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quinta-feira, 9 de abril de 2015

Atração Solar


Quem me conhece sabe que eu sou fascinada por girassol. Além da beleza imponente, acho genial a sua relação com o Sol, essa coisa dele girar na direção do Sol. Gente, isso é lindo! 

E como eu sou uma pessoa extremamente solar, me identifico. Eu amo dias ensolarados, eu preciso de dias ensolarados. O Sol me faz bem, aquece minha alma, melhora meu humor. Então se eu tivesse que ser uma flor, decerto eu seria um girassol!

Hoje, fui ao supermercado comprar umas coisinhas que estavam faltando. Café, leite, banana, biscoito. Entrei na fila do caixa rápido, distraída com o celular. Quando dei por mim, a moça que estava à minha frente tinha um vaso de girassol na mão direita. Fiquei hipnotizada. Aquele amarelo real do girassol me impressionou. Aquele único e majestoso girassol, no centro do vaso.

Enquanto aguardávamos pelo atendimento, eu não tirava meus olhos daquele girassol. Coitado, tão ávido pelo Sol e enclausurado em um supermercado, cheio de luzes artificiais; confinado ao ar refrigerado, sem nunca conhecer a brisa fresca que paira sobre a terra farta, em algum lugar bonito e descampado por aí. 

No entanto, mesmo em adversidade, aquele girassol era magnífico. Silenciosa e discretamente magistral.

[...]

A vez da moça chegou, ela se aproximou do caixa.

O rapaz a saudou, tomou gentilmente o vaso da mão dela, rodopiou-o, procurando o código de barras que estava colado no fundo do vaso. Naturalmente, o girassol ficou virado para baixo, desconfortável, nas mãos de quem nada entendia de girassóis.

O rapaz aproximou o código de barras do leitor óptico, confirmou o preço do girassol à moça que, prontamente, o pagou. O rapaz colocou o vaso numa sacola, mas deixou o girassol para fora. Talvez para espiar alguma terrinha onde poderia ter nascido, crescido e imperado. Ou talvez para contemplar os últimos raios de Sol, que estava se pondo naquele momento, deixando o céu com a profusão incrível de rosas, lilases, laranjas e amarelos que poucos reparam.

Por um momento, tive pena do girassol que, com tamanho desdém era negociado, pago, comprado, adquirido. Tive pena do girassol por ser submetido à humilhação de passar por um leitor óptico. Tive pena do girassol por ter suas raízes sufocadas numa sacola plástica de propaganda. Tive pena do girassol que, apesar de carregar o próprio Sol no nome, jamais o vira antes.

[...]

Subitamente senti uma angústia avassaladora. O ar faltou, a ficha caiu: aquele girassol sou eu.

4 comentários:

Aroeira disse...

rsrsrs muito bom. Quintana tb gostava de girassóis.

EU FIZ UM POEMA

Eu fiz um poema
e alto
como um girassol de Van Gogh
como um copo de chope sobre o mármore
de um bar
que um raio de sol atravessa
eu fiz um poema belo como um vitral
claro como um adro...

Agora
não sei que chuva o escorreu
suas palavras estão apagadas
alheias uma à outra como as palavras de um
dicionário
eu sou como um arqueólogo decifrando as cinzas de
de uma cidade morta.
O vulto de um velho arqueólogo curvado sobre a
terra...

Em que estrela, amor, o teu riso estará cantando?




E como dizia o bruxo Quintana, o que seria do amarelo se não fosse Van Gogh?

Abs.

Ludmila Clio disse...

Meu Deus, que lindeza!!! Amo as sutilezas do Quintana e a loucura extremada de Van Gogh!!! Obrigada por me brindar logo pela manhã com essa maravilha!!!

Aroeira disse...

Quintana, Van Gogh e girassóis transformam nossas manhãs em copo de letras.

Ludmila Clio disse...

Não me sinto à altura deles! Obrigada!