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quinta-feira, 16 de abril de 2015

Barulhos Interiores


De dia as angústias da vida são menos aparentes
Com os bem-te-vis animados, 
motores dos carros roncando nas ruas,
Com a obra do edifício ao lado 
e os passos do vizinho do andar de cima. 
Eu os ouço.
Sinto que faço parte de tudo isso sem estar presente.
Nunca estou presente.
De olhos fechados, vou ao lugar mais bonito. 
Aumento meus barulhos interiores.
Agora sou uma menina, no colo de meu pai, que me beija os cabelos.
Sinto cheiro do assado de Natal, 
ouço a canção que mamãe canta para me ninar. 
Arrepio.
Numa lágrima, 
a realidade bruscamente desliga meus barulhos interiores, 
arranca-me de meus pais.
Adeus, meus amores, adeus.
É hora de colocar a máscara e sair.
Ora vou. 
Sorrindo. 
Sofrendo. 
Morrendo. 
Sorrindo. 
Vou.
De dia as angústias da vida são menos aparentes
Com os bem-te-vis animados, 
motores dos carros roncando nas ruas,
Com a obra do edifício ao lado 
e os passos do vizinho do andar de cima. 
Volto a ouvi-los.
Fecho a porta, solto os cabelos, 
agarro com todas as forças a máscara que me defende
e sorrio para o vizinho do andar de cima, que encontro no elevador.
Já na rua, ouço os bem-te-vis em festa, 
o ronco dos motores dos carros parece mais alto
O edifício ao lado está cada dia mais imponente 
_meu mundo, cada dia mais solitário.
Sinto que faço parte de tudo isso sem estar presente.
Nunca estou presente.
Mas eu suporto um pouco mais disso, ainda é dia
e é de dia que as angústias da vida são menos aparentes.

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