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domingo, 1 de fevereiro de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione - (01/15)

  “O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano…”

(Paratodos – Chico Buarque)

Tá. Não é bem assim. Meu pai não é paulista, mas meu avô é pernambucano sim, senhor.

Sem muitas delongas, vamos lá: meu pai é pernambucano, minha mãe é mineira e eu, espiritossantense. Popularmente todos os espiritossantenses se autointitulam “capixabas”, mas capixabas são os nascidos na capital, Vitória. Só. Como ocorre entre os paulistas e paulistanos, cariocas e fluminenses, baianos e soteropolitanos, enfim.
Sou de Cachoeiro de Itapemirim, terra de Roberto Carlos. E também de Luz Del Fuego, Sérgio Sampaio, Rubem Braga. E também de Rudson Costa, Aroldo Sampaio, Milena Paixão. Se ainda não os conhece, não sabe o que está perdendo, mas ainda há tempo, viva a internet!

Cachoeiro de Itapemirim foi batizada por Vinícius de Moraes como a “Capital Secreta do Mundo” e também ostenta o título de “Atenas Capixaba”, por ser um celeiro de artistas excelentes. Mas, voltando a Roberto Carlos, sou da terra dele. O diferencial é que morei meus primeiros catorze anos de vida na rua em que ele também morou, onde hoje inclusive, está o museu do “Rei”.
Estou falando da rua João de Deus Madureira, uma rua sem saída. O movimento de carros era (e deve ser ainda) relativamente pequeno. Então eu chegava da escola, almoçava e ia brincar na rua. Religiosamente, pelo menos duas vezes por dia, nossa brincadeira na rua era interrompida por turistas querendo saber qual era a “casa do Rei”. Passei minha infância sendo interrompida por turistas para lhes mostrar onde era a casa do “Rei” Roberto Carlos. Minha mãe nunca gostou muito de que eu brincasse na rua, mas deixava. No fim da tarde ela me gritava do portão e quando não dava mais pra eu fingir que não tinha ouvido, entrava.
Quando eu tinha 13 anos, Roberto _o Carlos_ fez um show em Vitória, mas antes ele passou (“secretamente”) por Cachoeiro, para visitar os vizinhos de sua época: dona Gilda e seu Viana. Idosos, esses senhores faziam parte da história de Roberto Carlos e ele foi visitá-los, com Maria Rita, sua esposa na época.
Não sei como a notícia que o “Rei” estava na cidade se espalhou, de modo que, em poucos minutos, a nossa pequena rua sem saída foi invadida por centenas de fãs. Era noite. Eu morava do lado oposto da casa do seu Viana, mas era inquilina da dona Gilda, morava no térreo e ela, no sobrado! Como eu frequentava desde que era bebê a sua casa, subi os catorze degraus de mármore branco sem a menor cerimônia e me juntei à ela, à sua família, ao “Rei” e à Maria Rita, muitíssimo simpática, por sinal.
Lembro-me bem que eu fiquei abobada, olhando profundamente para aquele casal de outro mundo, observando a grossa corrente de prata no pulso do “Rei” e aquele sorriso fácil e branco de Maria Rita, era tudo hipnótico, magnético.
Eu ainda era uma bobona tímida demais para pedir qualquer coisa para eles, lembrando que àquela época, tirar uma foto não era coisa simples como hoje em dia.
A nobreza então se despediu de nós e desceu as escadas, embrenhou-se na multidão para visitar seu Viana, do outro lado da rua. Meu pai ficou bravo comigo porque não pedi sequer um autógrafo, mas como ele era bem cara de pau para isso, foi à casa do seu Viana, identificou-se como o pai da menina muda que estava no canto da sala da dona Gilda, queimou de leve meu filme, mas voltou glorioso, com meu autógrafo em mão!

Mas o que mais me marcou naquela noite de realeza não foi outra coisa senão ter sido chamada pelo Rei de “broto”. 

Um comentário:

Sil Dardengo disse...

Amo o Roberto e tudo que se refere a ele. Acho que se tivesse essa oportunidade, ainda hoje reagiria como você reagiu naquela época!
As vezes admiramos tanto alguém, que ao ficarmos frente a frente com ela, não esboçamos reação. Os tímidos perdem muito da vida.
Que bom saber que você morou na rua dele e que já esteve tão pertinho dele assim. Pode ter certeza que daria tudo para estar em seu lugar.
Amei conhecer esse pedacinho da sua vida. Para mim é também muito especial!