Seja muito bem-vindo ao Copo de Letras!! Sirva-se sem moderação. ;)

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Quantos Donos tem o Mundo?


As ilhas eram nossas
Os campos de girassóis eram livres
Aves raras flertavam com o céu, 
golfinhos dançavam como queriam
O mundo respirava sem aparelhos 
e seus pés tocavam o chão

Quanto tempo eu dormi?
Quem mentiu antes do amanhecer?
Quem se fez primeiro dono?

Acordei em um pesadelo
Há cercas, muros, rótulos e patentes
Todos somos ilhas particulares
Os girassóis foram encerrados em estufas 
e custam mais que nossas almas

As aves raras suspiram pelo céu através das grades
Os golfinhos foram dopados 
e dançam sincronias suicidas
O ar é solidão palpável e os corações, 
pedras baratas que queimam nas esquinas

Quantos donos tem o mundo? 
A quem pertenço desde a noite do fim?
Quantos mundos tem o dono? 
Quem decidiu falar por mim?

Negociam meus presentes
Financiam as guerras
Erguem muros, explodem pontes
Brindam à meia-noite com sangue frio o suor ardente
Amanhecem mais ricos os donos do mundo _ mendigos de si
E não deixam sequer um girassol sobre o nosso caixão
porque girassóis valem mais que nossas almas.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Fios Brancos


Basta examinar com um pouco de atenção, lá estão eles:
cinco ou sete novos fios brancos
Com eles, ele tem cinco ou sete novos pensamentos de suicídio
É desgastante fingir felicidade,
Manter um contimento convincente, por vezes, contagiante
Toda vez em que ele se encerra no seu quarto escuro
a criança fica do lado de fora
implorando aos céus que nenhum assassinato 
seja consumado do lado de dentro
Ele não tem dela a admiração,
é humilhado por sua piedade, que o dilacera
Então respira o ar pesado da revolta, isso é tão cansativo
O sorriso forçado lhe dói a alma
Acordar é o maior dos sacrifícios
Encenar, o seu ofício
Sua oração diária é generosa: 
que toda vida que lhe resta seja doada a quem realmente a queira
Ele sempre dorme na esperança de se salvar
salvando a quem freme por viver
Mas acorda
Escorado na solidão, se levanta
Sua energia é a saudade
Seu alimento, a frustração
Desanimado, se encara no espelho
Repara na barba e nas suas más notícias
Seus olhos são tristes e cansados,
mesmo sendo ainda tão cedo
Percebe um novo fio branco, perto da fronte
e um novo desejo de morrer aflora
Não que ele não saiba envelhecer,
mas sabe que é deplorável não ter um dia de juventude feliz
para dar em troca por cada dia de velhice solitária que dele se aproxima.

domingo, 26 de abril de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (13/15)

“A maior expressão de angústia pode ser a depressão,
algo que você pressente, indefinível, 
mas não tente se matar, pelo menos, essa noite não.”
(Lobão)

Chego a sentir raiva ou pena, não sei definir, mas sinto algo forte e enjoativo quando alguém confessa que sente ou já sentiu inveja de mim. As aparências enganam, simples assim.

Em 2007 fui diagnosticada bipolar. É delicado falar nisso visto que o preconceito é grande, mas a ignorância acerca do assunto é maior ainda. É deplorável ouvir as pessoas falando que uma outra é estranha, esquisita, e logo, é bipolar, como se fosse tudo sinônimo. Como se alteração de humor fosse uma coisa específica da bipolaridade, como se os “normais” não tivessem seus dias de mau humor ou de mudanças de humor ou de opiniões. Outra ideia que o senso comum prega é que pessoas indecisas são bipolares. Ou que os bipolares são indecisos. Levam isso na base da piada, a internet está cheia delas. Já aconteceu sim, de eu ter uma festa para ir no final de semana e, na véspera eu ciclar, não querer ir. Fazer planos realmente é difícil porque não sei como estará meu humor no dia, mas isso é mesmo exclusividade dos bipolares? O resto do mundo tem sempre certeza do que quer, nunca volta atrás? Que felicidade a deles então, não?!

Hoje não tomo medicação alguma. Em 2007, no entanto, no auge da sentença que recebi, me submeti ao tratamento e cheguei a tomar quase 300 mg de remédios tarja preta por dia: ansiolítico, antidepressivo e estabilizador de humor. A verdade é que não me adaptei a eles e me senti muito (mais) estranha, como se minha cabeça estivesse sempre cheia d’água, como se eu vivesse em câmera lenta. Só tive os efeitos _ou defeitos_ colaterais e fiquei mais deprimida ainda. 

Na noite de 20 de dezembro de 2007, tive uma crise. A pior de todas. A depressão me deixa com raiva, com ódio porque eu não quero ficar deprimida daquele jeito e, por isso, já cheguei a me arranhar inteira. É horrível querer ficar bem e não conseguir, querer tratar bem e não conseguir. Depressão não é preguiça, que basta colocar uma roupa confortável, ouvir uma música animada e dar uma volta que melhora. Quem me dera depressão tivesse a ver com força de vontade, quem me dera!

Naquela noite, chovia torrencialmente. Liguei para todos os contatos da minha agenda, mas ninguém atendeu. Eu estava explodindo. Nenhuma palavra que eu diga agora pode expressar o que senti naquela madrugada, foi uma opressão singular. E uma saudade avassaladora. Eu ainda estava tentando me adaptar à ausência de alguém que vive em mim até hoje.

Como toda pessoa que pensa em suicídio, eu não queria morrer, queria acabar com a dor. Peguei todas as caixas dos meus malditos remédios e pensei estar decidida tomar todos de uma só vez. Àquela altura, eu já estava com os braços completamente feridos, meu corpo inteiro doía. Eu não conseguia falar com ninguém e tinha a sensação de que se eu fosse abraçada, me desmancharia. 

Ao mesmo tempo em que eu ouvia dentro de mim algo gritando pra eu tomar tudo logo e dar fim àquele sofrimento todo, uma pergunta se repetia: “quem vai segurar a mãozinha de Luísa para atravessar a rua? Quem vai segurar a sua mão para lhe ajudar a atravessar a vida?”

E foi o pensamento nela que me impediu de tomar um comprimido sequer. Guardei as caixas e dormi em sua cama, dormi de exaustão. Ela não estava em casa, não viu nada disso acontecer. Na manhã seguinte, correu a notícia de que o ator global Norton Nascimento havia morrido, com quarenta e cinco anos de idade, em decorrência de uma complicação cardíaca. Senti um frio na espinha. Assisti a diversos depoimentos de seus colegas lamentando muito e enfatizando a sua pouca idade para morrer. E eu, com vinte e seis anos, cheia de saúde, pensando em suicídio. Sempre que vejo o Norton na TV, me lembro dessa noite. Foi o mais perto que cheguei da morte, de maneira consciente.

Decidi abrir mão dos remédios, mas não aconselho ninguém a nada. Apenas estou falando da minha decisão para a minha própria vida. Decidi pagar alguns preços por isso e pago. Falar nesse assunto é delicado mesmo. Tenho manias estranhas, detesto telefone, detesto que venham à minha casa sem me avisar, detesto ter obrigações sociais. Em geral, não leio as mensagens que recebo na hora em que elas chegam (muitos sorriram agora, eu sei!), sejam in box no Facebook, sejam, torpedos ou whatsapp. Não gosto de me sentir coagida a fazer as coisas, mesmo que sejam coisas bobas, como abrir uma mensagem recebida. 

Resolvi abrir o jogo e tocar nesse assunto para que, talvez, ele seja tratado com menos leviandade e mais seriedade. Depressão não é frescura, seja unipolar, seja bipolar, depressão mata. Minha estabilidade hoje é mais viva, eu mergulhei em mim para me estudar e me conhecer, e posso dizer que me conheço bem. Sei que aborreço muita gente com meus isolamentos, mas realmente preciso hibernar na caverna, de vez em quando. Sei que atualmente o que me faz triste ainda tem a ver com saudade, mas não se pode mesmo ter tudo. Tenho também minhas dúvidas quanto ao diagnóstico recebido em 2007. Reconheço que tive uma depressão muito forte, mas hoje, me conhecendo como me conheço, não reconheço traços bipolares, mas enfim, não sou médica. Decidi com toda minha força não me medicar e vivo muito bem assim.

Carrego sentimentos e memórias apavorantes dentro de mim, mesmo que eu tenha um sorriso marcante e um insistente brilho nos olhos, não sou exatamente o que pareço ser. Sou um cartão-postal. Mostro a paisagem, mas tenho um verso amarelado, de palavras ilegíveis, com um selo de um lugar que ninguém sabe onde fica. Portanto, não sou digna da inveja de ninguém. 

Definitivamente não é uma atitude inteligente sentir inveja de mim.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Sonho ao Contrário


O poema é o sonho ao contrário, 
o brinde solitário do fracasso
É o eufemismo do pesadelo, 
a voz de palavras lindas de uma dor pungente
Parir poesias é uma aparente bênção, 
mas é um grande castigo dado a esses desgraçados, chamados “poetas”,
que caminham pela dor como o sangue corre pelas veias,
que sentem o amor como uma queimadura onde a anestesia não chega

O poema é o inconformismo em nadar raso pelas palavras, 
é o submarino da alma
É o sonho ao contrário, 
o pesadelo oferecido com fina beleza
É a desilusão traduzida, a saudade latente, 
a tristeza diluída, é a morte sorridente

Os poemas felizes têm seu encanto que, no entanto,
não sobrepuja o fascínio dos poemas que choram,
que sentem saudade, que morrem de vontade, 
que flertam com a morte, que ardem de sede

A dor do mundo vê o poeta e solenemente o reverencia
A tristeza precisa dele para ser traduzida em um poema
pois não quer ser lembrada como um pesadelo, 
mas como um sonho belamente triste que,
andando na contramão da felicidade, 
já não mais respira e ainda assim, vive.

domingo, 19 de abril de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (12/15)

“Há mais de mil destinos em cada esquina,
outras vidas esperando em cada esquina.”
( Humberto Gessinger)

A imprevisibilidade da vida é fascinante. Uma vez fiz planos de, depois do trabalho, ir a um armarinho para comprar uns metros de fita de seda para fazer uns artesanatos. Eu não imaginava que, no meio do expediente, teria uma crise horrenda dos rins e ficaria a partir dali, 03 dias internada no hospital. Assim é a vida. A gente não prevê o que pode acontecer, tampouco quem vai conhecer. E foi da maneira mais incrível que eu conheci a Natássya, minha amiga para a vida toda, que viria a ser a fotógrafa do meu primeiro livro, “Sem Filtro na Veia”.
Em Alegre, cidade vizinha de Cachoeiro, teria o Festival de Música, que acontece anualmente. Fui para a porta do hotel, em minha cidade, no intuito de tietar mais uma vez o Herbert Vianna, meu maior inspirador musical do Brasil. Acontece que o Calypso também estaria presente na mesma noite, e a cidade inteira estava em frente ao hotel, obstruindo o trânsito para ver a Joelma.
Eu já estava desanimando. A moça do meu lado, que também estava com a cara colada no vidro da porta do hotel, também. Ela queria ver o hermano Camelo. Acho que éramos as únicas que não estavam ali pela Joelma. Começamos a conversar alguma coisa, que não me lembro, descobrimos que éramos fãs da Maria Rita, que estaria no mesmo festival na noite seguinte.
Papo vai, papo vem, viramos amigas de infância em minutos. Até o segurança do hotel já era nosso brother e nos deu a dica de voltarmos na tarde seguinte para vermos a Maria Rita, já que, à noite, provavelmente, seria outro tumulto. Frustradas por não termos visto o Herbert Vianna, tampouco o Marcelo Camelo, combinamos de tentar chegar perto da Maria Rita no dia seguinte. 
Chegamos por volta das 13:30h, o segurança do hotel sorriu. Disse-nos que, pelo horário, ela logo já estaria de volta com a sua empresária. Dito e feito. Poucos minutos depois, estávamos diante de nossa musa, Maria Rita. E o melhor: sem nem um pentelho sequer nos apertando ou espremendo contra o vidro da porta do hotel.
Maria Rita foi linda conosco. Pousou para fotos, deu autógrafos para a “Ludmila com D mudo” e para a “Natássya com dois S e Y”. Nos despedimos, desejamos a ela sucesso. Não iríamos ao show. Maria Rita se surpreendeu e perguntou-nos por quê. O de sempre, grana. Não tínhamos. Maria Rita se afastou, conversou ao pé de ouvido com a sua empresária, que se aproximou de nós escrevendo num papelzinho e disse: “chega lá e entrega isso pro segurança.” Maria Rita sorriu, piscou o olho e foi pro elevador.
Não sei explicar os sentimentos daquele instante. Eu já estava realizada por ter conseguido trocar umas palavras com Maria Rita e, poucos minutos depois, tinha nas mãos uma carta branca para assistir ao seu show!
Ainda assim faltava-nos a grana para as passagens. Época difícil, dureza absoluta. O porteiro do hotel se solidarizou conosco e disse para chegarmos no fim da tarde que ele mesmo arranjaria um meio de transporte para nós. Horas mais tarde, sem a menor ideia do que nos esperava, chegamos lá, recém-conhecidas, Natássya e eu, com uma grande aventura para contar (e terminar de viver).
O segurança do hotel, não sei como, arranjou para a gente nada menos que a van do Rappa para nos levar. Fora o Falcão, estavam todos os integrantes da banda presentes na van. Natássya e eu fomos quase que mudas durante todo o percurso. Era informação demais, emoção demais para processar. Quando chegamos à exposição de Alegre, já desembarcamos na área vip, junto com o Rappa. O bilhetinho que a empresária da Maria Rita escreveu nos deu acesso ao palco, lugar que ficamos hipnotizadas, assistindo ao show da Maria Rita.
Quando acabou, fomos pra porta do camarim. Havia dezenas, talvez centenas de pessoas olhando fixamente para aquela porta fechada, esperando uma frestinha se abrir para, quem sabe, ver a poucos metros de si, a Maria Rita. Não demorou muito, a própria Maria Rita abriu a porta, logo nos viu atrás da grade e disse sorrindo:
-- Ludmila com D mudo e Natássya com dois S e Y, entra!
A multidão ficou perplexa, fitando a gente, que pediu licença ao segurança e adentrou o camarim. Lá dentro tiramos mais fotos, conversamos um pouquinho. Até levei uma foto da Luísa, minha filha, para mostrar pra ela. Estávamos nós 03 lá dentro, foi surreal.
Depois nos despedimos. Natássya e eu saímos pisando em nuvens.
Tenho até hoje as fotos e autógrafos da Maria Rita. E também a amizade da Natássya.

Valeu a pena, ê-ê!

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Barulhos Interiores


De dia as angústias da vida são menos aparentes
Com os bem-te-vis animados, 
motores dos carros roncando nas ruas,
Com a obra do edifício ao lado 
e os passos do vizinho do andar de cima. 
Eu os ouço.
Sinto que faço parte de tudo isso sem estar presente.
Nunca estou presente.
De olhos fechados, vou ao lugar mais bonito. 
Aumento meus barulhos interiores.
Agora sou uma menina, no colo de meu pai, que me beija os cabelos.
Sinto cheiro do assado de Natal, 
ouço a canção que mamãe canta para me ninar. 
Arrepio.
Numa lágrima, 
a realidade bruscamente desliga meus barulhos interiores, 
arranca-me de meus pais.
Adeus, meus amores, adeus.
É hora de colocar a máscara e sair.
Ora vou. 
Sorrindo. 
Sofrendo. 
Morrendo. 
Sorrindo. 
Vou.
De dia as angústias da vida são menos aparentes
Com os bem-te-vis animados, 
motores dos carros roncando nas ruas,
Com a obra do edifício ao lado 
e os passos do vizinho do andar de cima. 
Volto a ouvi-los.
Fecho a porta, solto os cabelos, 
agarro com todas as forças a máscara que me defende
e sorrio para o vizinho do andar de cima, que encontro no elevador.
Já na rua, ouço os bem-te-vis em festa, 
o ronco dos motores dos carros parece mais alto
O edifício ao lado está cada dia mais imponente 
_meu mundo, cada dia mais solitário.
Sinto que faço parte de tudo isso sem estar presente.
Nunca estou presente.
Mas eu suporto um pouco mais disso, ainda é dia
e é de dia que as angústias da vida são menos aparentes.

domingo, 12 de abril de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (11/15)


“Criar meu website, fazer minha homepage,
com quantos gigabytes se faz uma jangada,
um barco que veleje, que veleje nesse infomar.”

( Gilberto Gil)
Com o 1º lugar do concurso que contei no capítulo #9, experimentei pela segunda vez a sensação de ser procurada. Depois da funcionária pública da delegacia (capítulo #8), essa era novamente a experiência de ser procurada, mas dessa vez, a sensação era boa. O jornal da faculdade fez uma matéria divulgando minha conquista, dois jornais de Cachoeiro também. O telefone lá de casa tocou mais que o normal por uma semana, foi estranho, mas foi bom.

À essa altura, eu já assinava “Clio”. Não, esse não é meu sobrenome de batismo. Aconteceu que, na época da faculdade, eu precisava ter um e-mail para interagir com a turma e os professores. Criei “ludmilahist”@etal

Esta era a referência à minha graduação. Numa aula de História do Brasil, o professor leu a lista e me questionou o “hist”. 

-- Uai! “Hist” de História, sô!

E professor Marcos Balbino respondeu:

-- Ora, se você quer homenagear o curso de História, melhor seria que fosse “ludmilaclio”.

-- Clio??? Quê isso? Por quê?

Naquela época, “Clio”, para mim, era somente o nome de um carro. E ele respondeu:

-- Sim, Clio! Clio é a musa grega da História e da criatividade. Ela é famosa por divulgar e celebrar as realizações. Ela representa a eloquência, a fiadora entre os homens e as nações. “Clio” significa “proclamadora”. Ela é a grande deusa da História para os historiadores.

Eu fiquei pasma e completamente seduzida pelo nome e seu significado. Criei meu novo e-mail assim que pude. 

Estávamos vivendo a era do Orkut. Eu ficava incomodada de expor meu nome completo, sempre tive esse receio. Também não gostava de assumir o sobrenome só do meu pai ou só da minha mãe, sempre me sinto (até hoje) traindo um dos dois se o fizer. Não sei explicar, coisa de gente tan-tan.

Enfim, acabei tirando meus sobrenomes de batismo e coloquei lá no perfil “Ludmila Clio”. No início foi estranho, mas como tem de tudo na Internet, não houve muitos questionamentos. Com o passar do tempo, vez ou outra eu escrevia para os jornais ou revistas locais e, precisando de um pseudônimo, lancei mão de “Clio” e comecei a assinar assim. 

Hoje em dia recebo correspondências remetidas para “Ludmila Clio”. Muita gente pensa que é meu nome de batismo. Em 2012, quando lancei “Sem Filtro na Veia”, nem pensei em outro nome. “Clio” sou eu escritora, não tem volta. Eu tenho muito orgulho do meu nome de batismo, e acho ótimo poder deixá-los reservados, já que vivemos em um mundo invasivo, onde tudo é perigoso, onde quanto menos informações damos, melhor para nós mesmos. 

Já tinha um nome então, continuei escrevendo, mas sem a menor noção do que fazer, pra onde ir. Apenas, despejando sentimentos no papel. Anos mais tarde, em setembro de 2008, criei coragem para mostrar a cara e fiz meu blog, o Copo de Letras. Era uma cobrança gostosa, mas era uma cobrança. As pessoas que já tinha algum acesso ao que eu escrevia, me cobravam isso. Então depois de muito relutar, decidi criar meu blog, mas não fazia a menor ideia de que nome dar a ele.

E tanta, mas tanta gente me pergunta de onde surgiu “Copo de Letras”, que vou contar e imagino que muita gente ainda nem suspeite do que realmente aconteceu.

Completamente ansiosa para batizar meu blog e sem a menor inspiração para um nome digno, que soasse bonito, peguei meu pequeno dicionário Aurélio, fechei meus olhos, abri em uma página aleatória e apontei para uma palavra. Tudo de olhos fechados. Quando os abri para ler a palavra apontada pelo meu dedo indicador esquerdo, eis que era “copo-de-leite”, a flor. Sorri, achei bonitinho e imediatamente matutei algo semelhante, tão logo me veio à mente “Copo de Letras”. E assim nasceu o nome. Pura sorte, acaso, não sei. Só sei que não foi pura criatividade, precisei do santo Aurélio para tal batismo. Nessa aí Clio não me ajudou! E por falar em Clio, acho que Marcos Balbino, meu professor, não se lembra da tal lista de e-mails. Acredito que ele nem imagine que naquela noite ele estava me batizando com o nome que agora é meu, que irá comigo até o fim: Clio, a proclamadora.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Atração Solar


Quem me conhece sabe que eu sou fascinada por girassol. Além da beleza imponente, acho genial a sua relação com o Sol, essa coisa dele girar na direção do Sol. Gente, isso é lindo! 

E como eu sou uma pessoa extremamente solar, me identifico. Eu amo dias ensolarados, eu preciso de dias ensolarados. O Sol me faz bem, aquece minha alma, melhora meu humor. Então se eu tivesse que ser uma flor, decerto eu seria um girassol!

Hoje, fui ao supermercado comprar umas coisinhas que estavam faltando. Café, leite, banana, biscoito. Entrei na fila do caixa rápido, distraída com o celular. Quando dei por mim, a moça que estava à minha frente tinha um vaso de girassol na mão direita. Fiquei hipnotizada. Aquele amarelo real do girassol me impressionou. Aquele único e majestoso girassol, no centro do vaso.

Enquanto aguardávamos pelo atendimento, eu não tirava meus olhos daquele girassol. Coitado, tão ávido pelo Sol e enclausurado em um supermercado, cheio de luzes artificiais; confinado ao ar refrigerado, sem nunca conhecer a brisa fresca que paira sobre a terra farta, em algum lugar bonito e descampado por aí. 

No entanto, mesmo em adversidade, aquele girassol era magnífico. Silenciosa e discretamente magistral.

[...]

A vez da moça chegou, ela se aproximou do caixa.

O rapaz a saudou, tomou gentilmente o vaso da mão dela, rodopiou-o, procurando o código de barras que estava colado no fundo do vaso. Naturalmente, o girassol ficou virado para baixo, desconfortável, nas mãos de quem nada entendia de girassóis.

O rapaz aproximou o código de barras do leitor óptico, confirmou o preço do girassol à moça que, prontamente, o pagou. O rapaz colocou o vaso numa sacola, mas deixou o girassol para fora. Talvez para espiar alguma terrinha onde poderia ter nascido, crescido e imperado. Ou talvez para contemplar os últimos raios de Sol, que estava se pondo naquele momento, deixando o céu com a profusão incrível de rosas, lilases, laranjas e amarelos que poucos reparam.

Por um momento, tive pena do girassol que, com tamanho desdém era negociado, pago, comprado, adquirido. Tive pena do girassol por ser submetido à humilhação de passar por um leitor óptico. Tive pena do girassol por ter suas raízes sufocadas numa sacola plástica de propaganda. Tive pena do girassol que, apesar de carregar o próprio Sol no nome, jamais o vira antes.

[...]

Subitamente senti uma angústia avassaladora. O ar faltou, a ficha caiu: aquele girassol sou eu.

Deixa para Depois


Antes teve o leite, o mel, a ilusão, o erro certo
Ansiedade, resultado, sonhos, sangue, células, multiplicação
Nome, rosto, medo, plenitude, estrias, dores, a luz
Olhar de admiração, orgulho, dependência, emoção
Deixa o desprezo para depois

Antes vieram as palavrinhas, papinhas, lençóis, canções
Valores, cuidados, colos, remedinhos, beijinhos
Cumplicidade, parceria, amizade eterna, sacrifícios
Sensação de invencibilidade, união, noites perdidas
Deixa a estranheza para depois

Então explodiram os hormônios: novos amores, rebeldia,
outras certezas, tantas manias, desprezo, estranheza, volume nas alturas, insatisfação
Novidades, amizades indeléveis, risadas infinitas, sempre a ingratidão

Inacreditável. Teus olhos eram flechas inflamadas a cravar em mim
aquele olhar indolente, que silenciosamente me traía

Tudo ficou para depois do amadurecer, mas não pude esperar
Foi inevitável morrer, morri com teu olhar

Anelo que, ao menos minhas lembranças, não sejam por ti esquecidas
E se fores chorar agora, filha, agora já não precisa
Deixa a culpa para depois.

domingo, 5 de abril de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (10/15)

Nossa, se me perguntarem hoje qual é o meu programa de TV preferido, nem pestanejo. CATFISH!! Não perco um, nem mesmo os episódios repetidos. E sinceramente, percebo que, mais uma vez a minha experiência foi diferenciada.

Romance de internet é uma coisa em que eu não acreditava, até que aconteceu comigo.

“Não conheço o que existe entre o 8 e o 80.”
( Pitty)
Meu namoro estava no fim. Um dia resolvi entrar num chat, só para matar a curiosidade e o tempo, mas eu conheci um cara que entrou para a minha história. Ele morava em Taubaté, SP. Terminei meu namoro real e mergulhei no namoro virtual.

Naquela época, ligação de celular era caríssima e era mais negócio usar o orelhão. Nos falávamos todos os dias, religiosamente, quando eu voltava da faculdade. Gastei mais de cem cartões ao longo do nosso romance. Tentei todas as estratégias para aumentar a durabilidade deles, mas acho que essas simpatias da internet não passam de lenda, pelo menos comigo, nenhuma funcionou. Juntei todos os cartões e os lacei com uma fita vermelha, seria um presente simbólico. Todas as nossas conversas apaixonadas estavam ali, em cada um daqueles 182 cartões telefônicos. Ele me chamava de Luz. Eu o chamava de Sol. Só nos tratávamos assim.

 Já tínhamos um nome para nossa filha, que teríamos anos mais tarde: Maria Eduarda. Talvez moraríamos um tempo na Itália, onde ele tinha parentes. Tínhamos planos. Vários. Foi através dele que conheci e me apaixonei pelo Pearl Jam. “Black” tornou-se nosso hino. Que ironia! Uma música triste, das mais tristes do mundo, de uma letra de fazer qualquer um explodir de chorar, era a nossa música. Eu a ouvia centenas de vezes, ardia de saudade e sorria. Mas quem ama escutando “Black” corre riscos. Eu corria. “Black” era o prenúncio de tudo o que eu estava por viver.

Havia uma ex-namorada na história, sempre tem. Ela leu depoimentos nossos no Orkut e, mesmo sem chance de dar certo de novo, por pura picardia, ela resolveu ressurgir do além para minar os nossos sonhos. E conseguiu. Às vésperas do nosso encontro tão sonhado, ele me deu a notícia de que não resistiu aos apelos da ex. Foram dias terríveis. Era final de ano, passaríamos juntos minha formatura, o Natal e o réveillon, mas não nos encontramos. Ele passou todas as festas com ela. Eu, com a dor dilacerante de imaginar os dois nas festas de família, juntos. Eu nunca acreditei mesmo em romances virtuais, mas é verdade, eu amei e amei muito esse cara. Foi tudo muito real, apesar da distância. Trocávamos cartas, e-mails, presentes. Nos víamos todos os sábados pela web cam, havia fotos minhas pelo seu quarto. Eu já conhecia seus parentes mais próximos, tinha números de telefones das tias, das irmãs. Todos me aguardavam ansiosos, todos não iam com a cara da ex, que fez grandes estragos por ali.

Depois que passaram vários meses e toda a ferida já estava cicatrizando, ele também resolveu ressurgiu do além. É impressionante como não se pode deixar pendências ao longo do caminho. Histórias mal resolvidas não são histórias, são esboços de si mesmas. Porque elas voltam para, enfim, tornarem-se histórias, completas, sem “se”, sem “talvez”. Nada é mais dolorido que a dúvida do talvez. Pagar pra ver é o ideal. Custa caro, mas vale a pena. Daí ou a gente tira o maldito da cabeça logo e desencana, ou abraça de vez. Mas sim, é preciso viver todas as possibilidades da vida, mesmo as mais insanas.

Não posso jamais dizer que sou daquelas que ignoram os chamados da vida, não. A vida diz: “tem coragem?” E eu me jogo. Poucas pessoas que conheço são assim. A maioria precisa fazer cálculos, medir os riscos. Há quem chame isso de prudência, e talvez seja. Mas a dose exagerada de prudência não é a covardia?

Relacionamentos não passam de precipícios. A gente tem que se jogar, sem medo de se esborrachar lá embaixo. Triste é quando você olha pro lado e se vê sozinho. Olha pra cima e vê quem deveria estar do teu lado, caindo lentamente, de paraquedas, enquanto você está em franca queda livre. É o que mais acontece. Coragem assusta quando não vem da gente. Mas o mais digno numa situação dessa é, depois da queda, voltar a subir o precipício, mesmo que lentamente. Curando as feridas, tratando dos machucados e, quando se sentir forte o bastante, se jogar novamente. Sem protetor algum. É o que eu sempre faço. Não vejo o mínimo sentido no medo.

Nas vésperas da Copa de 2006, numa madrugada, o cara de Taubaté ressuscitou e me ligou. Era madrugada, já havia 06 chamadas perdidas. Eu não acreditei quando li “Sol” no visor do celular. Eu já estava meio curada, não totalmente, e foi uma verdadeira surpresa ele ter reaparecido. Na verdade, isso aconteceu (e acontece ainda) com certa frequência na minha vida: os anacronismos. Quase sempre foi e é assim. Queremos as mesmas coisas, em momentos diferentes. 

Mas enfim, ele reapareceu. Depositou o dinheiro das passagens e eu encarei treze horas de estrada para passar dezesseis dias em sua casa, que foram incríveis!

Depois disso nunca mais nos vimos, mas nos falamos ainda, até hoje. Voltei para Cachoeiro disposta a jogar tudo para o alto, mas obviamente a coragem dele não era o bastante para isso. Quem se responsabilizaria por uma mudança de vida tão brusca, caso a gente não desse certo? 

Anos depois ele foi ao ES para fazer uma prova e me procurou, mas eu estava namorando e não fui encontrá-lo. (Deveria ter ido. Uma semana depois, meu namoro terminou.)

Mas enfim, eu sou assim. Não faço cálculos, não prevejo riscos. E isso faz de mim uma louca que assusta os “sãos”, comedidos e previsíveis. Essa gente certinha, de quem eu tenho pena e pavor, e que nunca tem uma boa história de vida pra contar. Hoje, quando assisto Catfish, eu vejo que realmente fui diferenciada. Talvez não seria mesmo de outra maneira comigo, já que me disponho sempre a viver tudo o que não é convencional.

Outro lado bom disso tudo é que a dor dessa história me rendeu algumas poesias.   

                                                              
O SOL SEM LUZ

Deus quis me dar você,
mas você não quis se dar para mim.
Agora
sou como um demônio encarnado em sua alma,
sem deixar seu pensamento em paz.
E eu tive que trancar o Sol
numa gaveta em que eu não mexo mais.
Um pouco do seu medo tinha que estar em mim,
minha coragem assustou você.
Hoje eu olho para o céu
O Sol continua lá
e o meu Sol ainda brilha, numa gaveta escura.
Do seu amor, tornei-me sua dor.
Ainda sou sua Luz
e sem mim você fica nublado;
ainda sou sua Luz
e sem mim você perde para as nuvens.
Você não me exorciza
e mesmo sem saber eu continuo em sua vida...
...e Deus até que quis me dar você
Mas você teve medo de se dar para mim.

Hoje sou capaz de ouvir “Black” quantas vezes eu quiser. A música continua linda! Claro que me lembra ele, mas me lembra sem machucar. E apesar de toda dor, eu viveria tudo de novo, sem pensar!


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Avidando vou vivendo


Avidando vou vivendo...
Avidar: verbo que não mata, mas esmaece a vida
Sua primeira letra é uma porta fechada anunciando o não,
como o amoral, o atípico, o anormal
Avidar quase se encaixa no avivar, mas o V da vida o ignora
É a contra-mão do sentido de viver, é o quase morrer
É o existir _meramente existir_ na mediocridade do quase viver
Verbo que não se conjuga com vontade, mas escorrega ladeira abaixo

Avidando vou vivendo... Mas oras! Avidando não se vive!
Sou avida: um acento me salvaria, atiraria minha não-vida nos braços da avidez
Ou um breve espaço me transformaria, e eu seria o artigo definido da vida
Mas não há acento, não há espaço, nada que me salve ou me transforme
Então não me sento, não danço, não pronuncio, não descanso
E por aí sigo avidando, sem flutuar e sem tocar o fundo

Avidando vou vivendo...
No avesso da vida, na lentidão da contra-mão
Contando as horas num conta-gotas, numa ampulheta vazia
Criando verbos sem vida, verbos sem tradução
Conjugações de mim mesma, sem segunda ou terceira pessoa,
verbos que definem solidão.