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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Causo de Universitário


Quando as coisas não querem dar certo, não adianta. Elas simplesmente não darão certo. Estou no primeiro ano do curso de Direito e tinha que preparar um trabalho para a professora de Sociologia, super-super exigente. 

Pra começar, a professora, milagrosamente, prorrogou o prazo de entrega do trabalho pra hoje. Acabei o meu ontem. Ontem, além de ser a véspera da data marcada, era feriado. Talvez isso explique o mau tempo.

Minha amiga leva meu pen drive para o trabalho dela, pra imprimir. O pc dela não lê meu arquivo. Tudo desconfigurado.

Depois de muita cabeçada, ela consegue, mas me acorda cedinho, me chama pra ir lá configurar a papelada.

Eu vou. Mas é meu ex emprego e a gerente e eu não nos amamos muito. Tensão a mil, ela pode entrar por aquela porta a qualquer momento.

Meu coração passa no teste, ele está bem. A gerente não aparece.

Um colega do escritório, minha amiga e eu apanhamos para numerar as páginas do trabalho a partir da página 5. O que seria feito em 3 minutos, leva cerca de 45.

Sobrevivi. Sobrevivemos.

Volto pra casa. Faço almoço. Almoço. Arrumo o material.

A hora avança. Preciso levar minha filha pequena para a casa da moça que cuida dela até a outra moça _que também cuida dela_ chegar. Sim, são duas, em dois tempos, é muita dependência das pessoas, Cristo!

Minha filha é recebida. Respiro aliviada. Já estou no ponto de ônibus, enfim, vou pra faculdade apresentar o meu trabalho de Sociologia.

Estou no ponto faz três minutos. O celular toca. É a moça, dona da casa onde eu acabei de deixar a minha filha.

Ela vai sair, não pode ficar com a menina. Só me avisa agora. Acho muito lindo isso.

Ligo para alguns vizinhos: o MUNDO não pode ficar com a minha filha.

Eu volto: "vamos juntas pra faculdade, filha. Vamos em casa pra você trocar de roupa."

Ligo pra empresa de ônibus, para confirmar os horários: "sai um para a faculdade de Direito às 18:20 do bairro vizinho, passa na sua porta em cinco minutos."

Ufa! Que sorte!

Lembro que não tenho grana pras passagens da minha filha, eu só uso o cartão. É, sou universitária, dona de casa, pãe (você leu certo, sou pãe). Minha grana vai toda para aluguel, comida, lanchinhos para a escola, xerox e pão, quando dá.

Ligo pra mulher que cuida da minha menina no segundo tempo da maratona. Ela vai passar aqui em casa assim que sair do trabalho.

Toque da campainha combinado: minha filha, tão pequena, só vai atender se for: pen-pen!!

Ok. Vou pro outro ponto de ônibus. Aquele dali, do outro lado da minha rua!

São 18:15. Se atrasar muito, passa umas 18:35.
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Vejo do ponto a mulher-do-segundo-tempo chegar.

Ela toca a campainha: pen-pen!!
Minha filha aparece no portão, sorrindo, quase 02 minutos depois.

Vejo do ponto elas abraçadas, indo pra casa da mulher-do-segundo-tempo.
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Passa ônibus pro bairro nobre, passa ônibus pro centro (06, pra ser exata), passa ônibus pro bairro pobre, passa ônibus pro bairro afastado do clube, passa ônibus pro distrito vizinho. Também passa ônibus pra Marte, pra onde Judas perdeu as botas. Inclusive passa ônibus pro Inferno.
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Passa ônibus pro Quinto dos Infernos, pra Casa do Chapéu, pra Ponte que Caiu, pro Fim do Arco-Íris, pra Disneylândia... 
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Depois de exatos 72 minutos de espera, eu desisto.

Vou pra casa tentando não ter um colapso, expiro e inspiro.

Expiro, inspiro.

Expiro e me esqueço de inspirar, fico roxa.

Expiro todo o ar do mundo para me recompor.

Estou aguardando ansiosamente por descobrir um propósito nisso.

Amanhã vou ligar pra casa da professora super-super exigente de Sociologia, vou ao consultório dela mostrar as provas da minha dedicação. Será que ela vai acreditar em mim?????????
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Pior que isso tudo é verdade.

Faço votos sinceros que a empresa de ônibus exploda. Que a pessoa que confirmou os horários fique rouca por cinco anos. Que a professora super-super exigente de Sociologia seja surpreendida por uma notícia maravilhosa, que a deixe com ótimo humor, para que ela nem preste atenção na minha ausência. E que um dia, eu possa contar esse episódio dramático como um passado distante, fazendo as pessoas rirem e pensarem em como eu posso ser tão criativa e inventar uma história tão surreal dessas...!!

Mas eu garanto: não sou tão criativa assim...

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