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sexta-feira, 27 de março de 2015

Bela Adormecida


Chegou do trabalho exausta. Da vida.
Foi direto para o chuveiro, como quem está com muita pressa. E estava.
Queria desvencilhar-se o mais rápido possível dos olhos implacáveis da vida.
Ainda eram pouco mais de cinco horas da tarde.
Bela saiu do banho, sua pele estava fresca.
Seu coração, exaurido.
A vida a esperava, de pé, na porta.
As duas se olharam nos olhos.
A vida mantinha uma expressão blasé, quase cínica.
Bela, por sua vez, tinha os olhos carregados de exaustão.
Ainda sustentando o olhar com toda a força do seu corpo, disse firmemente à vida:

- Pode ficar por aqui mesmo, na sala. Descanse sua mediocridade, eu vou dormir.

- Dormir? A essa hora?

Bela respondeu à vida com um olhar frio e censurador.
Entrou em seu quarto, fechou a porta atrás de si.
Deitou-se.
Cobriu a cabeça, numa tentativa inconsciente de esconder-se da melancolia.
Fechou os olhos.
Desejou não acordar nos próximos oitenta dias.
Na sala, a vida espreguiçou-se no sofá, sua expressão cruel logo se desfez.
No quarto, entorpecida pelo cansaço de ser triste, antes de cair no sono profundo, Bela ouviu risadas que vinham da sala.
Sim, longe dela, a vida era feliz.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Olhos Negros



Antes que as estrelas se diluam no céu negro
Antes que o desvario seja invadido pela pronúncia do dia
Vou beber todo o teu vinho
Vou me diluir nos teus olhos negros
Vou entorpecer o teu corpo sobre a nossa cama febril
Antes que as estrelas fechem teus negros olhos para sempre
Vou invadir teus ouvidos pronunciando gemidos
Vou te quebrar nos dentes feito uma bala de hortelã
Depois adormecer no teu cansaço, até morrer pela manhã

Fecho o livro e meus olhos negros
Ainda ouço teus gemidos se pronunciando em meus ouvidos
Oh, não! Estou adormecendo de cansaço,
Quebrada feito uma bala de hortelã
Entorpecida pelas estrelas diluídas no teu vinho

O voo não passava de queda livre
As asas que me deste jamais se abriram para o desvario
Então abro meus olhos negros e piedosamente sorrio
Camisa de força nunca me caiu tão bem.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Mamãe, a vovó tá beijando outra vovó na sala!


Mais uma vez os crentes de plantão estão chocados. A bola da vez é o beijo gay, exibido na novela das nove. Daí começaram os ataques doídos nas redes sociais: “isso é agressão, não vamos tolerar isso. Nossos filhos não podem ver essas coisas.” Até parece que os crentes não conhecem o livro de Apocalipse, porque né, do jeito que estão em choque, parece até que eles não foram avisados que tudo isso que está acontecendo iria acontecer.

Agora eles estão se unindo em abaixo-assinados sem fim para tirar a novela amaldiçoada do ar. Difícil... não boto fé que isso vá acontecer. Em todo caso, atacando especificamente o beijo gay, os crentes deixam bem claro o seu estúpido preconceito. Nunca vi abaixo-assinado contra a traição, a pornografia, a corrupção, a violência, os assassinatos das novelas. Qual é o peso? Qual é a medida? Filho matar o próprio pai com um tiro nas costas, pode? O herói disparar, em horário nobre, um sonoro “FELADAPUTA”, antes de matar à queima roupa seu arqui-inimigo, pode?

Suponhamos então que o abaixo-assinado da bênção seja aprovado e a novela seja suspensa. O que se ganha com isso? Meu Deus! Vivemos em qual mundo, o de Alice? Quem quer poupar seus filhos de ver beijo gay na televisão, sinto muito em informar: vai ver na vida real. Eu vejo quase todo dia. Já vi na praça, dentro do ônibus, no terminal rodoviário, no shopping, no cinema, sempre lotados de gente. Não foi nas baladas, nem nos becos não. Então, a menos que seu bebê more dentro de uma bolha, alheio a tudo o que acontece, não tem escapatória: ele vai presenciar isso um dia. Seja hoje ou semana que vem.

Mais uma vez eu vejo os crentes cometendo o velho erro de sempre: oram quando têm que agir, agem quando têm que orar. Se Deus é amor, se o mandamento maior foi que nos amássemos como a nós mesmos, que postura é essa, onde aparece o amor nisso? E aquele papo aranha de que não são contra os homossexuais, mas contra o homossexualismo não tá colando. O desamor da nossa realidade prova isso.

Vejo o tamanho da imaturidade dos crentes quando apelam em correntes e posts ofensivos contra os homossexuais. Sim, acabam sendo contra eles, diretamente. Que estratégia imbecil é essa? É porque eu sempre fico imaginando o que Jesus faria. Imagina se Jesus tivesse Facebook, que loucura, mas imagina se Ele ficaria postando essas bombas cheias de moral, de ódio, de repulsa? Ou será que Ele fecharia a porta de Seu quarto e intercederia, secretamente?

O óbvio é que estamos presenciando um massacre virtual (e infelizmente real também), onde o diferente não tem vez. Que fique claro que eu não estou defendendo os homossexuais em si, mas a condição humana, que carece de amor. A revolução do amor deve ser silenciosa, isso não a torna ineficiente, tampouco omissa. Essa postura de repúdio dos crentes me decepciona. Os séculos entram e saem, mas o erro perdura. Povo de boca cheia de argumentos e de coração árido. O mundo é ódio puro, temos que fazer a diferença amando ao próximo e não execrando suas atitudes. Tirar a novela do ar não vai resolver absolutamente  nada. Ao contrário, só vai acirrar essa guerra, que não tem nada de santa.

Desconfio que essa revolta toda dos crentes em detrimento do amor ao próximo entristece o coração de Deus mais que qualquer outra coisa.

Ele só quer que nos amemos. Difícil?

quinta-feira, 19 de março de 2015

Eu Não Percebia


Ontem eu estava no céu
Te vi sorrindo, no meu jardim abandonado, 
colhendo os sorrisos que esqueci
Arranjaste um pequeno espaço na bagunça da minha vida
e até o tempo parou para nos ver dançando as músicas
que cantavas nos meus ouvidos ensurdecidos
Tuas mãos tiravam de mim o menor vestígio de medo
Apagavam com carinhos as lembranças de um passado gris
A incandescência dos teus olhos era o Sol a me aquecer
Teus silêncios declaravam a paz
Eras a própria vida me convidando a viver
Eu não percebia que eras o Diabo me conduzindo ao precipício
Onde não há nuvens de algodão doce, onde o Sol não se deixa ver
A altura da tua covardia era lancinante
Engolida pela vertigem, eu não sentia meus pés
Arrancaste-me a pele, fiquei exposta à tua frieza cortante
Teus sorrisos se esconderam nas duras pedras
Desesperada, eu quis partir em fuga,
mas fui arrastada pelo teu desprezo em movimento
Minha solidão era o céu, mas eu não percebia
Olá, inferno. Eu voltei.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Eu não ia dizer nada, but...




A moda agora é a tal da "liberdade de expressão". Que bonito!! Todo mundo se expressando. Seja propagando o ódio, seja repetindo asneira de um asno maior, seja expressando seu péssimo português em cartazes no meio da galera. 

A maioria dos discursos começa assim: "Eu não ia dizer nada sobre as manifestações/ impeachment/ intervenção militar, BUT..."

Xiu!! Fala nada não. Observe. Estude. Se inteire. Leia fontes seguras. Aja. 

Não saia repetindo por aí o que leu num site que você nem sabe qual é. Quase nada que se lê hoje em dia é confiável, sabia?! Ohh... Verdade, pois é, pois é, pois Zé!

Quem disse que quem cala, consente? O silêncio nem sempre é omissão, não. Você pode fazer silêncio tamanha a sua contrariedade à situação. Você pode fazer silêncio enquanto age, se melhora, estuda. 

Tem gente aclamando o inferno e nem sabe. O inferno tem mais de um nome, prestenção!

Isso que dá desânimo. Ver um mar de gente nas ruas gritando, "e-xi-gin-do" atos inconstitucionais. Impossíveis, para ser mais clara. 

Enfim, eu nem sei por quê toquei no assunto. Acho que, apesar de detestar as modinhas, me afeiçoei a essa tal de "liberdade de expressão".

segunda-feira, 9 de março de 2015

Alô? Privacidade, é pra você!


Eu ainda fico impressionada com a completa falta de privacidade que vivemos. Eu nunca sofri um acidente e fui filmada enquanto esperava pelo socorro, graças a Deus! Nem nunca apanhei na rua enquanto faziam a filmagem ao invés de me socorrer, mas sim, eu me sinto invadida todos os dias. Também me impressiona o quanto as pessoas estão despreparadas para ouvir verdades, de modo que, assumindo agora a postura de expor o que eu penso e estou sentindo, muita gente vai se sentir ofendida e vai me colar na testa de novo aquele rotulozinho chinfrim de “grossa”. Eu nem ligo. E por não ligar, fico mais grossa ainda. Pessoas querem que nos moldemos aos padrões, falemos baixo, sejamos cordiais, sorridentes e receptivos. I’m sorry, pessoas... eu sou uma porta. Minha privacidade vem juntinho com a saúde, no mesmo nível de importância.

Hoje pesquisei e tentei, de todas as maneiras, excluir a minha conta no Facebook e manter apenas a fan page, mas isso não é possível. Vou ter que continuar exposta na vitrine da loja das melhores intenções. Às vezes até me esforço para manter a meiguice. Posto coisas fofas, mas prefiro  as ácidas. Se me entendem ou não, eu não ligo. Mesmo. Infelizmente não sou muito sociável, mas o agravante é que eu não finjo ser. Isso espanta as pessoas (graças a Deus!). 

Eu ainda me lembro dos meus dias de criança, havia um telefone em casa. Era tão libertador não saber quem estava ligando e, melhor ainda, simplesmente não atender se eu não estivesse a fim. (Desculpa, mãe. Fiz isso inúmeras vezes quando você saía). Era tão boa a sensação de chegar em casa e abrir a porta correndo porque o bolachão estava tocando! Também era maravilhosa a sensação de sair e não saber se alguém ligou, ao passo que, era péssima a sensação de ligar e ninguém atender. Ainda assim, era diferente de hoje que, se quem atende é a secretária eletrônica da caixa postal, a gente nunca imagina que a pessoa está no banho ou foi à padaria da esquina e já volta. Não. Ou pensamos que a pessoa está esmagada debaixo de um caminhão (e sendo filmada por centenas de curiosos imbecis e insensíveis) ou que, pior ainda: ela simplesmente está nos ignorando.

Acho de uma violência sem fim essa coisa do WhatsApp ficar azul quando a praga da mensagem é lida. Acho medonho aparecer “visualizado” naquela mensagem que abri sem querer. Mas quer saber? Deixa ficar azul, roxo, vermelho neon, eu não ligo. Ignoro sem peso na consciência.

Desculpa, mundo. Eu ignoro mesmo. Quando eu não respondo é porque eu não estou teatral o bastante para ser meiga, e prefiro ficar sozinha. Pro teu bem, agradeça! As pessoas precisam entender, de uma vez por todas, que estar na minha lista dos contatos seja do Facebook, seja do WhatsApp, do Skype, não é credencial para invadir a minha vida.  Eu já perdi convites por ficar postergando a leitura de uma mensagem, eu já perdi até entrevista de emprego porque não atendi ligações exaustivas. No fundo, eu não perdi nada. Perderia se tivesse atendido, introspectiva  como eu estava naquele instante. Quando eu digo que odeio esse sistema e que ainda vou me safar dele, as pessoas acham que eu estou delirando, as pessoas ainda acham que minhas diferenças podem ser adaptadas. Não, não podem.

Se fosse o Bukowski falando ou a Clarice, o Renato Russo, o Ayrton Senna, a maioria compreenderia sua excentricidade e veemência. Mas, como sou uma reles mortal que está a anos-luz de distância desses seres iluminados, já estou preparada para as duras críticas.


Graças a Deus o modo voo existe! 

quinta-feira, 5 de março de 2015

Sou Apenas


Sou apenas uma certeza duvidosa
O osso esquecido sob a carne, o osso abandonado sob a terra
A criança que sequer nasceu, a debutante orgulhosa no seu baile
Sou apenas o silêncio que grita, o sono ao lado do bombardeio
A tatuagem que se apaga quando choro
O amor que não acontece por causa do teu medo
Sou apenas a vida que corre silenciosa dentro das plantas
A flor arrancada que sobrevive afogada num copo d'água
Sou apenas um motor que corre para o precipício
A estrada sedutora que ninguém ousa correr
A paisagem deformada pelo vento, o frio que corta as faces quentes
Sou apenas a pele arrancada das unhas, o viço que protege a dor
A verdade que é dita sorrindo e ninguém acredita
A mentira que atrai a todos os mortais
A paz que atormenta, a guerra que alivia
O deserto inundado, a estrela sem brilho
A vela derretida, os cabelos cortados
Sou apenas uma inutilidade necessária
neste mundo em que todos deveriam ser,
mas apenas.