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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Tira-teima



Depois que ele foi embora, ela passou meses juntando os próprios cacos. Foram pouco mais de oito, nove semanas juntos, mas foram tempos avassaladores, tais quais a dor que ela ainda sentia quando se lembrava dele, de seu sorriso ou da forma em que ele arqueava a sobrancelha direita ao falar.

Lentamente a saudade doída foi se acalmando e se transformando em uma breve lembrança. Teria ela o esquecido ou guardara tudo numa caixa de memórias abandonadas?

Era dezembro. Reencontrara um antigo pretendente. Cara desses interessantes, que a atraía, mas que jamais tivera oportunidade de estar junto dela. Ele a convidou para enfim fazerem o tira-teima. Afinal, seus mundos davam voltas, quase se esbarravam, mas quase.

Ela aceitou. Não tinha medo de correr nenhum dos riscos oferecidos pela paixão. Iria passar o Natal e o Ano Novo com ele. Estava de mala pronta. Iria para o Chile. O encontraria para cessar as ilusões e, definitivamente, saber se ele era o amor da sua vida.

Sentia-se ansiosa, feliz. Estava confiante. O desconhecido a fascinava.

Na manhã do embarque, conferiu a passagem, enfiou-a na bolsa de mão, que estava pendurada em seu ombro esquerdo. Levantou a alça da mala e rumou em direção à porta. Quando girou a maçaneta, porém, o telefone tocou. Por alguns segundos, ela quase o ignorou, mas atendeu, ainda segurando a alça da grande mala.

A voz, do outro lado da linha, disse apenas:

- Por favor, não desliga. Sou eu.

Ao ouvir essas palavras, a bolsa deslizou do ombro e parou em seu antebraço. Seu coração parecia bater dentro dos ouvidos. Ela não mais sentia as pernas, como se sua pressão arterial tivesse ido ao zero.

Há amores que julgamos superados, mas só estão intocados na caixa.

Já é setembro e ela ainda não conhece o Chile.

Um comentário:

Sylvana Sarria disse...

Ai que burra... como eu :(