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domingo, 15 de março de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (07/15)

“Eu sei que flores existiram,
mas que não resistiram a vendavais constantes
Eu sei que as cicatrizes falam,
mas as palavras calam o que eu não me esqueci...”
( Fera Ferida – Roberto Carlos)

No final de dezembro de 2000, no dia 29, Luísa nasceu. Foi o dia de maior sofrimento físico de toda a minha vida. Hoje eu já conheço os níveis de dor das cólicas renais, mas o pré-parto continua sendo a dor maior.

Suas primeiras palavras não foram nem “mamãe”, nem “papai”. Foram “te amo”. Acho que de tanto que eu repetia isso no ouvido dela, mais que qualquer outra palavra, eu lhe dizia a toda hora “te amo”. 

Deus foi tão detalhista, que me deu a Luísa nas férias da faculdade. Não precisei repor aulas ou pegar licença. Tudo iria muito bem, não fosse o tropeço de sempre... Eu ganhei a faculdade de presente. Um amigo da igreja decidiu me presentear, disse pra eu escolher o curso. Sim, eu recebo bênçãos que poucas pessoas recebem, reconheço. Escolhi História. Queria ser jornalista. Fiz História com o intuito de compreender nossa trajetória, queria ter esse diferencial, de ser uma jornalista com bagagem histórica. 

À certa altura, o pai da Luísa me pediu emprestados os cheques destinados mensalmente à faculdade. Claro que eles nunca me foram devolvidos. Claro que perdi dois anos da faculdade. Claro que perdi meu presente. Claro que perdi a credibilidade. Há relações que só vêm para nos fazer perder. É mister ter maturidade para perceber isso a tempo e sair fora o mais rápido possível, mas isso não foi o que aconteceu comigo. Abri os olhos tarde demais, quando eu já estava sem casa, sem família, sem igreja, sem credibilidade, sem sonhos. O fundo do poço existe, dentre outras coisas, para nos mostrar quem é quem na nossa vida, inclusive nós mesmos.

A lição número um que a vida me passou é que ninguém sabe o que a gente vive. Só vivendo pra saber. Tanta gente me chamou de louca quando soube da minha separação, mas quando meu corpo estava cheio de hematomas, meu nariz escorrendo sangue e minha barriga guardando um bebê de sete meses, que se remexia, se contorcia inteira e levantava minhas costelas, quem estava comigo? Será que alguém sentiu a dor daquela humilhação, numa incrível empatia?

E, meses depois, quando eu colocava Luísa para dormir às 18:00h, depois de chegar da creche e ficava ao lado dela na cama, pedindo a Deus para ela só acordar no dia seguinte porque não tinha nada em casa para lhe dar de comer? Não me lembro de ter alguém lá comigo dividindo essa agonia. Sim, estávamos sozinhas. Se alguém tivesse dividido meus fardos, decerto não me esqueceria. De modo que a vida dá a quem sofre o direito de não se explicar, de não se importar mais com pequenezas e tampouco de ficar se preocupando com a opinião do planeta. E sinceramente, o planeta não está acostumado com isso. As pessoas querem se meter. As pessoas precisam opinar, a gente pedindo ou não. Quando a vida te diz “você passou nas minhas provas” ela está te dizendo “viva o que tiver de viver sem se importar com os outros”. Isso não é dureza. Isso não é arrogância, embora o planeta rotule assim essa atitude.

Quando assumi essa postura de realmente não ligar mais para as pessoas, muitas coisas se transformaram dentro de mim. Via de regra, as pessoas não absorvem esse comportamento, ao passo que, me tornei mais seletiva. Fortes andam com fortes. No reino animal também é assim. Não existe empurrão mais potente que o sofrimento. Mesmo sem querer, disparei na frente. Quando as coleguinhas da escola estavam discutindo se a Maria Joaquina iria dar uma chance para o Cirilo, da novela Carrossel, eu estava desesperada tentando encontrar a maneira de não deixar meus pais se separarem.

Quando todos me condenavam como a “adolescente que engravidou do namorado”, eu estava dentro de quatro paredes sendo brutalmente espancada, protegendo minha enorme barriga.

Quando todos me viraram as costas, eu estava criando Luísa sozinha. Sem dinheiro, com pouca ou nenhuma comida.

Quando se chega a esse ponto, acredito haver duas possibilidades: ou você se revolta e se torna terrivelmente amargo ou você se revolta e se desafia a dar a volta por cima.

Rótulo é mania de gente preguiçosa, que não se dá ao trabalho de se aproximar e ver de perto a alma do outro. Rótulo é atalho. Rótulo é maldade. Rótulo é infundado. E é por não acreditar em rótulos que eu escolho meus shampoos pelo cheiro.

Pessoas também.

2 comentários:

Leca Nunes disse...

..não pise nas minhas pegadas...somos sós... você e Deus, nada mais.Que Deus as guarde por nós.

Isabel Bastos disse...

Passei por quase os mesmos momentos seus, com algum diferencial, dei a volta por cima, por isso te digo " Vim de tantas tempestades que não tenho medo de mais nada" Somos mulheres que corremos ao encontro da felicidade e pronto.