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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Autorretrato


A multiplicidade das sensações
A tempestade dos sentimentos
O terremoto dos desejos
A sede pela justiça
Um labirinto espelhado
à procura de mim mesma
O espelho quebrado que me multiplica,
me divide em várias,
me atormenta e me alucina, 
me afasta e me aproxima
Os cacos do espelho
refletem meus traços, 
mas não me fazem refletir
Eles me incendeiam
e me instigam cortes na veia
Me acusam por ter nascido
Mas defloram alguma beleza nisso.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Último dia de Paz



Eles foram até ao estacionamento do prédio. Pararam perto do muro, que dava para o jardinzinho que adornava o pátio. Ela estava visivelmente trêmula, mas conseguiu dizer a ele o que queria, embora fosse impossível olhá-lo nos olhos:

- Eu só queria que soubesse que você mexeu demais comigo todo esse tempo, desde aquele dia em que você riu pra mim, na fila da cantina e me perguntou se estávamos na mesma turma. Eu já sabia que estava em perigo. Me apaixonei por você por puro pressentimento, antes mesmo de trocarmos uma palavra. Foi intuição. E também foi doloroso ficar disfarçando por todo esse tempo em que convivemos. A cada vez que você ria de alguma coisa que eu falava, eu sentia vontade de pular em você, num abraço apertado e demorado. Até no teu silêncio eu me inspirava para te dizer o quanto você estava fazendo a diferença na minha vida gris. A gente nunca conversou sobre os assuntos difíceis. A gente sempre falou das provas, trabalhos e bobagens que vivemos lá fora, nessas últimas seis semanas. Não sei da tua vida, você não sabe nada da minha também, mas eu sei que te faço bem. E você me faz bem, demais também. Mas implodi, me contive porque eu sempre soube que a gente nunca poderia, eu vi tua aliança desde o primeiro dia. Por isso nunca te pedi o número do teu telefone. E nem vou pedi-lo agora. Pense em mim como uma incerteza, não esteja certo de que eu algum dia existi... Graças a Deus hoje é o último dia de aula. Você não merece se perder por minha causa.

Ele sentia um nó na garganta e borboletas se remexendo em seu estômago, ao mesmo tempo em que ouvia corais celestiais e via uma cratera se abrindo bem à sua frente. Ela lhe parecia inacessível até então, de modo que, ter sua companhia já era para ele, uma dádiva. Ele sempre quis pedir a ela o número de seu telefone. Queria lhe dar bom dia, telefonar no meio da tarde, mas ela era inatingível e ele já estava mais que abençoado por tê-la como companhia durante as quatro horas das últimas seis semanas de aula. 

Antes que ele conseguisse pronunciar uma palavra, ela se foi, lentamente. Em completo estupor, seu coração que parecia já ter morrido há tempos, agora pulsava dentro de seus ouvidos. Ele sentia uma lágrima cair de seu olho. Foi-lhe revelado que era tudo recíproco. A verdade velada teria lhe feito menos mal. Ela ter ido embora para lhe deixar em paz foi o que fez com que ele nunca mais experimentasse um segundo de paz a partir de então.

As palavras finais ficaram reverberando dentro dele: 'você não merece se perder por minha causa', 'você não merece se perder por minha causa', 'você não merece se perder por minha causa'... Talvez ele não merecesse mesmo. Olhou para o chão, pegou o celular do bolso, não conseguiu enxergar o que estava na tela. Passou as duas mãos pelos cabelos, esfregou os olhos, sentiu suas pupilas explodindo. Sentiu enjoo, sufocamento, vontade de chorar. Olhou para sua aliança. Ali não era o seu porto seguro, era a prova de uma escolha errada que magoava duas pessoas, agora três. 

Aquele era o último dia de aula.

Estava perdido.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Tudo é Dor



Toda dor dói.
Nascemos aos prantos,
untados no desconforto de quem sai do aconchego morno para o frio mundo.
Nos arrancam de dentro.
Nos cortam.
Nos molham.
Nos secam.
Nos deduzem, mas não nos compreendem.
Nos atiram lá dentro.
Nos retalham em cobranças.
Nos afogam em comparações.
Nos dissecam em preconceitos.
Sempre nos deduzindo, jamais nos compreendendo.
Dói o movimento dos cristais formados no interior dos rins.
Dói a sucessão de contrações para parir.
Dói o corte na carne, a pedra enterrada na derme.
Dói nascer.
Dói crescer.
Dói viver rejeitando o modelo ideal.
Dói viver a rejeição do que se diz natural.
Dói a dor que não tem rosto, é sem nome.
Dói não saber.
Dói saber demais.
Dói o mosaico de saudades inconscientes da segurança do útero de onde saí.
Dói a calmaria nauseante de quem sofre sem saber que sofre.
Dói ter que se explicar a quem nunca vai entender.
Dói tentar caber e ser maior.
Dói ter coração onde é normal ter um código de barras.
Sim, toda dor dói.
Seguimos doendo.
Sempre deduzidos, nunca compreendidos.
Puro dolorimento.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Que venha o impeachment!


 Eu não tenho carro, e também não ando de ônibus. Não por frescura, mas graças a Deus, posso cumprir meus compromissos indo a pé. Então eu não senti diretamente o impacto do preço da gasolina, que já tá custando um rim.

Tenho sentido impacto nos “nãos” que tenho vivido. "Hoje não tem merenda na escola, alunos." "Filha, deixa o resto da compra no carrinho porque, de novo, o dinheiro não deu." "Eu sei que seu avô está enfartando, mas não há leitos." "Filha, infelizmente eu não vou poder, de novo, comprar calcinha pra você. Eu sei que você tá precisando, mas a conta de luz veio muito mais cara nesse mês, mesmo com toda economia que a gente fez." "Picolé no final de semana? Nem pensar! Não tenho dinheiro pra isso, meu amor, entenda a mamãe."

Eu, francamente, estou exausta de ver escândalo sobre escândalo explodindo na mídia, feito as bombas no Oriente Médio, o governo com sua cara blasé e o povo revoltadinho, postando um monte de mimimi sem eira, nem beira nas redes sociais. Povo burro ou masoquista, sei lá. Reza a lenda que esse povo brigou tanto pela democracia e agora cogita, de boca cheia, a volta da ditadura militar. Não prestou atenção nas aulas de História do Brasil, só pode.

O povo fala tanto em direitos, mas quando cisma em defendê-los, sai quebrando e explodindo tudo o que vê pela frente, feito bárbaros, completos imbecis com quem não se pode argumentar.

Nada muda se nada muda. E como nada tem mudado, pelo visto, nada vai mudar.

Eu não vou entrar no âmbito das planilhas e dos dados estatísticos porque, além de eu ser péssima em matemática (sempre preferi História), eu acho tudo isso muito chato. Desse modo, eu não estou inteirada de quantos milhões da nossa verba foram cortados e desviados, eu não estou a par de quantos por cento o Fulaninho e sua quadrilha têm embolsado, eu também não sei a proporção dos rombos na saúde, na educação, na segurança pública... só sei que é tudo estratosférico, praticamente imensurável para mim, reles “pãe de família”, que não conta com Bolsa alguma, tampouco com pensão alimentícia.

Mas também não sou ingênua de tacar pedra no atual governo como se algum outro fosse salvador. Não tenho um plano B. A culpa é nossa, povo. Quando é que a gente vai exigir um governo que tenha, no mínimo, o terceiro grau para assumir a direção do país? Quando é que a gente vai se interessar pela nossa Constituição? Porque lembrar vagamente das cláusulas pétreas (?) é simplório demais. É nada.

É preciso, no mínimo, interesse naquilo que nos diz respeito, é preciso, no mínimo, dar-nos respeito, e não, ficar de beicinho reclamando da Dilma e “deles”.

Eu fico decepcionada em ver alguns amigos, muito inteligentes por sinal, defendendo o atual governo. Chega de tapar o sol com a peneira, não tá dando certo, admitamos. Se agredir é um extremo, defender é o outro. Está na hora da gente parar com esse cabo de guerra, com essa Babel e passar a falar a mesma língua, urgente.
Aproveito o ensejo para pedir a esses meus amigos que me tratem como uma bárbara-imbecil-completa-com-quem-não-se-pode-argumentar. Me poupem do mimimi. Eu não tenho paciência pra rever esse filme, cheio de palavrório e sem ação. Eu aceito o rótulo de imbecil, a amizade continua, na boa.

Minha certeza reside no não que diz “não aguentamos mais”. Cortes, juros, propinas, escândalos... acham mesmo que o impeachment é a solução? Sai ela, entra quem, Zé Povinho? Antes de mudar de presidente seria mais sensato mudar de povo, esse monstro gigante que desconhece a própria força e a usa da maneira errada, que só se envergonha de verdade quando perde na Copa, de goleada, e que não teve paciência de ler esse texto até aqui por julgá-lo grande demais.

Que venha então o impeachment, mas só depois do Carnaval. Aí a gente pinta a cara de verde e amarelo, e estende a festa.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Podendo ser ou não...




Então chegamos àquela fase crítica
em que queremos prolongar a convivência
já sabendo que nada pode haver entre nós, 
a não ser isso que temos hoje, que tem data para acabar. 
E me sinto atormentada, sei que você também. 
Ao mesmo tempo que você foi uma sorte imensa, 
você foi um passaporte para meus pensamentos mais perigosos, até destrutivos. 
Quem disse que era pra me tirar tantos sorrisos assim, facilmente? 
Quem disse que era para gostar das mesmas coisas que me atraem? 
Quem disse que era pra dar tempero àquelas conversas profissionais? 
Agora estou cansada, 
foragida dos meus próprios pensamentos, 
não tenho mais onde me esconder. 
Eu não posso te querer, mas sorrindo, eu te quero. 
Sorrindo, eu não posso e, por não poder, 
sem sorriso terei que prosseguir. 
Vai ser difícil, mas quando foi fácil? 
Sei que muito de mim irá contigo, 
mas exatamente isso eu sou: 
uma coleção de pedaços de todos que podendo ser ou não, não foram.