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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Bruta Flor

(antes de qualquer coisa, devo dizer que fui autorizada a publicar este texto)

E quando eu penso que já pensei em tudo… me vem a vida com novas reflexões… não sei há quanto tempo exatamente começou a trabalhar comigo uma pessoa muito além de especial.  Ela tem um sorriso contagiante e uma simplicidade que comove. Talvez fosse mais uma dessas pessoas interessantes que conhecemos, não fosse um detalhe: ela não tem um dos braços. Ao nascer, ele foi puxado com tanta força pela parteira, que gerou uma grave lesão e em decorrência disso, foi amputado. Você vai me dizer que pessoas assim não são tão raras, basta observar e ver quantos não possuem uma perna ou um braço, a mão ou um dedo… mas assumo que é diferente conviver tão de perto com alguém assim, que tem que se superar diariamente, a cada detalhe. Essa tem-me sido uma experiência nova e até difícil. 

Uma flor...

Todo dia eu a observava com os cabelos muito arrumados, com o uniforme todo certinho no corpo e ficava inflamada pra perguntar se alguém a ajudava, com a segura resposta dentro de mim do sim. Entretanto, um dia ela me disse: “eu acho tão bonito quem trabalha assim, com as duas mãos”. Eu estava ao computador, com as minhas duas perfeitas mãos de pianista ao teclado. Senti um fio de constrangimento, mas finalmente entramos no assunto que me consumia de curiosidade. Para minha surpresa ela disse que eu poderia perguntar qualquer coisa, que ela não se importava em falar nisso. Não perdi tempo…
Como uma mulher prende os próprios cabelos com grampos e pregadeiras, tão perfeitamente com apenas uma mão? E como veste sutiã, Jesus? Como passa fio dental? Como abotoa a blusa, como fecha e abre o zíper de uma calça? E as embalagens de biscoito, de bala, de bombom? Pois ela foi me dando todas as respostas… com jeitinho se apoia no guarda-roupa, na parede, prende daqui, escora dali, aperta aqui, pernas pra que te quero!!! … e pronto, já pode sair de casa arrumadinha! E quanta alegria ela tem na vida! E que sorriso franco! 
Há um tempo que tenho exercitado a gratidão, por poder andar, respirar sozinha, enxergar, escutar… e depois dela, o clima grato em meu coração tornou-se mais detalhista, um tanto mais exigente. Um corte no dedo, um band-aid nos deixa tão “limitados”… e por vezes me lembro de um ex professor de geografia que sempre dizia que “somos adaptáveis. Vamos do calor de Cachoeiro ao Alasca e com um pouco de tempo, nos adaptamos e vivemos bem”. Adaptando a sua ideia climática, reflito em como ser adaptável às circunstâncias da vida! 

...e uma borboleta...
Minha colega de trabalho, agora minha amiga, poderia emanar uma mensagem ruim, limitar sua vivacidade rente ao corte que encerrou seu braço, mas ao contrário, ela irradia uma luz tão sincera, uma garra em viver, um humor tão gostoso, que extrapola quaisquer limites, que amputa qualquer resmungo!
A vida está aí, vamos nos tornando sensíveis às mensagens e aos detalhes, às intenções e ao que está posto muito além das palavras. A todo instante repenso cada gesto, cada movimento automático de minhas mãos ao abrirem uma latinha de refrigerante, ao prenderem meus cabelos, ao calçarem meus sapatos, limparem as lentes dos meus óculos e percebo que reclamar da vida também é um exercício tão automático... 

... uma "bruta flor"sob uma grandiosa borboleta!!!


Braços fortes não significam generosidade, pernas simétricas não são sinônimos de coragem, olhos perfeitos não veem coração,  ouvidos ativos não podem ouvir o que a alma sussura, nem mesmo o que ela grita. Estar inteiro por fora é uma grande ilusão, quanta gente de alma amputada! Certamente com esse rico convívio tenho recebido marcas sutis, que me moldam dentro de uma humanidade mais livre e menos limitada. Só posso agradecer, de mãos entrelaçadas, pela bênção de conhecer uma pessoa tão rica assim!!!

Ilza, que presente conviver com você!!!