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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (04/15)


“Meu mundo caiu
e me fez ficar assim…”
                                                                                                          ( Maysa)

Acredito que a vida escolha determinadas pessoas para vivê-la intensamente. É impossível viver com profundidade sem conhecer dores específicas. Até os dez anos eu tive uma vida feliz, tranquila. Fora o trauma de ter perdido um irmão recém-nascido, aos dois anos, não tive dores consideráveis até os meus dez. 

Por ter perdido meu irmão sem ao menos conhecê-lo, quis compensar o meu pai de alguma forma e, por isso, colei nele. Assistia às corridas de F1 com ele aos domingos e me apaixonei por futebol. Ele me ensinou todas as regras e as manhas desse esporte ainda tão masculino. Anos depois cismei até de ser jogadora, e apesar de ter ganhado medalhas na escola, definitivamente isso não era para mim. Mas meu pai e eu éramos uma dupla e tanto. Torcedores do Mengão, não perdíamos um jogo. E na cidade, torcíamos para o Estrela do Norte F.C. Íamos aos sábados de manhã assistir aos treinos, e às noites de quarta, ao estádio assistir aos jogos. Minha mãe deixava, sob a condição de eu não faltar aula no dia seguinte. Sempre deu certo. No fundo, sempre quis mostrar para o meu pai que ele não precisava ter um garoto para se sentir acompanhado. Tudo o que pude fazer para ser um “parceirão”, eu fiz. 

Uma crise já havia se instalado em nossa casa quando eu tinha dez anos. Meu pai, que era maquinista de trem da Rede Ferroviária Federal S.A., perdera o emprego no ano anterior e minha mãe passou a sustentar a casa fazendo salgadinhos, doces, bolos e tortas sob encomenda. O clima ficava cada dia mais pesado e eu me tornei uma bolinha de ping-pong arremessada de um para o outro. Eles mal se falavam.

Um dia meus pais tiveram uma discussão horrível, dentro do carro, a caminho da igreja. Ele estava levando minha mãe para uma reunião de mulheres e eu estava indo para brincar com as filhas das mulheres reunidas. Eles brigaram porque ele a estava levando de má vontade. Eu fui ao bar da esquina chamá-lo e interrompi sua sagrada sinuca. Super mal humorado, ele começou a brigar e minha mãe gritou que se ela pudesse dirigir, não o importunaria com isso. Foi a primeira vez que ouvi uma palavra dura, feia, da qual eu desconhecia o peso:

-- No dia em que mulher minha tirar carteira de motorista, vai ser carteira numa mão e divórcio na outra.

Divórcio. Aquilo me estremeceu, ainda mais porque minha mãe concordou. Descemos ela e eu do carro. Minutos depois, meu pai voltou até à igreja, me tirou da brincadeira com as meninas e me chamou para uma conversa franca e definitiva. Me levou para o salão de festas da igreja, ainda me lembro da roupa que eu usava e do tom de azul das cadeiras de plástico em que nos sentamos, frente a frente. O clima estava deveras solene, eu pressentia a explosão de uma bomba.

Uma pergunta seguida de uma revelação me mudariam para sempre:

-- Filha, você quer que seu pai vá embora? 

Meus olhos arregalados e o arrepio no meu corpo inteiro o responderam. Eu meneei a cabeça. E eis sua revelação, sua promessa, ameaça, agressão ou sei lá o quê:

-- Bom, eu tenho um outro filho. Ele é mais velho que você. Hoje sua mãe falou em separação, você ouviu. Se você não quer que seu pai vá embora, trate de tirar da cabeça dela essa ideia, senão eu vou embora cuidar do meu outro filho e você nunca mais vai ver seu pai. É isso que você quer?


Desesperadamente eu chorei. Chorei muito. Senti o quê? Raiva dela? Raiva dele? Medo? Raiva desse irmão que nunca tinha ouvido falar? Ansiedade? Curiosidade? Pavor? O que eu estava sentindo? Aquele turbilhão significava apenas uma coisa: eu estava crescendo. Violenta e bruscamente. Naquela noite, fui arrancada da minha doce infância, deixei de ter dez anos e fiz quantos? Dezoito? Vinte e cinco? Trinta e dois? Não sei quantos anos avancei naquela noite com aquela conversa. Simplesmente foi imputada a mim, uma menina de dez anos, a responsabilidade de manter casados os meus pais.

Senti enjoo, uma adrenalina avassaladora, proporcional ao medo daquela bomba que acabara de ser jogada dentro de mim. Quando minha mãe me reencontrou para irmos embora, bastou me olhar pra notar que eu estava estranha, mas neguei. Fiquei calada, tentando digerir cada palavra que eu acabara de ouvir da boca do meu pai, tentando fugir daqueles estrondos explodindo dentro de mim mesma.

Lembro-me que foi o início de uma fase dificílima. Não me abri com ninguém. Todas as noites, eu chorava muito antes de dormir. Comecei a suplicar à minha mãe que engravidasse. Inconscientemente, eu acreditava que um novo filho prenderia meu pai a nós.


Minhas notas na escola despencaram. Minha mãe foi chamada lá várias vezes, as professoras diziam a ela que não entendiam meu novo comportamento. Subitamente me tornei distante, meio que indiferente, absorta, fechada no meu mundo devastado por aquela ameaça bombástica. Até que numa tarde, muitos meses depois, minha mãe resolveu me contar sobre o meu meio-irmão. Ela preparou muito o terreno e me disse, com todo jeito possível. E eu, sorrindo de nervoso, só consegui dizer:

-- Eu já sabia.