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domingo, 15 de fevereiro de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (03/15)

“Mamãe, mamãe, mamãe
Eu te lembro, o chinelo na mão
O avental todo sujo de ovo
Se eu pudesse, eu queria outra vez, mamãe,
começar tudo, tudo de novo.” 

(Herivelto Martins)


Então eu chegava da escola, tinha meus picos de ansiedade e frustração que logo normalizavam. Sem luminária, lata, lixeira ou bailarina, mas empunhando um hibisco vermelho recém-colhido, eu rumava para a cozinha, presenteava a mamãe e, vez ou outra, mostrava para ela uma prova recebida na escola.

Eu tive dois padrões extremamente antagônicos na minha casa. Minha mãe era muitíssimo rigorosa comigo. Sempre exigindo meu máximo, meu melhor em tudo. Um olhar mais sério dela, e eu já tremia inteira. Deus me livre desapontá-la. O olhar decepcionado de minha mãe era (e continua sendo) o último que eu queria ver. Infelizmente o vi muito mais que quis.

Do outro lado do universo dos pesos e medidas estava meu pai. Extremamente comunicativo e piadista. Gostava de me colocar pra dormir e contava histórias de sua infância pernambucana para mim. Meu pai estudou pouco, mas é um homem muito inteligente e curioso, interessado. Não há assunto em que ele não se posicione e argumente. Com ele aprendi a me apaixonar por geografia, mapas e língua portuguesa. Nossos maiores passatempos eram ficar brincando de “qual é a capital” ou ficar conjugando um verbo em todos os tempos possíveis: pretérito, presente, futuro, futuro do pretérito, pretérito-perfeito, pretérito-mais-que-perfeito, e por aí nós íamos.

Um dia eu cumpri todo o ritual "expectativa de ganhar uma escrivaninha x hibisco x frustração por não ter ganhado uma escrivaninha x hibisco x mamãe x prova". Eu devia ter uns 08, 09 anos. Minha mãe estava acabando de lavar a louça para servir o almoço. Eu estava escondendo a prova atrás de mim e quando eu passei a prova para frente e mostrei a ela, ela instantaneamente mudou o semblante e fechou a cara:

-- Oitenta e cinco? Isso é nota que você tire?

-- Calma, mãe, deixa eu te explicar. Essa foi a maior nota da turma, a professora até me deu os parabéns, porque além de mim, uma pessoa tirou 75 e o resto da turma, todo mundo, tirou nota vermelha. 

Neste momento, meu pai estava chegando do trabalho para almoçar e ouviu o que eu havia acabado de dizer. Minha mãe, inexorável, respondeu:

-- A nota do filho dos outros não me interessa. Oitenta e cinco não é nota que vo-cê tire.

Meu pai reagiu sorrindo:

-- Deixa eu ver essa prova aqui! Olha!!! _examinando questão por questão_ Essa é difícil, você acertou, muito bem! Vamos fazer o seguinte: depois do almoço, vamos até à sorveteria para comemorar!

E sempre foi assim. Quando eu tirava noventa e seis, noventa e sete, noventa e nove, minha mãe procurava a questão errada da prova e dizia: “Pelo amor de Deus, você errou isso?” E quando eu tirava 100, ela sempre dizia essa frase, que verdadeiramente odeio até hoje:

“-- Não fez mais que a sua obrigação.

Hoje eu sei que o intento dela sempre foi o melhor. Para ela, me exigir a excelência sempre era a forma de extrair de mim o máximo. No entanto, isso explica como me tornei a pessoa ultra exigente que sou e consideravelmente insegura com meus desempenhos e resultados. Não fico à vontade diante de elogios e, ser a melhor em alguma coisa que eu faça, não me faz sentir melhor, apenas satisfeita por ter cumprido com a minha obrigação de ser excelente. Se isso soa como um castigo, não a mim. Eu seria mil vezes de novo filha da minha mãe. Eu a amo, a amo desesperadamente. Ela me conhece tão bem, que só de me ver dormindo, já sabe se estou descansando ou fugindo da realidade. Não, nem cogite isso, eu jamais trocaria a minha mãe por outra. Foi com ela que eu tive as brigas mais feias e o amor mais visceral, intenso e desmedido. Minha mãe é a pessoa mais importante da minha vida. Se sou pouco, se sou razoável ou um bólide, não importa: eu devo meu tudo a ela. Mas foi bom ter meu pai do outro lado, mediando tanta cobrança, me contando histórias, me levando à sorveteria para tomar sorvetes de brigadeiro e de cereja _esse último, meu preferido.

E assim, em meio a tanta disparidade de percepções de mundo, eu caminhava para dias terríveis que me esperavam e eu nem fazia ideia que eu estava prestes a crescer brutalmente logo ali adiante.

2 comentários:

Leca Nunes disse...

Eu sofria, sofria calada...
queria ter a filha mais que perfeita...estupidez a minha, não existe na terra nenhum ser perfeito...eu sofria, sofria por não ter a oportunidade de saber dos seus sonhos, da sua escrivaninha... eu sofria por não ter me dado mais, brincado mais, sorrir mais, gargalhar mais...a vida foi muito dura comigo, e eu tinha medo de você pisar nas minhas pegadas.Te amo filha, tenha certeza amor nunca lhe faltou, mesmo que eu não soube mostrar.

Ludmila Clio disse...

Mãe, se perdoe. Continuo reconhecendo que devo tudo a você, graças a Deus que você é a minha mãe! A única coisa que acho ainda necessária é eu mudar a rota. Tudo o que você fez pra evitar que eu te repetisse, acabei fazendo... mas nunca duvide de que você é a minha inspiração de vida, meu orgulho, exemplo de caráter e meu maior amor.