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domingo, 15 de fevereiro de 2015

Último dia de Paz



Eles foram até ao estacionamento do prédio. Pararam perto do muro, que dava para o jardinzinho que adornava o pátio. Ela estava visivelmente trêmula, mas conseguiu dizer a ele o que queria, embora fosse impossível olhá-lo nos olhos:

- Eu só queria que soubesse que você mexeu demais comigo todo esse tempo, desde aquele dia em que você riu pra mim, na fila da cantina e me perguntou se estávamos na mesma turma. Eu já sabia que estava em perigo. Me apaixonei por você por puro pressentimento, antes mesmo de trocarmos uma palavra. Foi intuição. E também foi doloroso ficar disfarçando por todo esse tempo em que convivemos. A cada vez que você ria de alguma coisa que eu falava, eu sentia vontade de pular em você, num abraço apertado e demorado. Até no teu silêncio eu me inspirava para te dizer o quanto você estava fazendo a diferença na minha vida gris. A gente nunca conversou sobre os assuntos difíceis. A gente sempre falou das provas, trabalhos e bobagens que vivemos lá fora, nessas últimas seis semanas. Não sei da tua vida, você não sabe nada da minha também, mas eu sei que te faço bem. E você me faz bem, demais também. Mas implodi, me contive porque eu sempre soube que a gente nunca poderia, eu vi tua aliança desde o primeiro dia. Por isso nunca te pedi o número do teu telefone. E nem vou pedi-lo agora. Pense em mim como uma incerteza, não esteja certo de que eu algum dia existi... Graças a Deus hoje é o último dia de aula. Você não merece se perder por minha causa.

Ele sentia um nó na garganta e borboletas se remexendo em seu estômago, ao mesmo tempo em que ouvia corais celestiais e via uma cratera se abrindo bem à sua frente. Ela lhe parecia inacessível até então, de modo que, ter sua companhia já era para ele, uma dádiva. Ele sempre quis pedir a ela o número de seu telefone. Queria lhe dar bom dia, telefonar no meio da tarde, mas ela era inatingível e ele já estava mais que abençoado por tê-la como companhia durante as quatro horas das últimas seis semanas de aula. 

Antes que ele conseguisse pronunciar uma palavra, ela se foi, lentamente. Em completo estupor, seu coração que parecia já ter morrido há tempos, agora pulsava dentro de seus ouvidos. Ele sentia uma lágrima cair de seu olho. Foi-lhe revelado que era tudo recíproco. A verdade velada teria lhe feito menos mal. Ela ter ido embora para lhe deixar em paz foi o que fez com que ele nunca mais experimentasse um segundo de paz a partir de então.

As palavras finais ficaram reverberando dentro dele: 'você não merece se perder por minha causa', 'você não merece se perder por minha causa', 'você não merece se perder por minha causa'... Talvez ele não merecesse mesmo. Olhou para o chão, pegou o celular do bolso, não conseguiu enxergar o que estava na tela. Passou as duas mãos pelos cabelos, esfregou os olhos, sentiu suas pupilas explodindo. Sentiu enjoo, sufocamento, vontade de chorar. Olhou para sua aliança. Ali não era o seu porto seguro, era a prova de uma escolha errada que magoava duas pessoas, agora três. 

Aquele era o último dia de aula.

Estava perdido.

2 comentários:

LECA NUNES disse...

LINDO, MAS TRISTE...

Ludmila Clio disse...

Rs... acredito que só seja lindo porque é triste... ;)