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domingo, 8 de setembro de 2013

Coautoria

Por: Tamara Moureth e Ludmila Clio


Arrumar papéis velhos é um risco.
Papéis velhos tornam-se velhos
porque o que neles está escrito já deixou de ser.
Hoje mesmo, li em um deles a nossa história,
escrita em poucas linhas,
mas com palavras tão intensas e profundas
que seriam capazes de perfurar aquele papel.
Quando comecei a passar meus olhos por elas, senti saudade.
Saudade daquele sentimento
que me fez parar meu mundo para prendê-las ali.
Saudade das dúvidas gostosas daquele tempo,
em que eu me perguntava se elas se tornariam felicidade concreta
ou não passariam de palavras sonhadoras, de um conto reticente...
o tempo passou, a esperança esmaeceu,
meu mundo voltou a girar e nossa história deixou de ser,
tornou-se letra fria,
não passou de poucas palavras solitárias, jogadas numa gaveta escura.
Não respiraram, não se transformaram em vida real,
mas em lembranças, em vontades,
em reticências que morreram em ponto final...
Será que algum dia teremos uma história para chamar de nossa?
Enquanto estivermos em mundos diferentes, não.
Preciso da coautoria do teu coração.
Sozinha, não posso chamar de “nossa” essa vontade que é só minha.

domingo, 1 de setembro de 2013

O mendigo da blusa amarela


"O bicho, meu Deus, era um homem." (Manuel Bandeira)


Há alguns dias tenho visto uma cena que se repete, diariamente, na hora do almoço. O mendigo chega, de blusa amarela, diz que veio buscar uma marmita. Seu odor é desagradabilíssimo. As pessoas que já se acostumaram com a sua vinda nesse horário, não lhe fitam os olhos, apenas dizem para que ele aguarde do outro lado da rua.

Para mim, isso é novidade. Não estou acostumada com sua chegada, com sua figura desfigurada. E nem posso me acostumar com isso, o costume nos torna indiferentes. Ontem à noite me lembrei dele e fiquei pensando em que momento ele se perdeu de si mesmo e transformou-se nesse ser indesejado, rechaçado pela sociedade. Depois pensei em coisas aleatórias e apaguei.

Hoje, no mesmo horário de sempre, ele voltou. Ele chegou e uma pessoa logo se antecipou em lhe dizer para esperar do lado de fora, que o almoço já seria entregue. Ele, subserviente, atravessou a rua, colocou no chão sua mochila suja, sentou-se na calçada, ao lado de uma lixeira. O sol estava forte. Ele passava as mãos nos cabelos e na barba, frequentemente. Eu o observei de longe, do lado de dentro, por trás das grades. Entre nós, havia crianças brincando na varanda, e a rua. 

Os pensamentos da noite anterior voltaram com mais força. Não consegui almoçar mais vendo aquele homem com cheiro de decomposição, com trajes deploráveis, jogado como um lixo, na calçada. Não consegui almoçar não pela imagem em si, mas pelo que ela representa. 

Seus olhos estavam absortos. Em quê será que ele pensava enquanto as crianças brincavam, animadamente, na varanda? Esse homem já foi uma criança e somente nisso que eu pensava enquanto não continha mais o nó, embolando minha garganta.

Em que esquina de sua vida ele largou de sua própria mão?

Em que momento ele deixou de ter um nome e passou a ser coisa?

Quando que a sujeira da vida cobriu sua dignidade?

Quando foi seu último banho? 

Será essa a sua única refeição diária? Onde dorme?

Enquanto ele mesmo acarinhava seus cabelos e barba, eu me perguntava quanto tempo há que ele não recebe um carinho, um beijo de mãe, um abraço de filho.

Quando entregaram a ele a marmita, deram-lhe junto um copo d'água. Ele agradeceu. Bebeu a água vorazmente e jogou o copo descartável na lixeira. Um trapo educado. Sabe agradecer. Sabe que lixo se joga no lixo.

Ele pegou sua mochila suja, a pôs nas costas e foi embora. Eu continuei com o olhar morrendo ali, do outro lado da rua, enquanto as crianças gritavam, felizes, em suas brincadeiras. Difícil acreditar que um dia, era o mendigo da blusa amarela que estava brincando em alguma varanda desse mundo.