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domingo, 8 de março de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (06/15)

“Se você não pode ser forte,
seja, pelo menos, humana.
Quando o papa e seu rebanho chegar,
não tenha pena.”
(Dulce Quental/  Roberto Frejat)
Dos 18 ao 21 anos tudo mudou para sempre na minha vida. Aos 18 me apaixonei. Aos 19 fui mãe. Aos 21 me desiludi com a igreja. A partir de então, virei uma aluna especial da vida. As suas lições eram cada vez mais difíceis e exigentes de minha força para viver.

Me casei porque engravidei. Me separei porque fui agredida, de todas as maneiras: física, verbal, psicológica. O pai da Luísa nunca me deu força para continuar na música, na faculdade. Nunca me incentivou a trabalhar fora. Quando a gente amadurece e olha para trás, mal se reconhece. Foi o que aconteceu comigo. Sempre que olho para trás, me pergunto quem era aquela, por que ela aceitava calada tanta humilhação. Mas agradeço. Acredito que poucas são as pessoas que olham para trás e não se reconhecem em suas atitudes ou falta delas. Cada bomba que explodiu aos meus pés me amputou um pouco e me levou ao ponto de ter que trocar de postura, se eu realmente não quisesse morrer despedaçada. Foram tantas discussões, tantas acusações, agressões, privações. Definitivamente não fui criada com tamanho sacrifício para viver aquilo.

Ademais, fui praticamente convidada a ir embora da igreja onde nasci porque eu era “estranha”. Separada, endividada e com a pequena Luísa para criar, pedi ajuda financeira à igreja que, representada pelo seu pastor e um dos conselheiros, me informou que não me ajudaria porque eu era muito instável, do tipo que um dia chega cumprimentando todo mundo e no outro nem olha na cara. Sinceramente não vou comentar. Só digo que saí decepcionada e nunca mais voltei. Não senti falta da maioria deles e acho que ninguém lá sentiu falta de mim, já que nunca me procuraram. Lembro-me que isso aconteceu a poucos dias do meu aniversário. Ninguém telefonou. Voltei lá especificamente nove meses depois, para assistir à cantata de Natal. Coloquei na Luísa seu vestido mais bonito, fiz a minha melhor cara de esnobe insuportável e me sentei na segunda fileira. Me preparei psicologicamente para esse momento e, ainda bem que me preparei: apenas duas pessoas de uma igreja lotada vieram falar comigo com surpresa, como quem percebeu alguma ausência. 

Passei boa parte da minha vida acreditando que não seria capaz de viver sem a igreja, sem seu convívio. Hoje tenho certeza de que o ditado é corretíssimo ao dizer que “quando o homem põe o dedo, Deus tira a mão.” Bem, se serei crucificada por dizer isso, paciência. Que as igrejas entendam como quiserem, dentro de suas distorções e julgamentos. Ser rotulada de “esnobe e metida” por quem deveria ter me ajudado realmente despertou em mim a “metidez”.

É, no fundo, muito triste isso. Eu nasci na igreja. Até meus 21 anos, vivi nela, para ela e por ela. Não havia um compromisso em que eu não estivesse presente. Sempre puderam contar comigo. Já toquei piano em velório de gente que nunca vi porque não tinha pianista de plantão na igreja e eu estava lá, de bobeira. São coisas que chegam a ser engraçadas. 

Dizem por aí que a igreja assumiu uma postura de tribunal enquanto deveria ser hospital. Infelizmente é verdade. Depois que me bateram a porta na cara e me convidaram subliminarmente a me retirar, passei meses, alguns anos à procura de uma nova igreja, mas nunca mais fui a mesma coisa. 

Passei situações completamente duríssimas, sozinha. Com Luísa pequena, vi como era difícil viver sozinha, sem um apoio moral ou um plano B. Minha família sempre morou longe, em Minas. Até então eu tive a igreja como família. Doce ilusão. Nem a igreja está preparada para lidar com os diferentes, os “instáveis”, as exceções. 

Acredito em Deus sobre todas as coisas, mas hoje entendo que religião não tem nada a ver com Deus. Sinto falta da comunhão e acredito que há certas coisas que Deus só faz quando Seu povo está reunido. Vivi experiências que, sozinha em casa, jamais verei novamente, e sinto falta disso. Às vezes a saudade aperta tanto, que procuro uma igreja para ir, mas não estou vinculada à nenhuma, no momento. 

Não sei se um dia voltarei de vez, mas tenho uma certeza: Deus me guardou o tempo todo e não abriu mão de mim. Quando olho para trás e revejo certas situações, chego a sentir um estranhamento. Às vezes parece que aquilo tudo aconteceu há mais de cem anos. Às vezes parece até que nunca vivi nada daquilo. Olhar-me de fora, maquiada, bem vestida, sorrindo, é um prato cheio para julgamentos. O detalhe é que eu não estou nem aí pra eles.

A maior certeza que tenho é que Deus permanece no controle da minha vida.

3 comentários:

Leca Nunes disse...

...conte sempre com Deus, para Deus seus temores e pecados, lágrimas e sorrisos, dores e pesares...
Ele julgará no final, só o homem que impaciente e fazendo-se de perfeito julga antes do fim.
Beijo beijo

Djane Assunção disse...

Tem uma frase do Rapper Emicida que eu carrego sempre na minha mente, e eu gostaria de relacioná-la a esse texto.
"Pois não vejo Deus nas igreja, mas em compensação eu vejo em todo resto"

Ludmila Clio disse...

Bem assim, querido... já cheguei a sentir que o último lugar no qual Deus entraria hoje seria a igreja... =/