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domingo, 1 de março de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (05/15)

“Sou uma gota d'água,
sou um grão de areia
Você me diz que seus pais não te entendem,
Mas você não entende seus pais.”
(Pais e Filhos - Renato Russo)

O clima entre meus pais só piorava. As discussões eram raras, mas eram estrondosas. A indiferença entre eles era abismal. E eu estava ali, entre os dois, ano após ano.

Eu via todo o esforço de minha mãe para me manter. Era a escola caríssima, aparelho nos dentes, aulas de piano, mas sinceramente, não via futuro na música para mim, não me achava boa o bastante. Até porque, uma das estratégias da minha mãe, era me comparar com outras meninas, enaltecendo-as. Ela acreditava que assim, despertaria em mim um espírito de superação, o que na verdade, suscitava em mim o contrário. Sempre tive a impressão de não ser boa o suficiente para a minha mãe. Anos depois passei a ter certeza disso. Eu comecei a tocar na igreja aos dez anos, era uma das pianistas do coral e da congregação. Uma das meninas da igreja, que começou a estudar piano depois de mim, já tinha o seu piano e, naturalmente, me ultrapassou. Foi a senha para a minha desestimulação total. Voltei às aulas ao longo da vida, estudei ao todo, por mais de 15 anos. Apesar da música ser a minha paixão maior, confesso que ando com os dedos mui enferrujados, mas sinto que ainda vou voltar para o piano um dia. 

Em janeiro de 1996, meus pais finalmente se separaram. Meu pai voltou para Minas Gerais. Apesar de ser a parceirona dele, nós nunca conversamos assuntos sérios, coisas do coração e da alma. Já com a minha mãe, eu tinha muitas dessas conversas. Naturalmente, tomei partido dela e a apoiei na separação. Eu era cúmplice de todos os seus sacrifícios físicos, emocionais e morais. Ela teve o cuidado de me preparar para uma mudança drástica no meu padrão de vida, a começar pela escola, mas eu estava de acordo, plenamente de acordo. Eu não suportava mais vê-los sofrendo e se magoando daquela maneira. 

Para a nossa surpresa, ganhei uma bolsa de estudos na escola em que eu estudava, a mais cara da cidade. Mamãe ganhou um emprego de servente lá. Não foram poucas as vezes em que, da carteira, eu a via passar pelo corredor com balde e vassoura nas mãos. Essa é a fibra que ela tem na alma. Eu não sei se eu encararia uma parada dessa. Fato é que minha mãe é admiravelmente forte, guerreira, e nunca mediu esforços para me dar educação que, segundo ela, era a única herança que ela poderia deixar para mim. E como eu agradeço por isso! Levei com muita naturalidade estar numa escola com todos os filhinhos de papais médicos, empresários do mármore e do granito, dentistas, advogados, engenheiros, publicitários e eu, a filha da servente. Isso durou por volta de cinco meses, posteriormente mamãe foi remanejada para outro setor. Mas para mim, isso foi muito tranquilo. Nunca sofri bullying ou qualquer outro tipo de constrangimento, ainda que interno, por conta disso. 

No entanto, como a vida estava batendo forte na gente, em casa tínhamos brigas horrorosas, agravadas pelos nossos gênios fortes e personalidades parecidas. Sentia saudade do meu pai, tinha a minha certeza de não ser o que minha mãe queria. Eram conflitos gigantes dentro de uma cabeça adolescente, naturalmente confusa. Nessa época eu já me sentia pertencer a outro mundo que não fosse esse. Eu já era inadequada para o sistema, mas não sabia me expressar, ao passo que, minha mãe não me compreendia, e na gana de acertar, me engolia com suas críticas e negações. Passávamos dias sem trocar uma palavra, a atmosfera era deveras pesada, quase bélica.


Meu Deus, como é difícil ser adolescente!! A gente pensa que o mundo é incrivelmente dramático, que o nosso cabelo é o mais indomável de todos. A gente pensa que é gorda demais, que é discriminada demais, que é burra demais, inferior demais. A gente também é invejada demais, mas não se dá conta disso. A gente detesta estudar e vai pra escola só pra ver a galera. A gente não vê a menor importância nas aulas de Geografia, de Matemática e acha todos os professores muito imbecis. Mas o pior de todos os achismos é mesmo achar que os pais não sabem de nada. É besta pensar isso porque no fundo a gente sabe que é com eles (e só com eles) que a gente pode e vai contar.

Na adolescência e por toda a vida.

2 comentários:

Leca Nunes disse...

Desculpa pelos desafios que lhe impus, obrigada por pensar que sou sua mãe. Mas...sinceramente, não me arrependo das severidades que possamos...

Ludmila Clio disse...

Nem eu, mãe! Meu único e amargo arrependimento é não ter te tratado naquela época com o carinho que sempre mereceu. Hoje, mãe de adolescente, eu sinto no coração o quanto dói o desprezo de um filho. Isso me faz sentir muita raiva de mim. Eu nunca seria nada sem você! Te amo!!