Seja muito bem-vindo ao Copo de Letras!! Sirva-se sem moderação. ;)

sábado, 26 de dezembro de 2015

Resenha do "Sem Filtro na Veia", por Tudo Online



Quando eu penso que tudo acerca do Sem Filtro na Veia já foi dito, sou surpreendida pela resenha linda escrita pelo Sávio França, do blog Tudo Online!

Gratidão define! Fico muitíssimo feliz ao ver que, às vésperas do lançamento do Febríssima, o Sem Filtro na Veia ainda me rende tão belos frutos e tão lindas parcerias!!

Obrigada, Sávio! Belíssimo trabalho!!

Gratidão sempre!!!

sábado, 12 de dezembro de 2015

Fascínio


É dolorido revisitar os lugares em que estive contigo,
onde vi teus olhos tão de perto 
ouvi tuas risadas espontâneas
Chega a ser deprimente reler nossas conversas,
me ater aos mínimos detalhes
tentando decifrar a tua entonação,
a temperatura de cada palavra, 
cavando as entrelinhas em busca de algo novo
nos textos que já sei de cor
Está difícil inaugurar um novo dia todo dia
sem a perspectiva da tua nevralgia
Conviver com a tua ausência,
relembrar teu tom de voz 
e lutar para que tuas feições não se apaguem da minha memória
Se eu te disser que não te espero, minto
Mas te espero sem esperança,
e é isso mesmo: pura contradição
Você não me puxou para o amor,
mas me atirou na agonia de querer o que não devo
e se não devo, eu quero
o fascínio do improvável, 
do imperfeito, do proibido,
do desnecessário imprescindível.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Farelos




Eu e esse meu olhar clínico,
que capta todo sentimento fora de lugar.
Sim, me incomodo com os amores desperdiçados,
com os olhares mendicantes,
com o descompasso sentimental.
Sinto toda a infelicidade alheia
quando pouso meus olhos em amores que não amam.
Às vezes me atrevo a querer salvar as pessoas,
mas a vida tem me ensinado que elas não querem ser salvas.
Elas sabem que estão onde não deveriam estar,
mas ali ficam, por covardia de lutar por um amor que transborda.
Contentam-se com farelos 

e quem morre de fome sou eu.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Parceria Nova - Tudo Online


É muito bonito ser "descoberta" por uma equipe apaixonada por poesia, disposta a multiplicar o meu trabalho. Isso aconteceu há alguns dias. O Sávio França me procurou na fanpage do Facebook e me convidou para uma parceria com o seu blog, o Tudo Online.

Convido a todos para lerem porque tá lindimais!!

Muita dignidade nas palavras, muito zelo e capricho nas citações, nas fotos e informações. Trabalho sério e fluindo leveza!!

Agradeço aqui, publicamente ao Sávio, e espero estar de volta em breve no Tudo Online, com o Febríssima, que já está no forno e logo, logo será palpável!!

E também é muito bonito ver que a essa altura o "Sem Filtro na Veia" ainda me rende frutos tão maravilhosos!!

Tá tudo lindo, tá Tudo Online!!
Gratidão sempre!!

domingo, 6 de dezembro de 2015

Rotina, Sangue e Coração

Tínhamos um pacto: rotina, sangue e coração
Nada sairia do previsível cotidiano
Manhãs forçadas pelo despertador
Tardes evaporando entre as tintas
Noites morrendo nos braços da rotina
Mas na noite passada fui traída:
rotina, sangue e coração tramaram um plano
sem que eu soubesse
A rotina se misturou à multidão 
e eu a perdi de vista
O sangue mudou de direção 
e o coração acelerou pelo desconhecido
Hoje de manhã acordei bagunçada 
e sem despertador
Há um sorriso tímido nos meus olhos
E eu ainda não sei se realmente fui traída
ou abençoada.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Urgências


Ama-me
Não tentes entender
Não me faça perguntas
Não calcule
Apenas ama-me.

Abraça-me
Como quem precisa do meu amor
Como quem não pode me perder
Como quem só é completo em meus braços
Apenas abraça-me.

Pertença-me
Sem escutar opiniões
Sem olhar para os lados
Sem sofrer com julgamentos
Apenas pertença-me.

Aceita-me
Tenho defeitos e o maior amor do mundo
Tenho versos e me faltam melodias
Tenho olhos para ti e desprezo infinito por todo o resto
Apenas aceita-me.

Queira-me
Sem reservas
Sem medos
Sem distâncias
Apenas queira-me.

Viva-me
Em ti está minha pulsação
Em ti reside o meu melhor
Em ti preciso estar
Apenas viva-me.

Mas sobretudo
Entrega-te.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Acaso


Passam quantas pessoas em sua vida, diariamente?
É fila de banco, atendente de padaria, trânsito difícil, academia.
Dezenas de possibilidades diárias, mas seus olhos teimam,
têm aquele brilho incandescente por tudo que _dentro do cotidiano_ soa impossível.
“De senso comum o mundo está cheio”, diz.
Pior que é verdade.
E ainda bem que existem almas com sede de impossíveis.
Um dia, duas delas acabam se esbarrando numa fila de banco ou numa livraria por aí.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Amor Meu


Não gosto de te chamar de amor
embora muito eu te ame
Aliás, é por muito te amar
que eu não gosto de te chamar assim
Chamar de amor quase sempre é um clichê,
seja amor inerte, pesado de costume
ou porque estão olhando e soa bem
Não, não soa!
Amo-te tanto que não mereces ser chamado de amor
Pois és amor sentido,
amor doído, amor esperado, demorado,
amor feito com amor
Não, eu não gosto de te chamar de amor
embora muito eu te ame
Olha aí!
O amor está na boca de qualquer um!
Tolos, traidores, indiferentes, frios, impostores
E meu amor transborda fervente
Vive
Espera
Mata
Me devolve à vida
Jamais morre
Meu amor explode na palavra fria
Ri da soberba de quem se sente dono
Não cabe no clichê
e cospe na cara do costume
Meu amor deixa a porta aberta,
não precisa dos teus olhos para ser leal
Não, eu não gosto de te chamar de amor
embora muito eu te ame
Aliás, é por muito te amar
que não posso te chamar assim.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Quando um Sonho se Desfaz


Nunca mais me pergunte se estou bem
Sonhei por aí, e naquele banco de praça
Mas o sonho é a porta que abre para fora, é ida
E eu nasci devendo,
essa conta vou pagar com minha vida
Enfim, eu me rendo, aceito a fôrma
Automatização da alma, o sim forçado
A razão é a porta que abre para dentro, é volta
e é aqui que me encontro, ficha caindo
Porta que abre para dentro:
medíocre realidade imposta,
que me acorda chutando a boca todas as manhãs
Aceite, alma, nem todas nascem para vencer
Sonhos custam caro, não foram feitos para você
Empurre a vida,
Assista, espremida em teus fracassos, às vitórias alheias
Simplesmente conforme-se com essa sua patética existência
Limpe o sangue da sua boca a cada manhã e sorria
Isso é teu, nada mais que isso
Vida sem idas
Sempre voltando, retrocedendo, negativando
Portas que abrem para fora custam caro
e você mal tem dentes para mastigar um pão
_quando este não lhe falta
Tua porta é a que abre para dentro,
maldita razão sempre exata
E nunca mais me pergunte se estou bem,
visto que já não sonho em lugar algum
E sigo em frente, sempre voltando,
enquanto limpo o sangue da minha boca e sorrio
parecendo estar tão bem.

sábado, 7 de novembro de 2015

Eu: Antíteses


Simplesmente confusa, penso que algum dia serei incrível.
Tenho ótimas ideias, porém nem sempre as realizo.
Sonho demais, o tempo todo, raramente lembro do que sonhei quando acordo.
Eu achava tatuagem coisa de marginal. Hoje tenho sete e já tenho a oitava em mente.
Minhas amigas dizem que eu mudo a toda hora.
Amo a minha mãe, tenho ciúme do meu pai.
Já tive verdadeira abominação pelos Estados Unidos, já cogitei morar lá um dia
_e adoro Coca-Cola, desde sempre, mas cortei os refrigerantes da minha vida.
Sou canhota até pra mastigar, uso mais o lado direito do cérebro.
Amo golfinhos, nunca vi um de perto.
Amo temperos. Comida e gente sem tempero não têm a menor graça.
Torço pro Flamengo e nem adianta fazer cara feia.
Nunca tive furúnculo ou torcicolo, nunca tive dengue, nem conjuntivite. 
Tenho os dois joelhos e os rins _muito_ ferrados.
Amo música, mas nem todo tipo.
Adoraria distribuir fones para funkeiros. 
Adoro dançar, morro de vergonha de dançar em público.
Gosto da simplicidade, fujo de ostentação.
Não tenho paciência pra drama, Às vezes sou meio dramática.
Corro de gente melindrosa, queria poder evaporar perto delas.
Às vezes sou fleumática, às vezes faço tempestades em copo d'água.
Sou apaixonada por algodão doce.
Tenho um livro publicado e lá vem o segundo, sinto vergonha que me leiam na minha frente.
Minha memória é seletiva, não me lembro do que não me é importante, sinto até o cheiro dos dias especiais.
Adoro praia, morava a meia hora da praia, só ia lá uma vez por ano. Agora moro a quatro horas da praia. Devo ir lá daqui uns 3 anos.
Nasci detestando Beatles, antipatia de nascimento, sem motivo. Já tentaram me converter. Tentaram.
Passei a gostar de Beegees de repente. Ainda há esperança para os Beatles.
Não gosto de chorar, choro por qualquer coisa.
Não liguei pra morte de Renato Russo, chorei semanas pela morte do Ayrton Senna.
Sou individualista, não me dou muito bem em trabalhos em grupo.
Tenho mania de perfeição.
A maior vítima da minha TPM sou eu mesma.
Já fui a melhor da classe, já fui expulsa de sala.
Fico constrangida quando falam palavrão perto de mim. Falo vários.
Gosto de observar, o que me encanta é o invisível.
Não gosto de frases feitas, adoro usar frases de músicas.
Já tive milhares de amigos. Amo profundamente os meus raros amigos.
Adoro conversar, não tenho paciência pra conversas com gente pequena.
Alguns me acham esnobe e abusada_ às vezes eu sou mesmo.
Sou sincera, gosto de transparência.
Sou hiperbólica, não gosto de frações.
Já morri de amor. Já senti mais amor que recebi, já recebi mais amor que amei.
Sou desconfiada, desconfio até de mim, desconfio mais de mim que dos outros.
Já viajei por horas para conhecer alguém.
Eu me conheço inteira, às vezes me surpreendo comigo mesma.
Adoro chocolate, adoro músicas melancólicas.
Sou solar, adoro tempestades _com trovões e relâmpagos.
Nunca me convide para assistir a filmes de ficção fantasiosa, de vampiros e zumbis, nem com dinossauros ou com bichos falantes porque eu não vou.
Sou fã dos Vingadores, me identifico com a fúria do Incrível Hulk. Sou calma até demais.
Adoro a trilogia do “Antes do Amanhecer”. 
Adoro "Doce Novembro" e "Outono em NY". Sempre choro como na primeira vez.
Já assisti "Titanic" mais de cem vezes, sempre tenho esperança de que as coisas deem certo por lá.
Estudei piano por quase vinte anos, não sei mais tocar piano. Quero ter um piano em casa.
A violência me apavora. Treino boxe e muaythai há alguns anos.
Ouço todo mundo, não me abro facilmente.
Eu queria ter a força da minha avó.
Amo minha filha, minha filha me enlouquece.
Adoro dar carinho, sou carente.
Já fui depressiva, já fui refém dos 'tarja-preta'. Jamais tomaria aquelas porcarias de novo.
Meu humor é ácido. Quase ninguém entende _acho que gosto dele por isso.
Conheço gente das quais me envergonho por conhecer.
Gosto de dormir de dia, passo madrugadas acordada, escrevendo.
Amo Elvis, ele morreu antes de eu nascer.
Espero ir, um dia, aos shows do Maná e do Aerosmith.
Sou apaixonada por Geografia, não faço ideia de onde fica a Federação dos Estados da Micronésia.
Reparo nas mãos, nos olhos e sorriso das pessoas, mas é a inteligência e a sensibilidade delas que me capturam para sempre.
Adoro o silêncio, eu falo demais.
Eu me disfarço, me divido, me multiplico.
Eu me resumo, me alongo. Me abrevio, me expando.
Também tem dias em que eu me condeno, me critico.
Às vezes, sinceramente, eu me adoro.
Às vezes, sinceramente, eu nem sei.
Talvez por não me entender que eu não nunca desisto de mim mesma.
Sou um desafio complicado e é por isso que eu não me largo.
Talvez, um dia, eu hei de me compreender.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O que Sempre quis Ser


Guarda pra mim o teu último brilho,
teu último fulgor, teu último vestígio de luz
Guarda pra mim o teu último desejo,
teu último abraço, teu último beijo
Guarda só pra mim a tua última esperança,
tua última hora, sorriso e lágrima
Guarda também o teu último pensamento, teu último sentimento,
carinho, vontade, olhar, bilhete, música
Eu não quero nada que nasça primeiro,
nada que venha antes, que acorde cedo
E enquanto guardar meus últimos pedidos,
resista a cada ataque da saudade,
não se renda ao pesadelo, tampouco à realidade
Vá gastando teus milésimos de segundos com terceiros
[eu espero]
Ainda que chova,
hás de chegar a tempo
[eu sinto]
Pousarás teus olhos _urgentes_ sobre mim
[eu quero]
e em êxtase, receberei teus últimos presentes
Serei então a tua última certeza
e me tornarei tua última lembrança:
o que sempre quis ser
Pois o último não é resto, mas o que fica
E sendo o último, torna-se primeiro
e assim se eterniza.

Novembro Azul


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sou Apenas

Clique aqui para assistir. Pegue um lencinho.

Que fase maravilhosa a que tenho vivido! "Febríssima" irá ao forno semana que vem, os últimos rabiscos do ilustrador, o incrível Vanz Santos, estão sendo executados! Sensação maravilhosa de ver, de forma palpável, tudo o que foi imaginado. Além do tempo record, ele alcançou em cheio o cerne da proposta. Nada mais sensacional que lidar com alguém que compreende o que é dito e, mais ainda, sentido!

Ademais, ao longo do processo de pré-venda e gestação desse segundo filho, ganhei artes lindas como esta imagem que meu amigo irmão (e também escritor) Diego Velleno criou para divulgar o "Febríssima" e há algumas semanas fui sacudida por essa obra-prima (vídeo - clique no link sob a imagem) do meu grande amigo Danyel Sueth, que pegou meu texto em forma bruta e o lapidou com essa magnitude! Interpretação maravilhosa, simples e profunda. Perfeita.

O "Febríssima" tem me trazido pessoas que eu não conhecia, me reaproximado de algumas que estavam distantes e aprofundado outras relações. Essa integração toda faz dele um sonho não mais particular, mas um sonho de todos os "febris" que embarcaram de corpo e alma nesse delírio comigo!

No primeiro trimestre de 2016 "Febríssima" será lançado simultaneamente no Brasil e em Portugal, casa da Chiado Editora! Quem sabe não passo por lá pra conhecê-la e dar um abraço na minha mãe?! 

Estarei em Cachoeiro de Itapemirim-ES (minha terra natal e quente) para fazer o lançamento oficial com meus amigos e chegados. Em breve as datas serão confirmadas.

Quando o ano de 2015 entrou, eu não sequer imaginei que teria meu segundo livro publicado, tampouco com as proporções que ele tem sido gerado.

Agradeço a Deus, à Chiado Editora pelas portas abertas, à minha mãe _delirante número um_, aos amigos, a Mark Zuckerberg, a Graham Bell, aos Correios, aos índios, ao incrível Hulk _pela empatia ímpar_, ao Mick Jagger, Steven Tyler, Adele, aos irmãos Lumiere, aos sommeliers da Terra... todos, de alguma forma, participaram efetivamente do "Febríssima"! 

Falando sério, gratidão define!


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Estrelas



O que vou contar agora aconteceu quando eu tinha uns 14, 15 anos.
Era janeiro, alto verão e eu estava veraneando na casa de uns amigos dos meus pais.
Toda noite íamos pra calçada, em frente à casa.
Eles ficavam papeando e eu, única adolescente do meio deles, ficava perto, mas no meu mundinho.
Numa dessas noites, abri a cadeira de praia e me deitei nela, fiquei de cara para o céu.
Um vizinho escutava uma música romântica, nas alturas.
Eu me desliguei das vozes falando perto de mim e fiquei ouvindo a música e olhando para o céu.
De repente acabou a energia.
Ouvi aquele "uuuh" geral, de toda a rua.
As luzes todas se apagaram, mas o que eu vi, instantaneamente, foram centenas de pequenas estrelas surgirem no negro céu.
Foi lindo e ninguém que estava ali comigo percebeu.
Naquela noite eu vi que luzes artificiais nos cegam para as estrelas e que algumas só brilham quanto maior for a escuridão.

domingo, 20 de setembro de 2015

Lembranças do dia em que nasci


O mundo está tão calmo, parece sorrir com a tua chegada. Ilusão.
As águas de março escorrem pelas janelas
enquanto abres teus olhos para a vida que te deram
O dia está quente,
uma manhã de outono que arde e chove, és mesmo contradição
Deus hoje te amaldiçoa com amor animal:  
hás de andar um tanto sozinha, serás poeta
Isso não te trará nenhum mal,
sorrirás tão forte que o inverno te temerá
Serás ave andando pelo chão,
podendo ir ao céu sempre que ele lhe convidar _e convidará!
Vejo em teus grandes olhos que és fera,
vais chorar somente quando for madrugada
Até as folhas secas do outono te adorarão,
elas serão teu código com Deus
Serás o melhor e o pior exemplo  
Mesmo na primavera, não te abrirás
Serás a partitura, mas permanecerás muda,
pois nunca lhe compreenderão
Serás o que presta e também o que não presta
O tudo, o nada. Jamais o que resta
Terás cada dia uma forma:  
hoje cigarrro, amanhã cinzeiro. Cama, travesseiro.
Taça, vinho. Águia, ninho. Isca, anzol. Breu, farol.
Quadro, parede. Fome, sede. Nudez, timidez. Delírio, sensatez.
Nenhum canto desse mundo lhe será estranho,
caberás em todos, menos em si mesma.
Então sorria, e finja, e sinta e seja
E goze, e plante, e adore, e cante
Mas muito mais: escreva.
Proteja teu amor insano, queira ou não queira,
pois o mundo é injusto, logo saberás
Não te iludas com o que vês,
lance teus grandes olhos sobre o que ninguém alcança
Dance na chuva que ora cai,
violentando o mundo com a tua presença
Oriente-se pelo Sol, feito um girassol
Ofereças a paz de teus olhos e esconda o puro caos que tens no coração
E assim serão todos os teus dias por aqui
Irradiando força e luz àqueles que se alimentarão dos teus raios
Morrendo sozinha sob as estrelas ao som do silêncio.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Quando a vida real até parece Aposta



Dia desses pulei cedo da cama e fui dar uma volta na Avenida Paulista. Estava na cidade a passeio e queria sentir de novo a energia daquele lugar. Sim, é um amontoado de concreto, o ápice da urbanidade, mas paira uma atmosfera muito forte sobre aquela avenida e só quem já passou por lá sabe do que estou falando.

Era manhã de domingo. Entrei numa livraria imensa, estava acontecendo dois lançamentos de livro ao mesmo tempo. Coisas comuns na maior cidade do Brasil. Coisas que nunca vi na minha cidade, no interior de Minas Gerais.

Fui direto ao café e pedi um mocha quente. Não importa quantos mil graus Celsius estejam fazendo, eu sempre peço um mocha quente, é meu preferido. Ah, e pronuncia-se "móca" e não "môcha", como parece.

Peguei meu mocha, num copo lindíssimo e me sentei num banco alto, que compunha uma das mesinhas redondas do café. Fiquei observando os autores em suas mesas, distribuindo sorrisos e autógrafos, pousando para fotografias. Fora o entra e sai de dezenas, talvez centenas de pessoas à livraria.

Livraria é um lugar sagrado. Falei na atmosfera magnífica da Avenida Paulista, agora cê imagina a atmosfera de uma livraria na Paulista! Jesus!

Eu, absorta no meu café e absorvendo cada partícula daquele lugar, demorei um pouco a perceber que, bem na minha frente, entre mim e os autores próximos à entrada da livraria, havia um homem me fitando. Quando reparei, fiquei meio incomodada. Sempre fico. E também não achei nada de mais nele. Como eu não tinha um livro, sequer um folheto para me agarrar e fazer minha melhor cara blasé, fiquei mesmo desconcertada e comecei a prestar atenção em qualquer coisa. Me distraí alguns minutos reparando a emenda do tampo de madeira da mesa onde eu estava.

O homem continuava a me examinar, mas eu não dei a menor chance.

Até que duas eras de milênios depois, uma moça se aproximou dele. Ele ficou de pé e a abraçou longamente, muito feliz. Começaram a conversar. Falavam espanhol. Logo entendi a situação: ela era irmã dele e eles não se viam havia tempos. Nossa! O idioma espanhol é meu fraco, à primeira palavra pronunciada por aquele homem, foi como se luzes, anjos e corais invadissem o café e sorrissem e brilhassem para mim. De repente o homem figurou-se num ser maravilhoso e eu morri de vontade de conversar com ele. Mas àquela altura, ele só tinha uma coisa a fazer: matar a saudade de sua irmã, era como se eu já não estivesse mais ali. E não estava mesmo.

Em poucos minutos eles se foram. E eu fiquei ali, com a minha melhor companhia, com aquele copo lindíssimo e dois dedos de mocha esfriando.




quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Quando a vida real até parece Piada


Marcela saiu do quarto e foi até à cozinha pegar um copo d'água. A princípio não foi notada, mas quando pediu licença pra tia Alda dar acesso à geladeira, todos, em uníssono começaram a criticá-la:

- Até que enfim saiu do calabouço, menina! _censurou sua mãe.

- Nossa, pensei que tivesse morrido lá dentro! _ironizou o tio.

Marcela, meio constrangida na cozinha de sua própria casa, deu um sorrisinho, bebeu um pouco da água e completou o copo para voltar com ele cheio para o seu quarto. Antes, porém, parou no corredor e ouviu sua mãe dizendo:

- Ai, gente, liga não. Essa menina é muito antissocial. Estamos todos aqui e ela lá, trancafiada naquele quarto o dia inteiro, lendo livros.

- Minha irmã é esquisita, bicha estranha!

- Realmente, ela nem interage com a família. _criticou tia Alda.
...
...

E logo fez-se novamente o silêncio daquele encontro de família para o almoço de domingo. 

Cada um voltou a prestar atenção no seu próprio celular.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Quando a vida real até parece Poesia



Revendo fotos de família, reparei que Jaider, meu primo, sempre estava de olhos fechados. Ladeado pelos seus três irmãos que sorriam fazendo chifrinho uns nos outros ou simplesmente com cara de sono, não importava: Jaider sempre estava de olhos fechados, muito apertados.

Um dia perguntei pra mamãe por que ele era o único que não interagia com o momento da fotografia. Ela me respondeu que Jaider fechava os olhos porque acreditava que fechando os olhos não apareceria nas fotos.

Senti uma pontinha de piedade da inocência dele e um orgulho ainda maior. Muitas vezes, fechar os olhos não nos livra, mas bem que alivia.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Mundo Particular


A gente não sabe muito bem quando magoa
Nem o quanto
O tanto 
Por quanto
Me diz quantos desentendimentos
reverberam dentro de um silêncio cortante
Já contou quantas lágrimas
morrem, por noite, no travesseiro?
Quem sou eu hoje depois de tudo isso?
A gente gritava que se amava, mas chovia
Nós não escutamos a nossa própria verdade
e passamos a dormir ao lado de uma fria mentira
O brilho de nossos olhos se apagou
De repente sentimos o peso da vida
A música que sorria, chorou
Perdemos a variação das nossas felicidades
e tão somente dos olhos pra dentro, em segredo,
repetimos quantas vezes as antigas!
Dias em que sorríamos
Brilhávamos
Implicávamos tanto um com o outro, e era tão bom!
Criamos senhas, códigos, coisinhas só nossas
diluídas em cafés, docinhos, acordes,
revistas, pétalas, poesias servidas no frescor das manhãs
Música desfilando de batom vermelho no espelho
Velas e incenso aclimatando o nosso espaço
Mas o Sol se escondeu
A gente gritou que se amava, mas chovia
Era o nosso mundo particular que ruía
Quem somos nós depois de tudo isso?
Devoção, vontade ou orgulho?
Já contou quantas lágrimas
morrem, por noite, no travesseiro?
Ora, chega de saudade
Vem, me dê a mão
Prometo que se a chuva voltar
vou te abraçar apertado
e dizer no teu ouvido
que te amo
Sem precisar o tanto
O quanto
Por quanto
Juro que não soltarei a tua mão,
não te deixarei partir nunca mais
Deixa chover, deixa o céu desabar
Surgir o segundo Sol, ter eclipse lunar
Ah, meu amor,
só não deixa de acreditar.

sábado, 22 de agosto de 2015

Incêndios

Em todo coração
há uma chama crepitante.
Sua natureza
é incendiar tudo o que é seco
ao seu redor.
Mas que penumbra é essa,
em que vivemos!
Os corações vão contra
o próprio instinto,
e acostumam-se
a queimar em linha reta,
com pouca luz
e brilho nenhum.
Por fim,
morrem em seus próprios pés:
reles borrões de cera derretida.

domingo, 9 de agosto de 2015

Comemorar o Dia dos Pais não é pra Qualquer Um


Todo Dia dos Pais é a mesma coisa. Eu recebo felicitações pela data. Dizem que faço parte de uma categoria chamada “pãe”, a mãe que também é pai. Não tenho estatísticas para apresentar, mas arrisco a dizer que mais de 90% das pães queriam ser apenas mães e não planejaram agregar a função de pai para si.

Hoje muitas “pães” estão com o coração partido porque viram seus filhotes eufóricos para entregar para seus pais a cartinha feita na escola, e eles estão passando o dia fora. Tão pequenos e inocentes, eles ainda não podem compreender que o mesmo pai que lhes beija o rosto, lhes nega um agasalho ou um remédio porque excede o valor da pensão.

Fico lisonjeada que reconheçam minha batalha, mas vou lhes contar o pouco do que só eu já vi, sendo “pãe”.

Já vi minha filha, ainda mui pequena, esperar o dia inteiro pela visita de seu pai que, simplesmente desligou o celular e não apareceu.

Já vi seu pai suborná-la com doces, chicletes e até com a bicicleta que eu não poderia dar a ela.

Já vi minha filha se esmerar na escola fazendo o cartão do Dia dos Pais e eu mesma ir à homenagem na escola porque obviamente ele tinha algo mais importante que a própria filha para fazer.

Já fui de táxi com ela para o hospital, já incomodei amigos para nos buscar e passar na farmácia antes de nos levar pra casa.

Já passei noites inteiras em claro vigiando sua respiração e temperatura, sem ter com quem dividir a angústia e o cansaço.

Já comprei brigas com ela, impondo limites, sendo eu mesma a primeira e última instâncias da casa.

Já vi seu pai bloqueando-a do próprio Facebook e telefonando anos depois, falando em saudade.

Já desisti de brigar pela sua pensão porque entendo que isso não deveria ser compulsório, mas um ato mínimo de responsabilidade paterna, que fluísse do coração.

Já vi o rostinho dela muitíssimo frustrado por não poder ter tantas coisas que não posso lhe dar.

Já ouvi seu choro dolorido e abafado no travesseiro inúmeras vezes.
E tantas outras coisas...

Então quando você vir uma mulher que cria sozinha seus filhos, isso é um pouco do que está por trás dela: um amontoado de nãos, de mágoas, de frustrações, de cansaço e toda responsabilidade do mundo, pesando toneladas sobre suas costas. Um deslize e todo o mundo de acusações recairá sobre ela. Ser “pãe” é uma prova árdua de resistência, de competência, de sobrevivência. É dormir diariamente pensando no quanto a vida é dura quando não se pode contar com ninguém.

Hoje é Dia dos Pais e pouquíssimos homens podem verdadeiramente se orgulhar disso. 

Sigamos na luta!

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

No Pain, No Gain!


Pode haver vida no que chamamos de amor?

Todo encontro é uma despedida de nós mesmos. Do que fomos até aquele momento, do que jamais seremos outra vez. E toda despedida é um reencontro com aquilo que deixamos um dia, acreditando estar acertando em cheio a felicidade. Nada disso. A vida é uma sucessão de erros, nada mais que isso. Quem diz viver em paz sabe que falta o tormento sacolejante da insegurança para manter-se acordado, vigilante. A paz que permite um sono tranquilo pode não ser paz, mas descaso, pouco caso, rendição. É preciso sentir na espinha o ardor imperceptível de que a energia não é o bastante para manter a vida acesa, flamejante e incandescente, e lutar por mais energia, e mais e mais.

Toda dor dói. 

Dói sentir a topada na quina do móvel com o dedo do pé. Dói o movimento dos cristais formados no interior dos rins. Dói uma sucessão de contrações para parir. Dói nascer. Dói crescer. Dói viver. Dói sentir essa dor que não tem rosto, que eu não sei o nome, a cor dos olhos e da alma. Dói esse mosaico de saudades inconscientes da segurança do útero de onde saí. Dói essa calmaria nauseante de quem sofre sem nem saber por quê. Dói a acusação da minha falta de identidade, mesmo tendo matrícula, sequência, certidão, numeral, registro geral, mesmo eu sabendo exatamente quem eu sou. Dói ter um coração onde é comum ter um código de barras. E é a dor que nos traz a certeza de ainda viver!

Viver dói. 
Passar pela vida anestesia.

Pode haver amor no que chamamos de vida?

Pois seja vida, seja amor, sem dor não vale a pena. Anestesia.

Tarde

Ele a acusava de mentirosa: 
'Você disse que me amava, 
ontem à tarde, não se lembra?'
Sim, decerto ela se lembrava, 
falara mesmo em amor que, 
na tarde passada, até a ela convencia.
Contudo, seu amor 
era tal qual uma nuvem de fim de tarde: leve, única, volátil.
Quando a noite chegou, 
já não mais existia.
Foi um instante de amor que passou.
Momento perigoso em que ela se
permitiu pronunciar o que ele mais almejava ouvir. 
Ele queria o céu. 
No entanto, com ele,
ela seria apenas uma nuvem.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Seis Travesseiros


Ela sempre dormia espremida do lado direito da cama.
Era como uma mensagem subliminar para a vida, um sinal. 
Deixava livre o lado esquerdo da cama, que era como seu coração, vazio.
Sim, para ela a cama e o coração eram espaços que se completavam.
Impossível completar a cama tendo incompleto o coração.
E assim passaram os meses, os anos. 

Aos poucos, ela invadia o lado esquerdo da cama, 
pois ninguém chegava ao seu coração.
Hoje ela dorme atravessada na cama, com os pés pra fora.

 Esconde-se sob seis travesseiros, 
não há espaço para outra pessoa em sua cama.
E vazio permanece o seu coração.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Entrevista - Blog Gabrielle Polary




Queridos!!

Leiam essa entrevista dada à Gabrielle Polary, a Gabi!

Ela gerencia o blog que leva o seu nome, Gabrielle Polary, um cantinho muito lindo, cheio de novidades, entrelinhas e de frescor de uma alma grande e cheia de poesia!!

Beijo grande a todos!!

domingo, 5 de julho de 2015

Entrevista - Blog Jovem Literário

Arte: Elô Pompermayer
Queridos!!
Leiam essa entrevista dada à Eloísa Pompermayer, a Elô!
Ela gerencia o blog Jovem Literário, um espaço lindo e propício para os entendedores de entrelinhas!!

Beijo grande a todos!!

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Arranque-se!


Arranque o que te sufoca.
Arranque-se da situação.
Tire os sapatos, afrouxe a gravata.
Tira o jeans apertado, vista pijamas, se for o caso.
Esqueça os bons modos, não se explique.
Mude a rota, renove os sonhos.
Aumente o volume e não se importe com nada que venha de fora.
Te chamarão de inconsequente, louco, irresponsável, sem noção.
Liga não,
é dessas coisas que são chamados os que se ouvem, os livres de coração.
Arranque-se do que te sufoca.
Não aceite que te encaixem nos moldes do tempo social.
Faça teu coração parar de bater e começar a pulsar.
Parece a mesma coisa, mas vai por mim, quase nada é o que parece ser.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Doce Espera


Ela estava na pequena cozinha do apartamento, 
fazendo brigadeiro e absorvendo a música que tocava no celular. 
Desligou o fogo e começou a dançar naquele pequeno vão, 
entre a geladeira e o fogão, fazendo da colher de pau, seu microfone. 
Soltava a voz e dançava. 
Fechou seus olhos por um instante e desejou que o seu amor, 
onde quer que estivesse, 
sentisse chegar ao coração a sua alegria por viver aquele momento tão simples e feliz. 
Ela estava dividindo com ele a plenitude que sentia enquanto o esperava chegar de vez. 
E chegaria.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Os Sons das Chaves


Toda chave tem seu próprio som. Eu sei porque ao longo da vida conheci vários sons de chaves: os da casa onde morei, do carro do papai, dos lugares onde trabalhei, enfim. Todas tinham seu som exclusivo.

Hoje carrego comigo dois molhos diferentes. Procurando por eles na bolsa, me guio pelo seu som e por ele eu sei se estou pegando as chaves certas ou não. 

Que grande bobagem é ficar pensando em sons de chaves, mas é um tema que me fez pensar nos nossos próprios sons. 

Acredito que produzimos sons enquanto vivemos, a todo tempo. Em meio a tantos, um é exclusivamente para nós. É aquele som que chega familiar aos nossos ouvidos, que nos aperta a pressa de chegar logo, que oferece aconchego, abrigo, lugar de descanso e renovo. Ah, quando esse som acontece, pode saber, encontramos o nosso lugar! 

Às vezes a gente força a chave errada. Ela entorta. Empena. Às vezes a coitada até se quebra, fica inutilizada. Mas a chave certa flui, sem traumas. Tranca-nos para o medo e abre-nos para a segurança de um lugar tranquilo, de amor, melodioso, sereno. Um lugar onde a gente pode ser a gente mesmo. É o lar da gente, no coração de quem a gente ama e também ama a gente. 

E embora as chaves tenham a função de prender, a chave do nosso lar nos liberta, trancando nossa solidão e escancarando a nossa felicidade porque onde reside nosso coração, ficamos por puro querer, cadeados e segredos são desnecessários.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O Som do Sim

Não acredito que estou aqui outra vez
Ressentindo, sentindo tudo de novo
A dor de um novo fim, desse meu único amor
Que não cai, não se vai
Que mora longe e aqui dentro
Que eu preciso e me destrata
O som do sim me salvaria,
mas a maldita cautela não o pronuncia
Teus olhos me querem e me rejeitam
Sei que ardem de saudade dos meus
Meus dias diminuem, 
tamanha é a ausência do teu calor
Eu poderia ser a flor exuberante,
mas longe de ti eu não sei ser flor
Sou reles folha seca, 
e faço absoluta questão que assim seja
Desprezada, que ninguém enxerga
Que o vento leva e o chão beija
Que só quer se esconder, ser pisada pelo esquecimento
A dor da saudade é devastadora
e célula a célula vai me apagando
As memórias estão vivas, antes morressem!
Mas é a lembrança da luz dos teus olhos
que me mantém respirando
Vou vivendo sem tocar na vida
Ando, mas por dentro estou em coma
Meu silêncio grita, minh'alma chora
Eu só queria não ter te conhecido
A vida não teria graça desde o início
e eu não saberia como é essa tal alegria de viver,
essa plenitude que o amor proporciona,
esse riso frouxo que a paixão escancara
Apagar-te de mim é um suicídio lento e cruel
Agora meu único e mendigo desejo é dormir
Fechar os olhos para tudo isso _que é nada sem ti
e me render ao sofrimento desse amor que chega a me doer o peito
E que vive, cada dia mais forte enquanto eu
Enfraqueço
Desfaleço
Esmaeço
Enlouqueço de saudade.


domingo, 10 de maio de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (15/15)

“Deve haver alguma coisa que ainda te emocione
Um vinho tinto, um copo d'água
A chuva no telhado, um pôr-de-sol...”
(Humberto Gessinger)

Quem escreve, não para nunca. A gaveta ficava cada dia mais pesada, com mais escritos guardados. Aqui fora, muita gente me cobrando uma publicação. As pessoas não têm limites mesmo... não são poucas, até hoje, as que chegam para mim e dizem: “olha, meu ex-namorado se casou, mas me ligou ontem... escreve alguma coisa sobre isso?” ou então: “lembra daquele carinha da farmácia por quem me apaixonei e desapareceu? Semana passada dei de cara com ele na fila do cinema, nem consegui assistir ao filme, escreve alguma coisa sobre isso?” acho que esse tipo de pedido nunca vai parar. As pessoas dizem ter dificuldade de traduzir seus sentimentos e me pedem para intermediá-los. Isso não me chateia. É como um tema de redação, preciso dos elementos, mergulho na empatia e escrevo. Lastimável é escrever algo para a pessoa e ela sequer usar aspas. Já passei por isso algumas vezes. Ela simplesmente transcreve e... assina!

Enfim, em 2010 pleiteei o prêmio da Lei Rubem Braga, uma lei de cunho cultural que disponibiliza verba para diversas áreas da cultura cachoeirense. Não fui contemplada, mas no ano seguinte fui procurada para assumir o prêmio no lugar de um concorrente que, por questões burocráticas, não o poderia assumir. Dessa forma, em 17 de março de 2012, o livro “Sem Filtro na Veia” foi lançado, numa festa muito linda, regada a choro, com o grupo de choro Pó de Mico.

O livro foi prefaciado por Ignácio de Loyola Brandão. Não sou uma estrela para merecer tal prestígio, simplesmente sou uma tremenda cara de pau que corre atrás do que quer. As oportunidades às vezes são escancaradas, às vezes não. É preciso estar atento, apenas isso. Na época em que trabalhei na Secretaria de Cultura, o Ignácio foi a Cachoeiro ministrar uma palestra pelo projeto Tim Grandes Escritores. Fui designada a ir ao aeroporto de Vitória buscar a Márcia, sua esposa. No caminho para Cachoeiro, conversamos muito e eu não perdi a chance de dizer a ela sobre minha propensão a publicar um livro futuramente. Ao chegarmos a Cachoeiro, ela fez questão de me levar ao quarto do hotel onde já se encontrava o Ignácio e nos apresentou. Horas mais tarde, depois da palestra, conversamos mais uma vez e trocamos e-mails. Passei uma parte do material para ele e não sei quanto tempo depois, recebi por e-mail o prefácio. Me emocionei e me emociono sempre que o releio.

Outro fato inesquecível foi o dia em que consegui chegar perto dos Paralamas e chorei rios de ansiedade e depois, de emoção. A banda faria um show em Cachoeiro e eu acordei naquele sábado determinada: “hoje eu chego perto do Herbert Vianna, de qualquer maneira!” Fui à papelaria, comprei duas folhas de papel 60k, tamanha era a minha fé. Eles autografariam aquelas folhas, como não? Escrevi uma carta para ele, para entregar em mão, era uma poesia. 

À noite, no show, me separei de todo mundo que estava comigo, fiquei colada na grade, na primeira fila. Quando o show acabou, fui para perto do camarim. Vi entrar o prefeito, secretários, empresários, jornalistas... e eu, barrada. Mas meu choro comoveu os jornalistas, que começaram a interceder por mim. Quase não deu certo, as visitas estavam encerradas. Mas deu certo sim, abriram uma exceção e eu entrei no camarim dos Paralamas. Fui confortada pelo Bi, abracei os três. Realizei o sonho de repirar o mesmo ar que o Herbert Vianna. Tiramos fotos, recebi autógrafos... saí do camarim pisando em nuvens. Quando meu grupo me reencontrou, de longe todos sorriram: estava na minha testa que eu havia conseguido, claro que eu havia conseguido! Afinal, naquele dia eu acordei “só” para isso.

Anos mais tarde consegui que um exemplar do “Sem Filtro na Veia” chegasse às mãos do Humberto Gessinger, líder e vocalista do Engenheiros do Hawaíi. Trocamos tuítes, nem acreditei. Eu nem ia ao show, a mesa estava cara, eu não tinha grana, mas um casal de amigos me convidou. Pedi ao organizador do evento para entregar o livro e a prova de que ele foi realmente entregue foram os tuítes.


A vida é assim. Hoje você é um anônimo, mas pode ser que amanhã esteja sentado à mesma mesa em que está aquele cara que é uma estrela para você. Ainda não desfruto disso, mas não me chocarei quando acontecer. Aquela menina bobinha, que se viu diante de Roberto Carlos e mal conseguia esboçar uma palavra não chegaria até aqui se permanecesse retraída daquele jeito. O mundo é cruel. É preciso se jogar, ser ousado, sem ser inconveniente. Achar o tom é uma questão de tato. Não sou do tipo que chega sorrindo para todo mundo e apertando mãos, cordialmente, mas acredito (porque funciona!) no poder da educação. Tratar bem as pessoas abre portas, janelas, comportas... e é nisso que eu acredito.

Me lembro de um episódio de quando eu tinha uns 12 anos. Meu professor de Artes, Rosalvo Mantovani, me chamou à mesa dele para cobrar dois trabalhos que eu não havia entregado, mas havia feito. Eu era uma aluna aplicadíssima em sua matéria e estava inconformada por ter me esquecido dos dois trabalhos, que fiquei até alta madrugada fazendo. Ele me perguntou:

-- Você não me entregou os trabalhos, hoje vou fechar o diário. Que nota você acha que merece?

Eu nem pensei para responder. Meu coração falou:

-- Eu acho que mereço dez. Porque eu me dedico à matéria e porque eu sei, não estou mentindo, fiquei até de madrugada fazendo os desenhos, eles estão prontos. Eu só não tenho quem os possa trazer, mas eu fiz.

Rosalvo, meu professor de Artes, sorriu, me olhando dentro dos olhos. Aquele olhar me abraçou. E ainda sorrindo, ele pegou a caneta e, no campo em branco da minha nota, escreveu “10”.

Quando conto esses episódios da minha vida, ouço unanimemente que eu tenho sorte, mas eu discordo. A questão é saber enxergar as oportunidades ou ter forças para criá-las. E o mais importante da vida é não perder a docilidade, apesar de tantas amarguras. É conseguir se emocionar, em meio a tanta frieza. Sim, deve haver alguma coisa que ainda te emocione nesse mundo tão frio. Deve haver alguma coisa que te emocione, que te faça acreditar que vale a pena sonhar, que vale a pena amar, que vale a pena viver. No entanto, nada vai acontecer sem que haja sacrifícios. Prepare as estratégias. Esteja pronto para os imprevistos. Arrisque-se. Mas jamais perca a capacidade de se emocionar, ainda que a vida te bata forte, te espanque, te violente, Deus sempre, sempre estará presente e disposto pro que der e vier. Mais que disposição, Deus tem poder para proporcionar qualquer reviravolta em qualquer situação, é só olhar para mim, eu sou prova disso e, eu sei: ainda há muita emoção a caminho!

Com certeza há alguma coisa que ainda te emocione. Perceba!!!

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Eu Contradição



Queria ver meus dias ao contrário,
do último ao primeiro, sem sair do lugar
Amor, lembra-me sempre
que o avesso do Sol é a Lua, não a escuridão?
Como naquele primeiro dia em que fazia calor, mas chovia
Nasci num dia de contradição

Andar em corda bamba nesse mundo ensolarado
Permeado de tanto coração gelado
Mas aquele dia não era só contradição?

Ah, se um dia eu pudesse ver meu futuro, sem estar presente!
Mas não, ele acontece, escorre lentamente
Então sigo no sentido contrário,
rodeada de gente em perfeita solidão
Avançando para o futuro, apaixonada pelo meu passado
E não há motivo algum para desesperar _ ou há?

Daqui pra frente hás de chorar, hás de sorrir
É sempre o sim e o não
e bem acima dos medos, tua exata contradição
Vivendo, morrendo, sorrindo, sofrendo
Teu passado corre a toda velocidade,
Mas o abraçarás antes do último dia
Pois viver, ainda que doa,
É o teu maior presente, velha menina.

domingo, 3 de maio de 2015

Inteira


Olhas para mim e vejo a grande interrogação gritando silenciosa
“Por que me amas, se podes viver tão mais, em qualquer lugar?”
E meus olhos se inundam, procurando minhas mãos, que se apertam
Como poderei explicar mais uma vez o que eu não sei explicar, apenas sentir?
Sorrio, meio nervosa
O amor que não compreendes me acalma
Olho dentro dos teus olhos, preocupados
Mas os meus são calmos
Sorrimos

Ora, eu te amo por egoísmo, talvez
Porque sou melhor perto de ti, porque fico feliz ao teu lado
Porque te ver respirando alimenta a minha vida”

Mas ainda assim vejo preocupação nos teus olhos aflitos

“Meu amor, não podes perder o que está guardado dentro de ti
Se saio mundo afora, e daí?
Vive em teu coração minha raiz
É para ti que sempre volto, 
É em ti que descanso
e recupero minha paz”

Posso agora ver alívio em teus olhos
Sabes que eu poderia tanta coisa, mas só teus olhos me interessam
E quando compreendes meu amor, amor
Sou a mulher mais feliz do mundo!
Agora me abraça, me beija a cabeça
Me olha daquele jeito que só teus olhos sabem olhar
Sobrevivi durante todo esse tempo sem uma palavra sequer
Estou aqui, te amando muito mais agora
E te dou todo esse tempo como prova
Descansem, olhos amados
Amor que resiste ao tempo  
acaba sendo pra vida inteira.