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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Palpável Solidão



Nada naquele lugar era tão feliz
ao ponto de fazê-la ter vontade de estar ali
Só havia a sua palpável solidão
E a indizível certeza de ser profundamente triste
A bela paisagem não a comovia
Ao contrário, a estranhava
De fato ela era a beleza em pessoa,
Mas sua tristeza não a permitia fazer parte de tudo aquilo
Não cabia esperança naquele corte aberto em sua alma ímpar
Sua palpável solidão _passional_ a exigia inteira e assim ela se dava
Não havia espaço para a leveza bela em sua vida estrangulada
Ora, como podia, ainda assim ser a expressão mais bela da tristeza?
Ela só queria não existir
Mas existia
A tristeza precisava de sua beleza, não a deixaria morrer tão bela,
Tramava tragá-la depois de arrancar toda a sua juventude
A bela se vingava veladamente de sua palpável solidão sendo bela,
Absurdamente bela_
Na mesma medida em que era triste,
Absurdamente triste.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Menininhos



Menininhos veem um carro de corrida, ficam enlouquecidos.
A máquina é potente, impressiona.
É uma adrenalina.
Os olhos brilham.
Então eles fazem planos gloriosos,
de serem os maiores corredores de todos os tempos.
No começo, convencem.
Mostram-se à altura da máquina.
Na primeira curva, porém, enjoam.
Ficam tontos, pálidos.
Pedem para descer e descem.
Menininhos são apenas menininhos.
Têm que viver na estradinha de areia, não nas autopistas.


_cansei de menininhos.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Contraproposta Indecente



Amor - sem respirá-lo, eu não vivo
Tua proposta é comovente
Se me tratas tão bem assim,
poderia até amar-te, quem sabe?
Mas teu maior amor não me basta
O que falta, eu não sei, 
apenas falta
Como o mais rico banquete, desprovido de sal
Se aceitares minha metade bem intencionada,
uma porção generosa de mim,
Viverei como quem respira a depender
de um balão de oxigênio
Não o farei plenamente,
tampouco estarei inteira ao teu lado,
mas lá estarei
Serei uma metade, 
de sorrisos esforçados,
de inspirações profundas,
buscando o ar, em desesperação
Serei uma porção de mim mesma, sem forças,
ainda que eu faça força para ser completamente conquistada
Acredite: é insuportável não te perceber
Terás, ainda, que resistir à dura desconfiança
de que eu me apaixono muitas vezes por dia
_todos os dias_
por estranhos que nem eu mesma sei
Se, então, ainda assim me quiseres 
como teu mosaico imontável
de vontades e de distâncias,
então hoje mesmo teremos um acordo
Eu aceitarei o teu inocente amor
e me rejeitarei para sempre por isso.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Causa Mortis: Depressão



As pessoas realmente não sabem o que se passam com as outras. E nem querem saber.

Quantas vezes sorrimos, em um cumprimento, não por felicidade, mas por mera educação. Os olhos denunciam, mas quem olha nos olhos hoje em dia? Quem se importa?

Hoje a felicidade é uma obrigação. Tristeza é frescura. Então simbora ser “feliz” com todo mundo. Vamos postar nas redes sociais nossa vida perfeita e saltitante! Vamos dar força para as outras pessoas, afinal de contas, somos tão fortes!

Quem aguenta tanta pressão? Os amigos estão ocupados demais, desmarcando com a gente, para cumprir outros compromissos. Vamos compreender. Ninguém tem tempo para ninguém.  [Mas o que parecia ser apenas uma confraternizaçãozinha de fim de semana talvez salvaria uma vida! Ah, que exagero!]

O sistema conseguiu automatizar até as amizades. Criaram um novo dialeto cibernético. Criaram uma nova praça de encontro. No chat matamos saudades e relembramos eras mais felizes. Nos engoliram.

Aí o comediante mais incrível do mundo se mata.

Todos se chocaram com a notícia. Ou muitos, não todos.

Alguém havia reparado em como seus olhos eram tristes?

Às vezes esperam tanta força e tanta alegria da gente, como se a gente fosse uma fonte inesgotável de fortalecer e fazer os outros rir, sem direito de chorar, tampouco de se entristecer. Um cara engraçado perde o direito de se sentir triste, ele é uma máquina de fazer os outros sorrir e ponto final. Tá triste? Chama o fulano, ele te anima em dois tempos! Tá caidinho? Liga pra beltrana, ela é uma rocha!

A garota linda, cheia de seguidores do Facebook se cortava, em seu quarto escuro. Quem poderia desconfiar disso?

O cara bonitão às vezes sumia. Dizia que estava estudando, mas eram dias sem fim, que sequer conseguia se levantar da cama.

A depressão mata. Alguém já percebeu isso?

E lamento informar: ainda vai matar muito mais. Aí quem sabe, nesse dia, você faça uma homenagem emocionada ao suicida em suas redes sociais. Quem sabe poste uma foto, até monte um clipe no Youtube e relembre, relembre, relembre...

Não vai mudar nada, mas ainda serve como um bom desencargo de consciência.


Vida que segue.  

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Sementes do Desvario



Fita os próprios olhos a fim de encontrar respostas
Passa pelo dia-a-dia ignorando os clamores da própria alma
O coração acende suas luzes, dispara seus alarmes
Mas inexoravelmente adia atitudes,
faz-se de surdo ante aos gritos que vêm de dentro
Faz-se de cego ante ao incêndio causado pelo tempo, que corre
Estoca vontades, adia carinhos, aborta momentos
Abre rotas de fuga e é tragado pela terra
Some. Desaparece.
Mas encontro-o, em sonhos,
enquanto a realidade ainda não nos permite encontros
Cala-se. Esconde-se. Esquiva-se.
Recolhe-se. Planta-se . Colhe-se.
Que terremoto foi, em minha vida, sabê-lo!
Que nova semente foi essa, plantada em meu coração,
a semente do desvario.
Desconhecida, mas tão querida
Por desconhecê-la,
não sei ao certo o tempo que precisa para erigir da terra,
Crescer e fazer-me sombra,
Mas por tanto querê-la, espero
Pois as sementes do desvario, tão raras,
Ainda hão de encher-me a vida
com suas doses de loucura.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Por uma estação


Coração fechado, apenas para se refazer
Como os olhos se fecham para o sono,
permitas que assim também se feche o teu coração
Que seja por uma estação
E em seu recolhimento,
que ele encontre descanso, renovo, cicatrização
Que ele reencontre o seu brilho
para que não sejam teus olhos
como olhos em coma
Que ele perca o medo,
mas que não perca o juízo
Que ele se cure da tristeza,
Que ele volte a ser livre,
não se livrando nunca da vontade de voltar a florescer
Porque feito a natureza dos olhos,
coração que nunca mais volta a se abrir
é coração que deixou de viver.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Causo de Universitário


Quando as coisas não querem dar certo, não adianta. Elas simplesmente não darão certo. Estou no primeiro ano do curso de Direito e tinha que preparar um trabalho para a professora de Sociologia, super-super exigente. 

Pra começar, a professora, milagrosamente, prorrogou o prazo de entrega do trabalho pra hoje. Acabei o meu ontem. Ontem, além de ser a véspera da data marcada, era feriado. Talvez isso explique o mau tempo.

Minha amiga leva meu pen drive para o trabalho dela, pra imprimir. O pc dela não lê meu arquivo. Tudo desconfigurado.

Depois de muita cabeçada, ela consegue, mas me acorda cedinho, me chama pra ir lá configurar a papelada.

Eu vou. Mas é meu ex emprego e a gerente e eu não nos amamos muito. Tensão a mil, ela pode entrar por aquela porta a qualquer momento.

Meu coração passa no teste, ele está bem. A gerente não aparece.

Um colega do escritório, minha amiga e eu apanhamos para numerar as páginas do trabalho a partir da página 5. O que seria feito em 3 minutos, leva cerca de 45.

Sobrevivi. Sobrevivemos.

Volto pra casa. Faço almoço. Almoço. Arrumo o material.

A hora avança. Preciso levar minha filha pequena para a casa da moça que cuida dela até a outra moça _que também cuida dela_ chegar. Sim, são duas, em dois tempos, é muita dependência das pessoas, Cristo!

Minha filha é recebida. Respiro aliviada. Já estou no ponto de ônibus, enfim, vou pra faculdade apresentar o meu trabalho de Sociologia.

Estou no ponto faz três minutos. O celular toca. É a moça, dona da casa onde eu acabei de deixar a minha filha.

Ela vai sair, não pode ficar com a menina. Só me avisa agora. Acho muito lindo isso.

Ligo para alguns vizinhos: o MUNDO não pode ficar com a minha filha.

Eu volto: "vamos juntas pra faculdade, filha. Vamos em casa pra você trocar de roupa."

Ligo pra empresa de ônibus, para confirmar os horários: "sai um para a faculdade de Direito às 18:20 do bairro vizinho, passa na sua porta em cinco minutos."

Ufa! Que sorte!

Lembro que não tenho grana pras passagens da minha filha, eu só uso o cartão. É, sou universitária, dona de casa, pãe (você leu certo, sou pãe). Minha grana vai toda para aluguel, comida, lanchinhos para a escola, xerox e pão, quando dá.

Ligo pra mulher que cuida da minha menina no segundo tempo da maratona. Ela vai passar aqui em casa assim que sair do trabalho.

Toque da campainha combinado: minha filha, tão pequena, só vai atender se for: pen-pen!!

Ok. Vou pro outro ponto de ônibus. Aquele dali, do outro lado da minha rua!

São 18:15. Se atrasar muito, passa umas 18:35.
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Vejo do ponto a mulher-do-segundo-tempo chegar.

Ela toca a campainha: pen-pen!!
Minha filha aparece no portão, sorrindo, quase 02 minutos depois.

Vejo do ponto elas abraçadas, indo pra casa da mulher-do-segundo-tempo.
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Passa ônibus pro bairro nobre, passa ônibus pro centro (06, pra ser exata), passa ônibus pro bairro pobre, passa ônibus pro bairro afastado do clube, passa ônibus pro distrito vizinho. Também passa ônibus pra Marte, pra onde Judas perdeu as botas. Inclusive passa ônibus pro Inferno.
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Passa ônibus pro Quinto dos Infernos, pra Casa do Chapéu, pra Ponte que Caiu, pro Fim do Arco-Íris, pra Disneylândia... 
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Depois de exatos 72 minutos de espera, eu desisto.

Vou pra casa tentando não ter um colapso, expiro e inspiro.

Expiro, inspiro.

Expiro e me esqueço de inspirar, fico roxa.

Expiro todo o ar do mundo para me recompor.

Estou aguardando ansiosamente por descobrir um propósito nisso.

Amanhã vou ligar pra casa da professora super-super exigente de Sociologia, vou ao consultório dela mostrar as provas da minha dedicação. Será que ela vai acreditar em mim?????????
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Pior que isso tudo é verdade.

Faço votos sinceros que a empresa de ônibus exploda. Que a pessoa que confirmou os horários fique rouca por cinco anos. Que a professora super-super exigente de Sociologia seja surpreendida por uma notícia maravilhosa, que a deixe com ótimo humor, para que ela nem preste atenção na minha ausência. E que um dia, eu possa contar esse episódio dramático como um passado distante, fazendo as pessoas rirem e pensarem em como eu posso ser tão criativa e inventar uma história tão surreal dessas...!!

Mas eu garanto: não sou tão criativa assim...