Todas.

No frescor de sua juventude ela tinha o mundo nas mãos. Entretanto, o desprezava. Nada a fascinava. Ninguém, senão seu amado, a encantava. Tornara-se inacessível; a castidade não era a ela, sacrifício algum. Entregava-se apenas a ele. A nenhum outro. Somente ele podia tocar-lhe secretamente.

Num lampejo de agonia, tomou o papel e uma caneta. Tentou escrever algo, mas fracassou. Palavra alguma fora capaz de expressar com exatidão o que vivia naquele instante.

Aflita, ela apertava o próprio corpo, suplicava:

“_ Ai dor... passa, passa pelo amor de Deus, passa...”

Naquela tarde, sua tristeza estava mais triste. Seu coração era um mosaico alucinante de bem e de mal estares.

Sentia uma coragem que quase a assustava. Ela pensava nas gentes e em suas opiniões. Pensava em escândalos e em falácias. (Era muito mais nova.) Mas seu coração escolhia, inexoravelmente, o amado. Cada vez mais ela se importava menos, se importava nada com os conceitos alheios. Ela o queria, o desejava sequiosa e ardentemente.

Naquela tarde de chuva e de melancolia, ela precisava apenas ouvi-lo. Bastaria-lhe. Talvez isso fosse mendicância. Ela preferia chamar de simplicidade.

Já não sabia mais se queria morrer. Talvez fosse melhor viver. É, viver... vivê-lo! Isso, vivê-lo inteiramente, com o peito dormente de dor, com o corpo fremendo de amor, delirante de paixão, demasiadamente passional... vivê-lo!

Sim, decidira viver. (E do jeito que irradiava certeza, sua respiração bastaria para persuadi-lo.) Uma coragem devastadora ajuntava-se agora à sua tristeza.
Silêncio.

O céu continuava contristado, contudo, havia parado de chover. A dor em seu coração abrandara-se. Ela, melíflua, pensou em seu amado. Com a face ainda riscada pelas lágrimas _ evidências de sua devoção _, fechou os olhos e sorriu, ternamente.

E numa inocência quase que pueril, arriscou:

“_ Que estranho... acho que estou apaixonada...”