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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Tudo Passa



Ainda me lembro como se fosse hoje de seu jeito austero, que não aceitava a menor das provocações. Com um olhar era capaz de me fazer parar o que eu estivesse fazendo. Cresci sob sua postura brava, de quem faz cobranças querendo extrair o melhor. Cresci à sombra de seu exemplo, de colocar a verdade à frente de tudo e acreditar em Deus sobre todas as coisas.

Mas tudo passa, hoje ela me lembrou disso. Realmente, com o passar do tempo, tudo pega carona e passa também. A menina que já sentiu até medo daqueles olhares, foi adolescente, foi um problema, uma grande preocupação. Tornou-se mãe, é uma mulher. E aquela, mulher de presença inquisidora, hoje está do outro lado do oceano, dentro de uma casa linda. Tem cortinas em sua casa, fotografias dos mais amados espalhadas pelas paredes. Tem também uma coleção de chapéus, souvenirs das cidades por onde já passou. No Natal passado, ganhou um quadro de seu retrato, uma imagem daquelas que nos remetem ao século XVII, daquelas que nos capturam por horas quando nossos olhos tocam os seus: distantes, presentes, silenciosos, falantes. No entanto, a arquitetura, a mobília e a decoração da casa linda não lhe servem como prova de felicidade.

Do lado de cá do oceano, a filha. Observando cada traço no rosto de sua mãe, que tem razão: tudo passa. Hoje a austeridade no jeito de ser da mãe já não existe. A mãe, de olhar paralisante, hoje tem um semblante tão terno, que dilacera o coração da filha, que a olha com o próprio coração. Hoje, ver sua mãe experimentando chapéu por chapéu e cantarolando com cada um, dançando, fazendo caras e bocas e sorrindo, para abafar a saudade imperiosa, sim, essa cena é a prova de que tudo passa.

A mulher forte e implacável hoje deixou sua guarda baixa, e dentro do seu hobby azul clarinho, deixou evidentes e expostas todas as suas fragilidades, humanidades, medos, saudades. Saudade da juventude, saudade da saúde, saudade da filha, seu eterno problema não resolvido. Não, não existe mulher implacável ali. Não mais. 

Hoje a filha não queria ser abraçada pela mãe, mas abraçá-la, com toda a sua força, daquele jeito que ela nunca fez. Hoje a filha queria ser um pouco mãe e dar abrigo para a alma que se desnudou diante de seus olhos.

Ah, mãe... se tudo passa, eu quero que passe essa dor que sinto quando me lembro da maldita distância entre nós, que existiu mesmo antes de haver um oceano entre a gente. Meu Deus, é preciso perder para prestar atenção? É preciso envelhecer para dar valor à juventude? É preciso o impossível para reconhecer que a felicidade estava bem aqui?

Hoje foi tudo diferente. Hoje a vi com olhos mais maduros e enxerguei uma criança que quer, a todo custo, ser agradável. Entre vestidos floridos, espelhos redondos, fotografias, vinhos e cerejas, quanta cumplicidade existiu! 
Acho que quase tudo passa, mãe. Há coisas teimosas, que não passam, mas não passam de jeito algum! Saudade, vontade, remorso, culpa, arrependimento, amor, lembranças, intenções...

...se bem que eu não sou eterna, ninguém é... 

...

Pensando bem, tens razão, como sempre, tens razão. Sim, mãe, tudo passa, tudo isso há de passar sim, mas eu não estarei aqui para ver tudo isso passar. Há coisas que dependem da morte para passar e isso é o maior castigo para quem está vivo.

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