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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

De onde nascem as poesias



Eram uma família de três pessoas.

Eram a mãe, o pai e a filha. Talvez fossem mais de três: a mãe, o pai, a filha e o silêncio.

Há muito tempo não se falavam mais. A menina era oa bolinha de tênis da casa, o pombo-correio entre seu pai e sua mãe.

Sentados à mesa, só se podia ouvir o tilintar dos talheres. Não havia elogios, nem mesmo alguma crítica era proferida. Não havia novidades, interesse ou alegria. _Seriam mesmo uma família?

O telefone toca, em meio à refeição. A mãe se levanta e vai atender.

- Alô?! ... sim, é daqui sim... está. Só um momento.

A mãe tapa os buraquinhos do fone com a palma da mão esquerda e diz:

- Lívia, fala pro teu pai que é pra ele.

Pasma, a menina ligeiramente arregala seus olhos expressivos e castanhos, meneia a cabeça. Seu pai está esbarrando o braço no dela, decerto que ele ouviu o recado, tão bem quanto ela. Mas, oh! O silêncio. Mãe e pai já não se falam há tempos. Talvez anos. Muito provavelmente, além do silêncio, moram ali também o orgulho e a teimosia, vai saber!

Então Lívia, bem ao lado de seu pai _que já ouvira perfeitamente o que dissera a sua esposa_,  lhe diz:

- Pai, telefone pra você.

Ao que ele, satisfeito, responde:

- Obrigado, filha!

O pai se levanta e vai em direção ao telefone. Marido e mulher fazem um esforço descomunal para que seus olhares não se encontrem, Deus os livre se se tocarem!

O pai consegue então pegar o fone da mão de sua esposa sem sequer esbarrar nela, e o atende. Imediatamente o conduz para o quarto ao lado, encosta a porta, deixando apenas uma fresta para o fio.

Da cozinha, nada se ouve. A mãe puxa um assunto trivial com a menina Lívia, que responde sem maiores entusiasmos.

Poucos minutos depois, o pai sai do quarto, recoloca o fone no gancho e volta para a mesa. A mãe tenta prosseguir o assunto com a filha, numa tentativa sádica e sutil de manter seu marido isolado, mas o assunto não resiste à presença quase palpável daquele silêncio imperial, e termina.

Desses pobres diabos _que estão sorrindo nas fotografias da sala_, só se ouve o tilintar dos talheres à mesa enquanto comem.

...

Essa rotina, com algumas variações do silêncio imperial, arrastou-se por mais alguns anos.

Aos dezesseis, a menina Lívia descobriu-se na poesia e nunca mais parou de escrever.

Deve ser pelo acúmulo das palavras não ditas em família.