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domingo, 29 de março de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (09/15)

“Palavra , palavra,
se me desafias, aceito o combate.”
(Carlos Drummond de Andrade)
A maioria das pessoas que escrevem guarda seus escritos e os mostra, timidamente, para um ou outro, de vez em quando. Pelo menos a maioria das pessoas que escrevem, que eu conheço. Eu, naturalmente, não fugi à regra. Escrevia, guardava. Mostrava às vezes para um professor ou outro, uma jornalista, pessoas que eu julgava serem de confiança e competentes o bastante para fazerem um julgamento. A verdade é que quando se trata de poesia, a quem se pode atribuir tal competência, se a poesia é a expressão de um sentimento que genuinamente é da alma? Com o tempo aprendi que o que me toca, não vai, necessariamente tocar outra pessoa. Vivo me surpreendendo com isso. Escrevo algo que julgo confuso ou razoável e chovem feedbacks incríveis. Por outro lado, quantas vezes já escrevi poemas que me arrepiaram, que mexeram comigo e ninguém comentou nada acerca dele. É imprevisível, simples assim.


Em 2004, com meus 23 anos, guardando poemas desde os onze, eu já tinha um caderno bem recheado deles. Um dia, ao chegar à faculdade com meu namorado, o Villinevy, ele leu um cartaz que divulgava um concurso nacional de poesias para acadêmicos e me encorajou. Eu, obviamente, ri da cara dele e disse que jamais venceria um concurso, ainda mais de nível nacional. Para mim ele estava sendo tendencioso, em depositar em mim tamanha capacidade. No entanto, aceitei o desafio. Parei em frente ao cartaz e anotei todas as informações para participar. A data de inscrição estava muitíssimo próxima, eu precisaria correr, faltavam 02, 03 dias no máximo. Eu disse a ele que me inscreveria só para provar que não daria em nada.



Podendo enviar até 03 poesias, no dia seguinte, fiz uma seleção de 05 e pedi à minha mãe para ler e me ajudar a escolher. Ela leu a primeira, com certa impaciência. Na segunda linha da segunda, ela me devolveu e disparou:

- Quem tem que decidir isso é você, tudo o que você escreve é bom. Manda qualquer uma.



Fiquei super triste. Isso me pareceu desdém, desinteresse. Fui para a faculdade, sentia meu coração batendo nos ouvidos. Não fui pra sala de aula sem antes colocar aquele sentimento estranho para fora, não era capaz de esperar a madrugada chegar para vomitar. Me sentei perto da mesa de ping-pong, no pátio e escrevi: 



ESTRANHA INTIMIDADE



“Seu colo, talvez, seja o último que eu reconheceria.
Mesmo à luz do dia, eu não o saberia.

Da cumplicidade que nunca tivemos

é que sinto mais saudade.
A sua voz não me é tão familiar.
O menor gesto de carinho me constrange.
Não conheço o caminho que leva ao seu coração.
Eu não sei cantar a música da sua alma.
Acho que nunca soube te amar.
O que eu te ofereço, você não aceita;
talvez porque não compreenda.
Somos um projeto de plenitude.
Entretanto, nem todos os projetos prosperam;
alguns tornam-se irrealizáveis.
Papel queimado.
Vela derretida.
Fim da linha.
Resta somente um mosaico lancinante de remorso,
saudade, vontade, culpa.
Tenho ódio da minha infantilidade,
que me impediu de ser uma filha mais próxima.”



Por ser a poesia mais recente, a enviei juntamente com outras duas. Dias depois, para a minha surpresa, concorrendo com outras cento e três pessoas de todo o Brasil, “Estranha Intimidade” levou o primeiro lugar, no XVI Concurso Nacional de Poesia da FAFIMAN – Faculdade de Filosofia de Mandaguari (PR). Foi o estopim para os meus chegados começarem a me “cobrar” um livro. E claro, eu tive que aguentar as provocações maravilhosas do Villy, meu namorado encorajador! Verdadeiramente eu não me inscreveria se ele não tivesse me desafiado. Quebrei a cara, venci. Espero quebrar a cara assim muitas vezes ainda pela vida. 



Ao saber do resultado do concurso, liguei para minha mãe pra contar a novidade. Ela foi meio fria, me deu aqueles “parabéns” meio assim. Foi seco e reto. Poucos anos depois, soube de uma grande amiga dela que ela contou para um monte de gente sobre o concurso, na maior felicidade. 

Sorrindo, nesse momento enquanto escrevo sobre isso e me lembro dela, acho graça dessa postura dela. Eu compreendo que a vida bateu tão forte nela, e sempre, que ela não relaxa quando a vida alivia um pouco. É como se ela estivesse sempre a postos para um contra-golpe. Guerreira. Eu queria ter 10% da fibra dela. Às vezes me sinto igual a ela. Às vezes me sinto uma garotinha totalmente despreparada para a vida.

4 comentários:

Aluizio Sueth disse...

Certamente Estranha Intimidade não ganhou por acaso... linda demais amiga... cumprimentos.

Ludmila Clio disse...

Obrigada, obrigada querido!!
*-*

Andressa Menezes disse...

Que lindo!Tenho 13 anos e também escrevo,tenho vontade de mostrar para as pessoas,e perguntar,se tá legal Mas tenho muitas vergonha..Sua história virou uma inspiração o mim!!Você merece tudo o que aconteceu!!Parabéns.

Ludmila Clio disse...

Andressa querida menina, você é quem me inspira dizendo isso. Acredito que todo escritor teve esse começo de escrever, guardar, "morrer de vergonha"... escolha alguém a quem admire, em quem confie, mostre. Os caminhos se abrem a partir daí. Não sinta vergonha do que sente, apenas selecione para quem irá mostrar a tua alma, os teus escritos. Espero, um dia, "te ler" por aí! Que Deus te abençoe, boa sorte para você também!! ;)