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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

C'est la Vie...


Decidimos nos jogar do precipício juntos
Ele me deu a mão e apertou firme
Demos um passo à frente e ganhamos o vazio
O amor nos abraçava,
flutuávamos naquela imensidão de  carinhos e descobertas
De repente senti um solavanco no braço,
ele havia se desprendido de mim
Quando olhei para o lado, ele já não estava,  
estava lá em cima, cada vez mais distante
Ele levara o paraquedas, não me avisara
[Gente precavida é de uma inocência perigosa]
E de flutuar, passei a cair em queda livre
Fechei os olhos, já não me permiti surpreender
A covardia passou a fazer parte do meu cotidiano, 
ele foi apenas mais um
Acordei meses depois,
mais ferida que antes,
mas mais forte também.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Tira-teima



Depois que ele foi embora, ela passou meses juntando os próprios cacos. Foram pouco mais de oito, nove semanas juntos, mas foram tempos avassaladores, tais quais a dor que ela ainda sentia quando se lembrava dele, de seu sorriso ou da forma em que ele arqueava a sobrancelha direita ao falar.

Lentamente a saudade doída foi se acalmando e se transformando em uma breve lembrança. Teria ela o esquecido ou guardara tudo numa caixa de memórias abandonadas?

Era dezembro. Reencontrara um antigo pretendente. Cara desses interessantes, que a atraía, mas que jamais tivera oportunidade de estar junto dela. Ele a convidou para enfim fazerem o tira-teima. Afinal, seus mundos davam voltas, quase se esbarravam, mas quase.

Ela aceitou. Não tinha medo de correr nenhum dos riscos oferecidos pela paixão. Iria passar o Natal e o Ano Novo com ele. Estava de mala pronta. Iria para o Chile. O encontraria para cessar as ilusões e, definitivamente, saber se ele era o amor da sua vida.

Sentia-se ansiosa, feliz. Estava confiante. O desconhecido a fascinava.

Na manhã do embarque, conferiu a passagem, enfiou-a na bolsa de mão, que estava pendurada em seu ombro esquerdo. Levantou a alça da mala e rumou em direção à porta. Quando girou a maçaneta, porém, o telefone tocou. Por alguns segundos, ela quase o ignorou, mas atendeu, ainda segurando a alça da grande mala.

A voz, do outro lado da linha, disse apenas:

- Por favor, não desliga. Sou eu.

Ao ouvir essas palavras, a bolsa deslizou do ombro e parou em seu antebraço. Seu coração parecia bater dentro dos ouvidos. Ela não mais sentia as pernas, como se sua pressão arterial tivesse ido ao zero.

Há amores que julgamos superados, mas só estão intocados na caixa.

Já é setembro e ela ainda não conhece o Chile.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Caos no mundo cão

"Da onde vem o tiro?"


Há tempos que não saímos à noite. Se saímos, estamos tensos. O medo da violência já é respirável, está pulverizado à nossa volta.

Celular é um chamariz. Entretidas nos chats da vida, muitas pessoas se expõem ao risco de um assalto sem se dar conta.

Andar com joias, nem pensar. Aliás, nada que se pareça com uma pode ser exposto.

Os assassinatos ao vivo já não nos chocam tanto. Estão nos cauterizando, dia-a-dia aumentando as doses da violência e todas as suas variações cavalares.

Nossas casas já estão acomodadas entre grades, fios de alta tensão, cacos de vidro e qualquer coisa que dificulte a entrada de um estranho. Ainda assim, podem ser invadidas a qualquer hora, seja noite, seja dia.

Aqui em Campinas, desde o último dia 1º não se pode mais pagar as passagens no transporte público com dinheiro, somente com o cartão eletrônico. O argumento da empresa é o de garantir mais segurança aos cidadãos. Legítimo ou não, a triste verdade é que estamos nos adequando à violência, mudando nossa rotina e nossos costumes, mudando nosso percurso e horários à medida que os índices da brutalidade disparam.

Acredito que não haja inversão mais desanimadora e perigosa que essa, que nos mantém tensos, enclausurados, à mercê da violência e, parafraseando Herbert Vianna, sem saber o calibre do perigo, da onde vem o tiro.


O sentimento de invasão é sentido em uníssono pela população, que vai, cotidianamente se adequando à violência. É um paradoxo viver numa sociedade que super valoriza o ter em detrimento do ser, se na realidade, não se pode ter nada. Nem vida.