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sexta-feira, 20 de março de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (08/15)

“Palavra quando acesa,
não queima em vão.”
(Quinteto Violado)


Escrever. Como eu amo escrever!

Descobri as primeiras sensações das letras na época das “composições de texto”, na escola, criando “início-meio-fim”. Não sei por quê, mas as minhas primeiras lembranças da escola já são de amor pela língua portuguesa. Talvez seja culpa do meu pai, que apesar da pouca escolaridade, nunca admitiu me ouvir falar uma palavra errada. Na minha infância, brincamos muito de conjugar verbos. Nós escolhíamos um verbo e começávamos a conjugação. Presente, pretérito, futuro. Futuro do pretérito, pretérito mais-que-perfeito, pretérito imperfeito. Também não posso deixar de mencionar a “tia” Mariza, minha professora das primeiras séries, que temperava os pratos de letras que meu pai me dava em casa. 

(Não posso deixar de dizer que a tia Mariza faz aniversário no mesmo dia que eu _por sinal, hoje: 22 de Março!_ e isso para uma criança que idolatra a sua professora não tem preço.)

Minha primeira poesia nasceu aos meus onze anos. Foi libertador me livrar de angústias tão densas, escrevendo. Creio que ser filha única tenha contribuído muito para isso. Aguentar a barra de manter um casamento (que não era meu) sozinha é um problema que nenhuma amiga minha viveu. Meus problemas eram diferentes. Eu era diferente.

Como de tantos escritores que eu conheço, minha gaveta começou a colecionar minhas poesias. Eu ia absorvendo dores, dramas, rejeições, saudades, desilusões e, numa madrugada qualquer, sentia a intimação urgente de uma inspiração avassaladora. Escrevia. A angústia passava. Eu dormia. Posso dizer tudo isso no presente ainda, porque acontece ainda hoje, exatamente assim. E não sei se tem cura. Acho que é um mal _ou bem_ vitalício.

Minha primeira experiência realmente impactante com as letras provocou a exoneração de uma funcionária pública. Eu tinha uns 17 anos. Fui tirar meu R.G. na delegacia e fui pessimamente atendida. Tem funcionário público que contribui com a fama ruim da máquina pública.

Foi uma verdadeira odisseia porque minhas digitais são falhas, até hoje. Tive que voltar à delegacia e repetir todo o processo mais duas vezes. Em todas fui tratada com descaso. Do lado de cá, fui contabilizando e registrando todo aquele desprezo. Nunca fui de rispidez ou barraco, Deus me livre. Decidi esperar o momento oportuno e desabafar da maneira correta: escrevendo. 

Na quarta vez em que voltei à delegacia para, enfim resgatar meu R.G., fui ignorada pelas duas funcionárias e tive que esperar nove minutos (contados no relógio) elas assistirem à uma reportagem no programa da Ana Maria Braga sobre implantação de silicone nos seios. Achei aquilo um absurdo sem fim. Elas riam e comentavam a reportagem enquanto eu estava de pé, com o protocolo na mão, sem receber um olhar sequer das duas. Era só uma delas conferir meu nome, ir à letra L e me entregar o bendito R.G. mas isso realmente só aconteceu quando a Ana Maria Braga chamou os comerciais. Indignada, cheguei em casa e escrevi um texto narrando tudo, desde nosso primeiro encontro na delegacia. O texto se chamava “O circo das identidades”. Nada mais propício que um circo para falar de palhaços, o que me senti naquela situação. 

Enviei o texto para um jornal local e ele foi publicado. Meses depois eu soube que havia uma mulher me procurando pelo bairro e algum vizinho especulador descobriu o que ela queria comigo, e me contou. Ela queria me processar em decorrência do artigo que lhe custou a cabeça e a boa vida de funcionária pública.

Busquei respaldo jurídico e fiquei tranquila. Naquela época a maioridade era 21 anos, eu só tinha 17. Ademais, eu não citei seu nome (até porque eu nem sabia), de modo que, se a delegada quis exonerar justamente ela, o que eu poderia fazer, meu Deus?

Numa tarde, a campainha tocou. Fui ao portão atender, era ela. Revoltada, me disse horrores. Me acusou de ter destruído sua carreira, que estava a poucos meses da aposentadoria. 

Até hoje eu não sei se ela realmente foi exonerada, acho que ela foi apenas remanejada ou punida, não sei se alguém é exonerado no Brasil por ignorar um cidadão para assistir televisão. Ainda acho que ela só jogou verde no intento de fazer a minha consciência doer. Mas não doeu não, viu?

E fiquei satisfeita quando soube que, na mesma semana da publicação do meu texto no jornal, a TV foi retirada da delegacia. Eu hein!? Vê bem se meu nariz tá pintado de vermelho, dona Silicone nos Peitos!

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