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domingo, 5 de abril de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (10/15)

Nossa, se me perguntarem hoje qual é o meu programa de TV preferido, nem pestanejo. CATFISH!! Não perco um, nem mesmo os episódios repetidos. E sinceramente, percebo que, mais uma vez a minha experiência foi diferenciada.

Romance de internet é uma coisa em que eu não acreditava, até que aconteceu comigo.

“Não conheço o que existe entre o 8 e o 80.”
( Pitty)
Meu namoro estava no fim. Um dia resolvi entrar num chat, só para matar a curiosidade e o tempo, mas eu conheci um cara que entrou para a minha história. Ele morava em Taubaté, SP. Terminei meu namoro real e mergulhei no namoro virtual.

Naquela época, ligação de celular era caríssima e era mais negócio usar o orelhão. Nos falávamos todos os dias, religiosamente, quando eu voltava da faculdade. Gastei mais de cem cartões ao longo do nosso romance. Tentei todas as estratégias para aumentar a durabilidade deles, mas acho que essas simpatias da internet não passam de lenda, pelo menos comigo, nenhuma funcionou. Juntei todos os cartões e os lacei com uma fita vermelha, seria um presente simbólico. Todas as nossas conversas apaixonadas estavam ali, em cada um daqueles 182 cartões telefônicos. Ele me chamava de Luz. Eu o chamava de Sol. Só nos tratávamos assim.

 Já tínhamos um nome para nossa filha, que teríamos anos mais tarde: Maria Eduarda. Talvez moraríamos um tempo na Itália, onde ele tinha parentes. Tínhamos planos. Vários. Foi através dele que conheci e me apaixonei pelo Pearl Jam. “Black” tornou-se nosso hino. Que ironia! Uma música triste, das mais tristes do mundo, de uma letra de fazer qualquer um explodir de chorar, era a nossa música. Eu a ouvia centenas de vezes, ardia de saudade e sorria. Mas quem ama escutando “Black” corre riscos. Eu corria. “Black” era o prenúncio de tudo o que eu estava por viver.

Havia uma ex-namorada na história, sempre tem. Ela leu depoimentos nossos no Orkut e, mesmo sem chance de dar certo de novo, por pura picardia, ela resolveu ressurgir do além para minar os nossos sonhos. E conseguiu. Às vésperas do nosso encontro tão sonhado, ele me deu a notícia de que não resistiu aos apelos da ex. Foram dias terríveis. Era final de ano, passaríamos juntos minha formatura, o Natal e o réveillon, mas não nos encontramos. Ele passou todas as festas com ela. Eu, com a dor dilacerante de imaginar os dois nas festas de família, juntos. Eu nunca acreditei mesmo em romances virtuais, mas é verdade, eu amei e amei muito esse cara. Foi tudo muito real, apesar da distância. Trocávamos cartas, e-mails, presentes. Nos víamos todos os sábados pela web cam, havia fotos minhas pelo seu quarto. Eu já conhecia seus parentes mais próximos, tinha números de telefones das tias, das irmãs. Todos me aguardavam ansiosos, todos não iam com a cara da ex, que fez grandes estragos por ali.

Depois que passaram vários meses e toda a ferida já estava cicatrizando, ele também resolveu ressurgiu do além. É impressionante como não se pode deixar pendências ao longo do caminho. Histórias mal resolvidas não são histórias, são esboços de si mesmas. Porque elas voltam para, enfim, tornarem-se histórias, completas, sem “se”, sem “talvez”. Nada é mais dolorido que a dúvida do talvez. Pagar pra ver é o ideal. Custa caro, mas vale a pena. Daí ou a gente tira o maldito da cabeça logo e desencana, ou abraça de vez. Mas sim, é preciso viver todas as possibilidades da vida, mesmo as mais insanas.

Não posso jamais dizer que sou daquelas que ignoram os chamados da vida, não. A vida diz: “tem coragem?” E eu me jogo. Poucas pessoas que conheço são assim. A maioria precisa fazer cálculos, medir os riscos. Há quem chame isso de prudência, e talvez seja. Mas a dose exagerada de prudência não é a covardia?

Relacionamentos não passam de precipícios. A gente tem que se jogar, sem medo de se esborrachar lá embaixo. Triste é quando você olha pro lado e se vê sozinho. Olha pra cima e vê quem deveria estar do teu lado, caindo lentamente, de paraquedas, enquanto você está em franca queda livre. É o que mais acontece. Coragem assusta quando não vem da gente. Mas o mais digno numa situação dessa é, depois da queda, voltar a subir o precipício, mesmo que lentamente. Curando as feridas, tratando dos machucados e, quando se sentir forte o bastante, se jogar novamente. Sem protetor algum. É o que eu sempre faço. Não vejo o mínimo sentido no medo.

Nas vésperas da Copa de 2006, numa madrugada, o cara de Taubaté ressuscitou e me ligou. Era madrugada, já havia 06 chamadas perdidas. Eu não acreditei quando li “Sol” no visor do celular. Eu já estava meio curada, não totalmente, e foi uma verdadeira surpresa ele ter reaparecido. Na verdade, isso aconteceu (e acontece ainda) com certa frequência na minha vida: os anacronismos. Quase sempre foi e é assim. Queremos as mesmas coisas, em momentos diferentes. 

Mas enfim, ele reapareceu. Depositou o dinheiro das passagens e eu encarei treze horas de estrada para passar dezesseis dias em sua casa, que foram incríveis!

Depois disso nunca mais nos vimos, mas nos falamos ainda, até hoje. Voltei para Cachoeiro disposta a jogar tudo para o alto, mas obviamente a coragem dele não era o bastante para isso. Quem se responsabilizaria por uma mudança de vida tão brusca, caso a gente não desse certo? 

Anos depois ele foi ao ES para fazer uma prova e me procurou, mas eu estava namorando e não fui encontrá-lo. (Deveria ter ido. Uma semana depois, meu namoro terminou.)

Mas enfim, eu sou assim. Não faço cálculos, não prevejo riscos. E isso faz de mim uma louca que assusta os “sãos”, comedidos e previsíveis. Essa gente certinha, de quem eu tenho pena e pavor, e que nunca tem uma boa história de vida pra contar. Hoje, quando assisto Catfish, eu vejo que realmente fui diferenciada. Talvez não seria mesmo de outra maneira comigo, já que me disponho sempre a viver tudo o que não é convencional.

Outro lado bom disso tudo é que a dor dessa história me rendeu algumas poesias.   

                                                              
O SOL SEM LUZ

Deus quis me dar você,
mas você não quis se dar para mim.
Agora
sou como um demônio encarnado em sua alma,
sem deixar seu pensamento em paz.
E eu tive que trancar o Sol
numa gaveta em que eu não mexo mais.
Um pouco do seu medo tinha que estar em mim,
minha coragem assustou você.
Hoje eu olho para o céu
O Sol continua lá
e o meu Sol ainda brilha, numa gaveta escura.
Do seu amor, tornei-me sua dor.
Ainda sou sua Luz
e sem mim você fica nublado;
ainda sou sua Luz
e sem mim você perde para as nuvens.
Você não me exorciza
e mesmo sem saber eu continuo em sua vida...
...e Deus até que quis me dar você
Mas você teve medo de se dar para mim.

Hoje sou capaz de ouvir “Black” quantas vezes eu quiser. A música continua linda! Claro que me lembra ele, mas me lembra sem machucar. E apesar de toda dor, eu viveria tudo de novo, sem pensar!


2 comentários:

Djane Assunção disse...

De todos os textos que já li (incluindo teu livro) depois que passei a te seguir esse texto é sem dúvidas o que mais me tocou. Caramba lendo isso agora veio um turbilhão de memórias. Tive um caso que gerou os mesmo sentimentos que o seu (ainda gera) :( mas eu sou do tipo mais "Certinho" e minha música foi "Você me faz tão bem" do Detonautas Roque Clube. Me emocionei d everdade aqui. Abraços Luh.

Ludmila Clio disse...

Sério, Djane??!!!!! Nossa, as reações realmente sempre são surpreendentes!!! Viu?? Marilyn Monroe que estava certa ao dizer que "mulheres comportadas raramente fazem história", haha!! Beijos, querido!!!