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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

My baby blue


http://www.youtube.com/watch?v=qbexOeoH5hg

Do trabalho, era uma das mais comunicativas. Com o poder de atrair pessoas, sempre estava cercada por elas. Na maioria do tempo, sorria. Sempre transmitia confiança. Pessoa assertiva, com grande poder de persuasão. Sabia andar muito bem, falar melhor ainda. Estava sempre atenta aos silêncios, aos gestos, aos hiatos deixados pelas pessoas. Olhava nos olhos. Sempre estava presente, sem estar de fato.

Naquele dia foi tudo normal assim. Brincou com as pessoas à sua volta. Conversou com pessoas que não conhecia, seu trabalho era esse. Notou a melancolia de um colega de trabalho, foi até ele saber o que se passava.

Fim de expediente, foi para o ponto de ônibus. Colocou seus fones de ouvido, ficou pulando as músicas do aleatório. Só queria ouvir Elvis e Aerosmith. Aliás, agora podia ouvi-los o quanto quisesse. Voltando para casa, embalada por suas vozes escolhidas, tentava sufocar sua voz interior, que insistia em lhe perguntar o porquê disso tudo. Faltava pouco mais de um mês pra acabar o ano e aquele ano estava sendo, de longe, o mais difícil de todos. Ano de mudanças bruscas. Ano de separações. Ano que provou-a que ela era muito mais forte que imaginava. Muito mais sozinha também.

Ia viajando nos acordes, prestando muita atenção na linha do contrabaixo. Sim, o grave do contrabaixo sempre a atraiu antes dos solos de guitarra. Ia prestando atenção em tudo o que via pela janela. Muitas luzes, alguns mendigos, estudantes voltando para casa, trabalhadores também. O mundo estava se recolhendo, para mais uma noite de calor.

Desceu do ônibus, rumou para casa. Com os fones bem acoplados aos seus ouvidos, sentia-se protegida dos barulhos externos, sobretudo, de seus barulhos interiores.

Ao chegar à portaria de seu prédio, tirou o fone do ouvido esquerdo e saudou o porteiro, que lhe retribuiu, sorridente. Cordialmente ela o perguntou sobre o placar do jogo que estava passando na sua pequena TV, sobre a mesa. Conversaram qualquer coisa nesse sentido, mas a partida que ele assistia não era a mesma a que ela queria saber. Claro, ela estava numa cidade diferente e lá os interesses eram diferentes. Mesmo assim, ela lhe sorriu e se despediu. Encararia alguns lances de escada até chegar ao seu apartamento.

Recolocou o fone em seu ouvido esquerdo e seguiu, lentamente, para as escadas. Lançou mão do verdadeiro silêncio à sua volta e decidiu não acender as luzes. Subiu no escuro e deixou as lágrimas contidas descerem. Aproveitou para chorar e chorou enquanto subia as escadas de seu prédio.

Ao parar na porta de seu apartamento, enxugou o rosto, guardou o fone na bolsa e sacou a chave. Abriu a porta e deu seu melhor sorriso para sua filha adolescente, que lhe esperava. Se abraçaram, ela perguntou à menina como fora seu dia. Conversaram, animadamente. Lancharam, riram.

Mais tarde, cada uma foi para seu quarto. A mãe acessou ao Facebook, curtiu várias publicações de amigos, comentou fotos, deu alguns conselhos in box, como quase sempre fazia. Indiscutivelmente, era uma mulher muito feliz, talvez até realizada! Uma autêntica fraude.

Quando, porém, a partida de futebol acabou e a cidade explodiu em fogos de artifício, novamente ela chorou. Nos intervalos da vida, ela era ela mesma. Nada além de uma garotinha triste.


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Parece dom e é mesmo


O preço de ser forte é ser solitário
Gente forte é feito bicho desconfiado:
quer colo, mas afia as garras;
quer cuidado, mas não confia em quase ninguém
Gente forte é forte porque aprendeu a se virar sozinha,
desaprendeu a ser ajudada_ embora precise de ajuda
O ônus de ser corajoso
é nunca se dar o direito de desistir,
é exigir-se incansável ainda que haja tantas perdas pelo caminho
Gente corajosa destoa
Quer poupar a dor alheia com o maior abraço que for possível,
tem o amor mais forte que a própria força
e essa força assusta porque
gente comum não encara a vida,
gente comum desiste e para
O ônus de ser corajoso
é chorar madrugadas adentro
e enfrentar os dias com a armadura indelével,
sem ceder à amargura
e fazer as pessoas do seu convívio darem risadas, eis o desafio!
Gente forte é feito bicho arredio
que já sofreu demais e apanhou muito
Por isso não se entrega facilmente,
abre-se para as palavras
e tantas vezes as abraça e recosta-se nelas para dormir
O preço de ser forte é ser artista
Sorrir quando tudo por dentro chora
Representar a coragem quando o medo acontece
fascinando e assustando gente comum
implodindo a exaustão nas coxias da vida
Sua coragem não se mede pelos prêmios que conquista
Sua força reside na frágil docilidade,
na meiguice que não se contamina com o azedume dos derrotados
O ônus de ser artista é ser incompreendido:
Um ser tão forte que assusta
Tão verdadeiro que se isola
Tão cheio de amor que espera
Todo artista é um grande desafio
que só outro grande artista aceita.

As belas também choram

(Artigo publicado por mim na page do Copo de Letras dia 22.10.13)


Ela é linda. Eu diria perfeita.

Dona de um corpo escultural, de um sorriso indefectível. Quando ela passa, não tem quem não a olhe, seja homem _a cobiçando_, seja mulher _a invejando.

Hoje Grazi Massafera é um dos nomes mais pronunciados nas redes sociais. Não pela sua beleza, que chega a ser ofensiva, mas porque foi trocada pelo seu marido, por outra bela...

Dizem as redes sociais que Grazi deletou todas as suas fotos com seu (agora ex) marido, Cauã, coisa que todas nós _reles mortais_ um dia já fizemos. Dizem também que ela refugiou-se em sua terra natal, em busca do apoio familiar. Quem nunca?!

Se eu tenho alguma credencial para falar de beleza, arrisco dizer que ninguém está imune à dor. Sempre achei de uma superficialidade e frieza sem fim ouvir de tantas pessoas: "mas você é tão linda, não merece sofrer assim..."

Oi?!

Porventura sofrimento é exclusividade de gente não-linda?! Como se beleza fosse condição para não sofrer. Aliás, essa cobrança social de que as belas têm [que ter] vida de princesa é realmente fantasiosa e sem saber, agressiva.

Bom, não eu, mas que a Grazi seja o exemplo do que estou falando. Não adianta malhar o corpitcho se o cérebro continua flácido. Cumplicidade e relacionamento têm muito mais a ver com caráter que com chaves de belas pernas.

Lamento pela Grazi, sempre a vi ao lado de Cauã como o casal perfeito. Eles eram lindos juntos. No entanto, um deles não mereceu a devoção do outro. Não teve corpo, sorriso, curva, perfeição, sequer uma filha para mantê-los juntos.

Confesso que me é muitíssimo difícil imaginá-la de rosto inchado, no colo de sua mãe chorando a traição de seu esposo, mas no fundo eu sei que isso é possível sim, e como é! Ela é belíssima, perfeita, maravilhosa.

Mas é humana.

domingo, 10 de novembro de 2013

Mais um tom de criatividade





Não sou uma crítica literária, mas sou uma crítica. Não me aguento mais em silêncio, ao presenciar, diariamente o "efeito cinquenta tons de cinza" e então, eis-me aqui, gastando o meu latim ...acerca disso.

Depois da trilogia de E.L. James (Cinquenta tons de cinza, Cinquenta tons mais escuros e Cinquenta tons de liberdade), as editoras têm despejado no mercado uma avalanche de livros catalogados como "literatura erótica". Escritoras como Sadie Matthews, Sylvia Day, Megan Maxuell, Katie Ashley dispararam a escrever títulos (mui sugestivos) como: "Toda sua", "Irresistível", "Intenso", "Para sempre sua", "A proposta", "Peça-me o que quiser ou deixe-me ir" (oi?!), "Te esperarei por toda a minha vida" (só que não) ou os super criativos: "Chamas na escuridão", "Segredos na escuridão", "Promessas na escuridão", enfim, apagaram mesmo as luzes.

O mais ultrajante é que suas autoras só mudam um ou outro detalhe, mas em suma, tudo se resume em um cara lindo, podre de rico, mimado e egocêntrico e em uma mulher comum, de autoestima duvidosa, longe de ter uma beleza estonteante. Por algum motivo essas duas criaturas se esbarram: ele se interessa obcecadamente por ela _o patinho feio da história_ que não acha possível atrair um cara tão "deus" assim. Então ele, com todo o poder que o dinheiro pode dar a alguém a intima para uma conversa de negócios e a propõe sexo sem envolvimento. Ela se sente afrontada, reluta, mas aceita. Daí pra frente vêm os capítulos de narrações detalhadas de atos sexuais, do mais light ao mais exótico, perpassando por sadismo, masoquismo e humilhações, em jogos sexuais de regras muito definidas, detalhadas uma a uma em contrato.

Com o passar do tempo, o poderoso chefão (me perdoa, Coppola!) começa, por si mesmo a quebrar algumas regras, demonstrando _muito discreta e duvidosamente_ apego pela sua propriedade que, à essa altura, já está perdidamente apaixonada pelo seu dono.

O primeiro livro sempre termina com o casal separado, tentando entender o quê está havendo. No segundo livro, o playboy não se aguenta e vai atrás dela. Eles reatam, abrindo mão de muitas regras _o que ela agora impõe_ e eles sucumbem a algo mais parecido com um relacionamento convencional. Já o terceiro e derradeiro das trilogias... Ah, chega de dar spoiler. Se você (como eu) leu os Cinquenta Tons, já tem propriedade absoluta para falar sobre qualquer um deles.

Se essa mulherada de 40-50 anos (perfil das autoras) resolveu expor suas fantasias pro mundo inteiro ler, ok! No problem! Entretanto, duas coisas me decepcionam muito nisso. A primeira é a cara de pau das seguidoras de E.L. James em não se darem ao trabalho de criar uma narrativa diferente. Plagiadoras de carteirinha, registradas em cartório e com firma reconhecida, elas disputam deslavadamente quem é mais depravada ao escrever, basta abrir um de seus títulos em qualquer página para constatar suas baixezas (manuseie um livro desse com muito cuidado, pode emanar algo dele.)

A segunda coisa que me decepciona é a quantidade de mulheres que vão, diariamente, à livraria (trabalho numa) em busca dessa pornografia pobre, gentilmente catalogada de "literatura erótica". As mulheres chegam ávidas pelo próximo lançamento, na mesma proporção em que os homens vão atrás do GTA V ou do Call of Duty, lançado nessa semana.

Isso me dá uns nós na caxola e me faz questionar algumas coisas aqui, com meus botões, como: o quê, meu Deus, há de tão fascinante num homem de perfil arrogante, mimado, cheio de distúrbios psicológicos decorrentes da sua infância, que fazem dele um homem controlador, frio, que não quer se envolver sentimentalmente com ninguém? Que faz uma mulher assinar um contrato cheio de regras a serem cumpridas, incluindo absurdos como estipular a quantidade de comida que ela pode ingerir diariamente... (oiiiii?!)

Por que é sempre um cara extraordinariamente lindo e poderoso a se relacionar com uma mulher de beleza mediana? A pergunta é: esse cara existe?!

O quê as leitoras vorazes dos Cinquenta Tons _e seus milhares de semitons_ estão procurando?! (Não me digam "puro entretenimento" porque não cola.)

Qual é o sentido em ser atraída por esse tipo de domínio, que fere sua dignidade?!

E, o mais cômico de tudo: de todas as conversas confidenciais que já tive com minhas amigas, colegas de trabalho e tantas outras mulheres, posso dizer sem medo de estar exagerando, que pelo menos 7 em cada 10 mulheres adorariam ser procuradas sexualmente por seus parceiros tipo uma vez por mês (pra não dizer "por ano" ou "nunca"). A velhíssima desculpa da dor de cabeça ainda impera. Absoluta.

Então me parece no mínimo incoerente que mulheres tão desinteressadas sexualmente sejam consumidoras insandecidas de Christian Grey e seus pupilos.

Em suma, é patético ver tantas mulheres lendo sobre um assunto que, via de regra, elas nem gostam tanto assim (é óbvio que há exceções. Refiro-me à regra.)

Então a cena é essa: enquanto as mulheres devoram ferozmente as páginas da "literatura erótica" no quarto, os homens estão na sala matanto velhinhas e prostitutas no seu GTA. Fernando Pessoa, Eça de Queirós e Hilda Hilst empoeiram-se, abraçados, na estante e as cinquentonas desprovidas de criatividade _e cada vez mais milionárias_ continuam a escrever seus "romances eróticos" que mais parecem ficção fantasiosa.

C'est la vie!