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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Mulher D, de Desafio*


 
(*Fui autorizada pela minha prima, também escritora,  Thuany Barbosa a usar esse título, que é dela!)   

Eram tantos à sua volta, que ela se considerava uma mulher socialmente bem relacionada. Havia os ex colegas da faculdade, que volta e meia a convidavam para sair e tomar um chopp, havia também os ex colegas do emprego anterior e os do emprego atual também.

Na era digital, também havia os colegas virtuais, que a cortejavam às vezes in box e tantas outras vezes, na timeline mesmo, na cara dura, pra quem quisesse ler: "vc é linda!" ou "nossa, que sorriso perfeito" ou ainda: "meo Deos! Lindíssima!" e por aí seguiam os galanteios.

Havia as amizades coloridas também, aquelas situações em que não se sabe bem o que são; um dia, pegava na sua cintura e a beijava na cabeça; noutro dia, a acordava com um telefonema de voz cheia e gostosa, lhe desejando bom dia. Daí o cara sumia e ficava dez, quinze, vinte-e-dois-dias-sem-dar-o-ar-da-graça, vai entender! 

Ela estava sozinha e poderia estar com quem quisesse estar. Sim, era do tipo mulher poderosa. Só não tinha consciência disso. Ela mesma a impedia de viver muitas histórias, mas fora essa autossabotagem, ela poderia sim, estar com quem quisesse estar.

Passaram dias. 
Passaram semanas.
Passaram meses.
Até anos.

E ela levava tudo _e todos_ na brincadeira. No fundo, não acreditava que nalgum daqueles galanteios existia verdade. 

Se era bonita? Sim, era. Mas quem a faria acreditar nisso? Não, nem o espelho conseguia. Não que ela se achasse feia, mas não, não! Digna de tantas admirações explícitas, definitivamente não! Em seu pensamento, os homens só queriam sexo e para isso, a chamariam de princesa e o escambau pra conseguir levá-la pra cama. Por via das dúvidas, melhor que encarasse tudo com esportiva, no bom e velho fair play.

Os seus admiradores pareciam não se incomodar com sua atitude _ou falta dela. Talvez no fundo, sabiam que não tinham mesmo chance alguma com ela. E pareciam contentados com isso, com sua convivência, com sua presença e tal.

Um dia, porém, ela foi golpeada pelo destino, da melhor maneira em que o destino golpeia alguém. 

Ela conheceu um carinha aí, que não tinha muito daquilo que ela listava como "imprescindível" para conquistá-la. Ao contrário, ele tinha alguns atributos que ela dizia jamais admitir em alguém para relacionar-se. Não se tratava de caráter, mas de critérios que ela supunha importantes _coisa que, na real, toda mulher tem.

Talvez residisse justamente nesse confronto a sua atração.

Sim, ela era daquele tipo que precisava de um desafio para sair do pedestal [ou seria da inércia?].

Olhou para ele. Olhou para sua listinha de exigências. Olhou para ele de novo e para sua listinha. Não, ele não cabia nas exigências dela. Em outros tempos, ela o descartaria e continuaria asséptica em sua redoma de vidro, mas pela primeira vez, não o fez. 

Ainda deu uma última olhada para sua listinha e para ele e, ao invés de desprezá-lo, embolou a listinha, a atirou na primeira lixeira que viu e sorriu, maliciosamente. Será que, finalmente, ela havia compreendido que alguém que, definitivamente, não se encaixava em seus padrões era, de longe, o maior de todos os desafios de sua vida?

Respirou fundo, resolveu pagar pra ver, como sempre fazia quando se sentia desafiada. Estava fascinada com a ideia de estar com alguém inesperado, imprevisto, um verdadeiro improvável. Sim, ela decidiu que ele seria o maior de todos os desafios de sua vida até ali e ela estava adorando essa ideia!

Quando porém mergulhou nessa experiência deliciosamente imprevisível, notou que seus colegas, aqueles ex da facu, ex do antigo emprego, os admiradores virtuais e até os amigos coloridos, todos ficaram profundamente ressentidos com ela. A princípio, ela não entendeu nada, mas depois, a ficha caiu e ela finalmente compreendeu que por trás de todas aquelas brincadeiras, por trás dos chopps inocentes, das cantadas online, dos telefonemas de bom dia e abraços sem interesse, havia sim, muito mais que o desejo de levá-la para a cama uma _ou algumas vezes. Caramba, só agora ela estava entendendo que não era somente um alvo sexual de seus "colegas", mas alvo de paixões disfarçadas nessas convivências descompromissadas, que nem de "amizade" ela chamava. E agora todos estavam magoados com ela. Sentiam-se traídos.

Depois da confusão, porém, ela acabou foi rindo disso tudo. Estava abraçada ao maior desafio de sua vida e desde então, seu relacionamento com o espelho mudara drasticamente.

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