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domingo, 8 de fevereiro de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (02/15)

“Quando fores crescido,
hás de querer ser feliz.
Por enquanto não pensas nisso
e é por isso mesmo que o és.”
(José Saramago)

Tive duas grandes frustrações na infância.

Como eu disse, a “rua do Roberto Carlos”, em que eu morava, era sem saída e, todos os dias em que eu voltava da escola, sentia meu coração acelerar ao começar a andar na minha rua. Sempre tive a esperança de encontrar em frente da minha casa um caminhão de alguma loja de móveis da cidade, desembarcando o meu sonho.

Como eu nunca flagrava o momento dessa entrega, eu entrava em minha casa ansiosa e ia com o coração a mil para o meu quarto. Em sua porta, tinha um quadrinho de madeira onde se lia: “Este é o mundo particular de Ludmila”. E era mesmo. Era nele que eu mais sonhava, chorava, planejava, brincava, queria... acho que levei tão a sério essa coisa de “mundo particular”, que cresci estimando muito a privacidade. Sim, a privacidade, para mim, vem antes da letra A no meu dicionário, e é tão importante em minha vida quanto a saúde. Se eu sentir que estou tendo minha privacidade invadida, eu me isolo, mesmo que isso soe como um ato de hostilidade. De fato, obviamente não foi um quadrinho de madeira na porta do meu quarto que fez isso em mim. Mais pra frente voltarei a falar nisso.

Mas voltando à minha ansiedade, eu chegava em casa com o coração disparado, e ia direto para o meu quarto. Eu queria jurar que os meus pais teriam sido mui criteriosos e teriam feito tudo cronometradamente de modo que, quando eu chegasse ao meu quarto, ela já estaria lá, montada, à minha espera: a minha escrivaninha!

Eu sempre sonhei com uma escrivaninha no meu quarto, com direito à luminária, uma lata linda e decorada para os meus lápis e canetas, uma lixeira simpática no cantinho, para eu jogar os meus papéis _até hoje a sensação de embolar os meus rascunhos e jogá-los fora é indizivelmente prazerosa para mim!_ e, para coroar, sobre ela a minha segunda grande frustração de infância: a caixinha de música. Daquelas que tocavam o "Lago dos Cisnes" ou "Love Story" e tinham uma bailarina, com saia de filó, rodopiando, majestosamente, em seu centro.

Ah, como eu sonhei, como eu desejei com todas as minhas forças, cada dia da minha infância, encontrar com a minha escrivaninha, no meu quarto, com luminária, lata, lixeira e bailarina!

No entanto, esse encontro nunca aconteceu para mim. Eu escrevia, desenhava e ouvia música na cabeceira da mesa de madeira de oito lugares, imponente, que ficava na sala de jantar. Eu sempre fingia que a sua ponta era a minha escrivaninha e ignorava todo o seu restante. Eu não precisava _e nem queria_ todos aqueles metros de madeira, nem das suas outras sete cadeiras caprichosamente estofadas de veludo verde militar; eu só precisava do seu primeiro metro e de uma única cadeira para me sentir escritora, nada além.

Depois que eu me via no meu quarto tal qual eu o havia deixado pela manhã, antes de ir para a escola, o desapontamento passava, eu recobrava o ritmo _como quem volta de um afogamento_ e ia almoçar, contando os detalhes da minha rotina escolar, entregando o hibisco vermelho para a minha mãe, que quase todo dia eu colhia do pé de hibisco que tinha na minha rua ou ainda, mostrando a ela alguma prova recebida na escola.

Hoje vejo o quão fáceis de realizar eram os meus maiores sonhos irrealizados. Talvez isso seja culpa minha, afinal eu nunca os revelei para a minha mãe. Não dessa maneira. Não com a devida importância, nem na época certa. Contei tudo isso pra ela muitos anos depois, e ela riu tristemente. O que era tão grandioso para mim, não era tão impossível de realizar para ela, mas enfim, isso ficou lá atrás.

Além das duas grandes frustrações, eu tinha um vício crônico: eu nunca entrava no meu quarto sem dar uma conferida no chão da sala, à procura de uma  carta. Eu sempre esperei _também_ por uma carta. Não sei explicar esse meu fascínio por cartas. Sempre achei bonito receber uma carta, saber que alguém parou para escrever algo unicamente dedicado a quem se destina. Eu era uma criança, nem imaginava que viveria a era da Internet... mas mesmo hoje, onde reinam os e-mails, torpedos e “zap zaps”, eu mantenho esse costume dos séculos passados. Eu amo escrever (e receber) cartas. [Para mim isso é normal, uma vez que me sinto pertencer a outro século longínquo, me sinto completamente inadequada aos dias atuais.]


Então, como eu disse, eu sempre esperei por uma carta. Via de regra, chegavam contas e não eram para mim, (graças a Deus!), mas era extasiante o sentimento de flagrar alguma correspondência ali, deixada pelo carteiro, perto da porta, no chão da sala. 

Aliás, eu adorava chegar à minha rua e ver o carteiro, de porta em porta, depositando cartas! Ele nunca soube, mas a sua presença ali sempre acendeu uma alegria esperançosa e inexplicável no meu coração. Talvez porque eu adorasse ouvir da minha mãe as histórias de sua infância, entre os seus nove irmãos, filhos da minha avó guerreira e do meu avô, carteiro.

Não sei, realmente eu não sei se ser neta de um carteiro explica essa minha emoção maravilhosa, mas nunca chegou a carta que mudaria a minha vida. E também nunca chegou a escrivaninha. Nem luminária. Nem lata. Nem bailarina.

Muitos anos já passaram. Decerto os meus sonhos de menina escritora, continuam aqui, dentro de mim. Acho diferente não ter sonhado em ter a boneca que fala ou o joguinho que muda de fase. Eu sempre quis duas coisas que remetem à escrita. Eu nem imaginava que, poucos anos mais tarde, eu descobriria nela a minha libertação. Eu nem supunha que eu traduziria toda a minha dor em linhas. Anos terríveis estavam bem ali, à minha frente, no meu breve futuro. Sem amigos que me compreendessem, eu me fechava no meu “mundo particular” e escrevia, escrevia sem parar. Escrever não resolve o problema, nunca resolveu, mas sempre me deu serenidade para lidar com ele. 

Eu cresci à força. Os anos seguintes, como eu disse, foram duríssimos. E até hoje, eu continuo esperando que a vida me traga a grande notícia. Sim, eu continuo espiando os seus cantos. Pressinto que, um dia, ela há de me surpreender com luminária, lata, lixeira e bailarina.


Um comentário:

Sil Dardengo disse...

Remexendo minhas próprias dores. Esta foi a sensação que experimentei!