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domingo, 26 de abril de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (13/15)

“A maior expressão de angústia pode ser a depressão,
algo que você pressente, indefinível, 
mas não tente se matar, pelo menos, essa noite não.”
(Lobão)

Chego a sentir raiva ou pena, não sei definir, mas sinto algo forte e enjoativo quando alguém confessa que sente ou já sentiu inveja de mim. As aparências enganam, simples assim.

Em 2007 fui diagnosticada bipolar. É delicado falar nisso visto que o preconceito é grande, mas a ignorância acerca do assunto é maior ainda. É deplorável ouvir as pessoas falando que uma outra é estranha, esquisita, e logo, é bipolar, como se fosse tudo sinônimo. Como se alteração de humor fosse uma coisa específica da bipolaridade, como se os “normais” não tivessem seus dias de mau humor ou de mudanças de humor ou de opiniões. Outra ideia que o senso comum prega é que pessoas indecisas são bipolares. Ou que os bipolares são indecisos. Levam isso na base da piada, a internet está cheia delas. Já aconteceu sim, de eu ter uma festa para ir no final de semana e, na véspera eu ciclar, não querer ir. Fazer planos realmente é difícil porque não sei como estará meu humor no dia, mas isso é mesmo exclusividade dos bipolares? O resto do mundo tem sempre certeza do que quer, nunca volta atrás? Que felicidade a deles então, não?!

Hoje não tomo medicação alguma. Em 2007, no entanto, no auge da sentença que recebi, me submeti ao tratamento e cheguei a tomar quase 300 mg de remédios tarja preta por dia: ansiolítico, antidepressivo e estabilizador de humor. A verdade é que não me adaptei a eles e me senti muito (mais) estranha, como se minha cabeça estivesse sempre cheia d’água, como se eu vivesse em câmera lenta. Só tive os efeitos _ou defeitos_ colaterais e fiquei mais deprimida ainda. 

Na noite de 20 de dezembro de 2007, tive uma crise. A pior de todas. A depressão me deixa com raiva, com ódio porque eu não quero ficar deprimida daquele jeito e, por isso, já cheguei a me arranhar inteira. É horrível querer ficar bem e não conseguir, querer tratar bem e não conseguir. Depressão não é preguiça, que basta colocar uma roupa confortável, ouvir uma música animada e dar uma volta que melhora. Quem me dera depressão tivesse a ver com força de vontade, quem me dera!

Naquela noite, chovia torrencialmente. Liguei para todos os contatos da minha agenda, mas ninguém atendeu. Eu estava explodindo. Nenhuma palavra que eu diga agora pode expressar o que senti naquela madrugada, foi uma opressão singular. E uma saudade avassaladora. Eu ainda estava tentando me adaptar à ausência de alguém que vive em mim até hoje.

Como toda pessoa que pensa em suicídio, eu não queria morrer, queria acabar com a dor. Peguei todas as caixas dos meus malditos remédios e pensei estar decidida tomar todos de uma só vez. Àquela altura, eu já estava com os braços completamente feridos, meu corpo inteiro doía. Eu não conseguia falar com ninguém e tinha a sensação de que se eu fosse abraçada, me desmancharia. 

Ao mesmo tempo em que eu ouvia dentro de mim algo gritando pra eu tomar tudo logo e dar fim àquele sofrimento todo, uma pergunta se repetia: “quem vai segurar a mãozinha de Luísa para atravessar a rua? Quem vai segurar a sua mão para lhe ajudar a atravessar a vida?”

E foi o pensamento nela que me impediu de tomar um comprimido sequer. Guardei as caixas e dormi em sua cama, dormi de exaustão. Ela não estava em casa, não viu nada disso acontecer. Na manhã seguinte, correu a notícia de que o ator global Norton Nascimento havia morrido, com quarenta e cinco anos de idade, em decorrência de uma complicação cardíaca. Senti um frio na espinha. Assisti a diversos depoimentos de seus colegas lamentando muito e enfatizando a sua pouca idade para morrer. E eu, com vinte e seis anos, cheia de saúde, pensando em suicídio. Sempre que vejo o Norton na TV, me lembro dessa noite. Foi o mais perto que cheguei da morte, de maneira consciente.

Decidi abrir mão dos remédios, mas não aconselho ninguém a nada. Apenas estou falando da minha decisão para a minha própria vida. Decidi pagar alguns preços por isso e pago. Falar nesse assunto é delicado mesmo. Tenho manias estranhas, detesto telefone, detesto que venham à minha casa sem me avisar, detesto ter obrigações sociais. Em geral, não leio as mensagens que recebo na hora em que elas chegam (muitos sorriram agora, eu sei!), sejam in box no Facebook, sejam, torpedos ou whatsapp. Não gosto de me sentir coagida a fazer as coisas, mesmo que sejam coisas bobas, como abrir uma mensagem recebida. 

Resolvi abrir o jogo e tocar nesse assunto para que, talvez, ele seja tratado com menos leviandade e mais seriedade. Depressão não é frescura, seja unipolar, seja bipolar, depressão mata. Minha estabilidade hoje é mais viva, eu mergulhei em mim para me estudar e me conhecer, e posso dizer que me conheço bem. Sei que aborreço muita gente com meus isolamentos, mas realmente preciso hibernar na caverna, de vez em quando. Sei que atualmente o que me faz triste ainda tem a ver com saudade, mas não se pode mesmo ter tudo. Tenho também minhas dúvidas quanto ao diagnóstico recebido em 2007. Reconheço que tive uma depressão muito forte, mas hoje, me conhecendo como me conheço, não reconheço traços bipolares, mas enfim, não sou médica. Decidi com toda minha força não me medicar e vivo muito bem assim.

Carrego sentimentos e memórias apavorantes dentro de mim, mesmo que eu tenha um sorriso marcante e um insistente brilho nos olhos, não sou exatamente o que pareço ser. Sou um cartão-postal. Mostro a paisagem, mas tenho um verso amarelado, de palavras ilegíveis, com um selo de um lugar que ninguém sabe onde fica. Portanto, não sou digna da inveja de ninguém. 

Definitivamente não é uma atitude inteligente sentir inveja de mim.

2 comentários:

Silvana Borges disse...

Querida Ludmila, minha admiração sempre pela sua força e energia! Beijim

Anônimo disse...

E triste este dasabafo quando ha sempre um pai e uma MÃE.....