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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Apenas um Lápis



O rapaz chegou para pendurar as cortinas.

Precisava de um lápis para marcar os pontos na parede, para fazer os furos. A moça prontamente trouxe o lápis. Ele o usou várias vezes, pôs no bolso da calça.

A moça o ajudava, enquanto ele estava pendurado na escada. Entregava a furadeira, pegava de volta. Passava a trena, pegava a trena. Passava a bucha, o parafuso.

Pronto. Todas as cortinas estavam no lugar, inclusive o quadro do Elvis, finalmente fora pendurado.

A moça estava feliz, as coisas estavam no lugar, tudo logo estaria harmonioso.

Se despediram. O moço foi embora. A moça começou a passar pano no chão, pra limpar a sujeira, tirar aquela parede em pó de sobre os móveis e cantos. O cheiro de limpeza já se sentia quando a moça deu um grito:

- Não acredito, não acredito!

Lembrara que o lápis havia ficado no bolso do rapaz, que foi embora com ele. Era apenas um lápis, sim, apenas um lápis. Mas aquele lápis era a única lembrança palpável daquele que ela ainda amava, mas fora embora. Um presentinho bobo, daqueles de extrema simplicidade, que carregam toda uma história de duas almas que se amam, mas não podem ficar juntas.


domingo, 28 de dezembro de 2014

Janela Aberta


- Moço, me ajuda. Essa janela não para aberta, cai toda hora! E hoje tá calor demais!

- É, moça. Essas janelas que abrem de baixo pra cima são complicadas. Com o tempo, a pecinha fica frouxa e ela fecha. Mas um pedacinho de papel quebra o galho. Me arranja um, que eu amasso ele bem amassadinho e firmo ele aqui do lado, ó.

A moça abriu um caderno que estava sobre a mesa, passou os olhos rapidamente sobre a folha examinando-a e, sem pestanejar, rasgou a ponta do papel, de fora a fora.

O moço se interessou pelo que estava escrito. Era manuscrito e uma letra bonita, por sinal. Ele não se conteve e disse, com tom pesaroso:

- Ô moça... Que pecado. Você rasgou isso que é tão bonito, isso é poesia...

A moça deu de ombros e replicou sorrindo:

- Ah, isso era um rascunho!

O moço sorriu, aliviado:

- Bem vi que você é diferente. Você é a primeira pessoa que me dá poesia para manter a janela aberta.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Previsão do Tempo



No início, o fim foi terrível, como todo fim
Nossa doce rotina ainda estava fresca,
pairando pelo ar da casa
Tuas impressões digitais
ainda estavam nas capas dos discos, na escova de dentes, na minha pele
Olhar para aquele lado da cama e não te ver
era tão triste, me fazia chorar,
eu enfiava o rosto no travesseiro e gritava, para  expurgar aquela dor na minha alma
Dormia de exaustão, imersa nas nossas lembranças
Acordar era um castigo, os dias tinham um peso incalculável
Respirar era pesado, viver era um sacrifício
A cada amanhecer eu acordava um pouco menor
Deixava uma porção da minha vida
Diluída nas horas da madrugada
Os dias entraram, saíram, nunca mais te vi
Teu cheiro, antes impregnado nos lençóis,
hoje é uma vaga lembrança em minha memória
Eu não tenho a menor das notícias sobre tua vida,
Simplesmente teu passado te tragou,
como o mar traga pequenos barcos, em noites tempestivas
Era um domingo de sol, tinha tudo pra ser lindo, mas foi o início do fim
Hoje pareço em paz,
mas não posso chamar esse mormaço de paz se ainda me inspiras tanta saudade
Parece paz, mas só de ouvir teu nome, numa boca qualquer,
me arrepio inteira, sinto que ainda estou presa naquele domingo de sol,
que fechou o tempo da minha vida, 
que fez desabar a tempestade
que até hoje só chove saudade e nostalgia.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Nem todo mundo é feliz no Natal



No descaso de quem amamos residem nossas maiores decepções. Tristeza nos deixa de cama, feito gripe das brabas. Mas tristeza acomete a alma, e alma de cama não pode ser tratada como uma simples gripe.

Queria entender _porque não me lembro_ do que é feito o vírus maldito e tão poderoso que paralisa e imbeciliza os adolescentes que, há bem pouco tempo, ainda eram crianças amáveis, felizes com o que tinham e adoradores de seus pais _ou mães, nesses tempos modernos de “pães”.

A poucas semanas do Natal, a alma daquela mãe estava doente, agravando-se cada dia mais. Moravam juntas: mãe e filha. A menina, agora adolescente, naqueles rompantes estapafúrdios típicos da idade, já não tinha brilho nos olhos pela sua mãe que, como quase todas as mães, fazia de tudo pela filha. Ao contrário, a cada exortação da mãe, Íris, a filha, revirava os olhos, bufava, expressando profundo cansaço e descaso, como se sua mãe fosse da Idade Média e completamente inadequada aos seus dias.

À medida em que o ano passou e o vírus diabólico da adolescência se desenvolveu no corpo e nos olhos de Íris, um abismo se abriu entre as duas. A situação piorou quando a menina, uma ainda pífia criança, autointitulou-se madura e arrumou um namorado.

Coisa triste é dividir a casa com quem mais se ama e continuar sozinho. Aquele ano _e devo dizer que nos seguintes também_ foi assim. Íris respondia a qualquer expressão de sua mãe com atos silenciosos, com olhos fumegando despeito, deboche e até certa raiva. Numa tarde de novembro, bloqueou a mãe no whatsapp, canal que mais usava para namorar. Algumas vezes chegou a fazer planos de fugir com o grande, único e verdadeiro amor de sua vida, o namorado, de 13 anos.

Íris queria protestar. Não tocava na comida que sua mãe deixava pronta para ela. Deixava furtivamente as correspondências sobre a cômoda da sala, sem qualquer aviso. Uma vez ela chegou a tirar do varal apenas as suas roupas, deixando todas as de sua mãe lá, penduradas.

(Imagino que ingratidão de filho deve doer mais que a dor do câncer, aquela que nem morfina dá conta. Mas só imagino, não tenho filhos. E não sei se quero tê-los.)

Em 13 anos, aquela era a primeira vez que não havia espaço para a sua mãe no Natal de Íris. Ela iria para a casa do namorado, passar o Natal com a família dele, abandonando a própria família naquele pequeno apartamento adoecido há alguns meses. “Que boba! Taca-lhe uma surra!” Diriam alguns à mãe de Íris, mas ela não suportaria ter a presença da filha à contragosto. Há vezes na vida que não há nada que podemos fazer senão esperar voltar quem amamos para cuidar de suas feridas. Deixa a menina pensar que sabe da vida, deixa ela pensar que é madura, deixa ela acreditar que é dona da verdade. Cair faz parte do processo de crescimento e essa menina optou pela dor, vai aprender e a primeira lição que a vida há de lhe ensinar é que mães nunca são desnecessárias.

Na tarde daquele Natal, a mãe de Íris ficou muda, como há muito já estava, apenas observando de soslaio a filha, que desfilava saltitante do quarto pro banheiro, cantarolando e dando gritinhos de ansiedade. Naquela tarde sua mãe fez que não viu a filha tirando a graça das ondas de seus cabelos com aquela prancha que a deixava com cara de industrializada, tampouco deixou de reparar que a menina carregava os olhos e os cílios de lápis e rímel pretos, o que a vulgarizava e tirava-lhe todo o tom pueril. Resignada, sua mãe apenas observava. É inútil descrever as dores. Para conhecê-las é mister senti-las.

Apesar do amor infinito que a mãe de Íris sentia por ela, ela não se opôs a nada. Suspirou fundo quando ouviu a menina, já com a porta da sala entreaberta lhe dizer: “Feliz Natal, mãe”. Do corredor, podia-se ouvir a voz exultante de Íris: “Amor, daqui a pouco estou aí! Te amo!”.

Sobrou naquela sala uma solidão palpável, um silêncio imperial que gritava. De qualquer cômodo daquele pequeno apartamento era possível ouvir as batidas do coração da mãe de Íris.

À meia-noite ela partiu um pedaço do panetone que ganhara de seus patrões e se aproximou da janela. Era o primeiro Natal que não preparava a Ceia, que Íris tanto festejava todos os anos. Da janela, seu corpo refletia todas as cores dos pisca-piscas das janelas do prédio em frente ao seu. Enquanto mastigava lentamente aquele seco pedaço de panetone, ouvia os fogos de artifício e vozes muito felizes e alteradas, vindas de todos os andares e prédios próximos ao seu.

À meia-noite e cinco, a mãe de Íris se deitou. Tornou-se filha e sentiu uma saudade dilacerante de sua mãe e de todos os Natais que puderam viver juntas.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Segredos Modernos


Aí você se pega discutindo a reportagem do telejornal com você mesmo, sentado, sem postura, no sofá da sala.
E faz as contas, percebe que todo dia, conversa virtualmente com metade do mundo; 
pessoalmente, com menos de cinco pessoas.
Abre a geladeira e vê vários potinhos com pequenas porções de comida.
E também repara que fala sozinho quando toma banho.
Seca sozinho uma garrafa de vinho de quinta categoria em plena terça-feira, ouvindo música de primeira.
Se deita e abraça os seis travesseiros.
Antes de dormir, se pega acarinhando os próprios cabelos e pensa que não tem notícias das pessoas com quem você mais riu junto.
E também percebe como é difícil não pensar em quem já te fez chorar tanto.
De madrugada, vai à cozinha beber água, mas não acende nenhuma luz, pois sabe exatamente onde está cada coisa: ninguém além de você mexe nelas.
Pela manhã recebe as correspondências, sem perspectiva alguma; há muito só chegam contas a pagar.
Na rua, olha as vitrines e repara na cafonice das pessoas, chega a debochar e novamente lá está você discutindo consigo mesmo a coragem que certas pessoas têm de se vestirem assim ou assado.
E quantas vezes você já mandou sua mente parar de te acusar daquilo que poderia ser, mas não foi _e nem vai mais.
Todo dia, disfarça para os patrões, e pra atendente da padaria também.
Passa mais horas no trabalho que em casa, mas quem se importa, se há apenas paredes e coisas à sua espera?

Eu não saberia fazer igual a você



Eu compreendo
Quando você finge me desprezar
E faz que não está se importando, sim,
Eu compreendo
De alguma maneira você precisa se defender
Deve ser mesmo frustrante experimentar a paixão
E voltar para a segurança de um relacionamento morno
Sabe, no teu lugar, eu também tentaria te desprezar
Para me manter convencida e segura
Tentaria desviar meu olhar sempre que corresse risco de você me flagrar te admirando,
Te deletaria das minhas redes sociais,
Da lista telefônica
Tentaria parecer uma muralha fria e intransponível
E, como você faz tão bem,
Conteria o ímpeto de voar em você
E te abraçar apertado, desesperada e em silêncio,
Deixando meu coração bater forte
 ao matar a saudade do teu calor na minha vida
Sim, eu compreendo essa tua dureza e até admiro:
É preciso muita coragem
Para ser tão covarde assim,
e essa coragem me falta, 
por mais que eu tente, ela nunca vem.