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quinta-feira, 31 de julho de 2014

Adeus, querido Rubem Alves

Escrito em 19/07/14, data de seu adeus


Hoje o amarelo dos ipês desbotou
É assim, quando morre um poeta, 
as cores do mundo esmaecem
A poesia fica
Ainda que o mundo não a reconheça em seus detalhes, ela fica
Hoje o meu poeta fechou seus olhos para sempre
A partir de hoje suas palavras, 
suas ideias, seu amor, sua generosidade são memória
Ele já não mais existe, 
mas o que o moveu, por toda a vida, sim
Perder Rubem Alves é perder muito da beleza do mundo
Hoje as palavras resistem em sair, 
ficaram meio perdidas, meio órfãs
Os ipês amarelos _ tão ignorados em meio ao cotidiano_ 
perderam o seu maior apreciador
As palavras perderam um mestre, que amava brincar com elas,
que com genialidade, as trocava de lugar
e as fazia soar da maneira mais linda
Um gênio
De hoje em diante os ipês amarelos 
nunca serão tão amarelos como outrora
Obrigada, Rubem, pela magnitude compartilhada,
pela poesia dada, de graça.
Prometo cuidar dela, prometo não deixá-la morrer
Prometo continuar amando os ipês amarelos e,
em cada primavera,
ouvi-los florescer da saudade que sentem de você.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Imensurável



Agora ele tem olhos tristes
É dono de um silêncio gritante,
de uma insatisfação evidente.
Sua Vida mantém distância e agora ele vaga, sem chão.
Ele está cercado de pessoas egoístas,
que se cegaram para os seus olhos tristes,
que se emudeceram diante do seu silêncio desesperado.
Ele está cercado de pessoas
que se justificam em nome do amor,
que o sufocam, o acorrentam em preceitos vencidos,
em mentiras bem perfumadas.
Ele está detido por pessoas que fingem não saber
_ou não sabem mesmo_
que o legítimo amor é libertador,
que suas portas estão sempre, sempre abertas.
Não, não lhes bastaram os seus olhos tristes,
nem o seu silêncio gritante,
tampouco a sua insatisfação evidente.
Ele precisou ser infeliz,
imensuravelmente infeliz.
Sua infelicidade foi o seu argumento
para provar a cada uma delas que, definitivamente,
o seu coração não estava mais ali.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Bagunças Interiores



Para mim, bagunça tem a ver com esperança. 
Não há nada mais desanimador que estar à procura de algo e ver tudo organizado.
Quando tudo está muito certinho, no seu lugar, não me sobra esperança de encontrar o que procuro. 
A organização ma
ta as possibilidades, ela é óbvia demais.
Prefiro a bagunça.
Bagunças são descobrimentos.
Nelas, encontramos até o que não estamos procurando.
Isso me dá esperança.
Um dia, eu encontro.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Poesialmaflor



Uma poesia acende outra, como sinapses formando uma cadeia sem fim de inspiração.

Sim, a poesia é imortal. Ela reside até na feiura do cotidiano.

As entrelinhas são múltiplas e inesgotáveis. Estão, a todo momento, germinando, brotando, florescendo à nossa volta. Quem há de percebê-las, regá-las, colhê-las, replantá-las?

A poesia é como uma flor exuberante à beira do caminho, ofuscada pelas placas, cercas, prédios, carros e portões. É uma mensagem subliminar, um código, uma mensagem implícita da beleza tão contraditoriamente óbvia, pública, exposta.

A poesia nasce de uma palavra ou da beleza decifrada, ela brilha para o poeta em qualquer circunstância, até mesmo numa má notícia de jornal, numa conversa à toa na fila do banco. É a língua dentro da língua.

Poetas se repetem com palavras diferentes, com ordens opostas e desordenadas, movidos pelos mesmos tormentos e sentimentos universais, quem há de saber?

No fundo toda poesia que há no mundo é uma só. Os poetas são as frações de uma inspiração indivisível e suas poesias são partículas da poesia maior, que é perfeita, irretocável, infinita, inacabável, incitada por uma flor exuberante, esperando ser notada, à beira do caminho.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Era pra ser doce



Ao desejares felicidade no amor, 
não sejas tolo em desejá-lo pela metade. 
Não sejas tonto em quereres 
apenas alguém que te ame incondicionalmente.
Eu cometi esse erro. 
Acreditei que um amor me bastaria. 
Desejei que alguém me amasse loucamente, sem limites; 
alguém que se entregasse inteiramente a mim.
Recebi. 
Hoje tenho um amor absoluto,
um coração que pulsa por mim, 
que me quer mais que a vida. 
E eu não poderia ser mais infeliz por isso.
Não me atentei que não faz sentido algum ser amada e não amar.
Hoje recebo os olhares mais apaixonados, 
que os anjos jamais testemunharam. 
E sustento os meus olhos frios, distantes, indiferentes. 
Fui tola ao desejar somente amor, 
e amor que não se troca é condenação. 
É amor que não serve para a felicidade.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Pesadelos


Tentei conter os maus pensamentos dentro de mim,
mas pela manhã, estavam todos espalhados pela casa
Transbordaram, inundaram o chão, que meus pés perderam
Estou com o cheiro deles impregnado em minha pele,
entorno tristezas por onde passo
Quem pode cobrar-me sorrisos?
Quem pode cobrar-me palavras?
Meu silêncio fala, por que não o ouvem?
Passos lentos, cautela para não tropeçar nas tristezas espalhadas
Olhos baixos, cansaço de encarar retinas frias
Alma nauseada, intolerância a pessoas rasas
Voz calada, unhas afiadas, coração automatizado
Vida de pesadelos
Quem pode cobrar-me sorrisos?
Quem pode cobrar-me palavras?
Minha presença me adoece
Minha existência é incompreensível
Tuas queixas não me comovem
Cobra-me hoje o que esperei de ti por toda a vida
Espera sem fim, cobranças sem fim
Frustração sem fim, exigências sem fim
Doação sem fim, comparações sem fim
Mas o jogo vira
Indiferença sem fim, remorso sem fim
Noites sem fim
Vida de pesadelos 
Enfim, por aqui ninguém é,
de fato, feliz.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Chega!



Descobri que não gosto de gente.

Tenho, com a solidão, uma relação sem vergonha. Ela me agride todos os dias (mais especialmente todas as noites), mas eu não posso viver sem ela. Não, eu não me imagino sem solidão.

Parece que a minha missão é resgatar relacionamentos falidos, sou um salva-vidas de amores desenganados. Já não me vejo dividindo a minha solidão com outra. Não , eu não suportaria, minha solidão é só minha, nós nos pertencemos. Sei que é bom amar, mas a felicidade que o amor me proporciona me tira a inspiração.
Minha inspiração brota no tronco da dor. Como eu andaria na poesia se eu fosse feliz? Definitivamente eu não posso trair a minha solidão com um amor, por mais especial que seja. Eu tenho uma imagem de poeta a zelar e poetas são _miseravelmente_ tristes.

Sou uma transpirante de poesias _sim, transpirante. Não posso imunizar-me disso com um amor.

Penso que a minha excelência em reparar amores falidos esteja chegando ao fim, não quero mais isso. Se seus amores não deram certo, por misericórdia: nem olhem para mim. Não se lembrem de mim. Não evoquem minha existência. Que os corações destruídos explodam.

A dor dos outros os faz apáticos, amargos, suicidas. A minha faz-me poeta.

É a minha perfeição em ser triste que faz de mim uma grande atriz, uma amiga desinteressada, uma doida varrida. Não me cobrem atenção, meiguice, amizade ou sorrisos. Isso quem dá é o amor, e nós rompemos. Para sempre.

E também descobri que não gosto de gente.

Eu decidi que não vou me trair com amor algum.


Eu não quero mais me sujeitar a reacender amores que não são meus, eu não quero mais consertar os erros alheios. Quero apenas suportar o meu erro, que foi aceitar o jogo de ódio da solidão, mesmo sem o merecer.