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domingo, 3 de maio de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (14/15)

“Você não sabe o quanto eu caminhei
pra chegar até aqui.
(Cidade Negra)
Eu já me envolvi com quem não deveria. Eu já me apaixonei por um homossexual. Eu já beijei uma mulher. Eu já fui assediada durante meses por um patrão que tinha idade para ser meu bisavô. Eu já fui pra igreja só pra aproveitar seu lanche oferecido antes do culto porque não tinha nada em casa para comer.  Eu já experimentei maconha três vezes e não senti nada. Eu já tentei fumar cigarro de bali, mas realmente não gosto de cigarros. Eu já menti na faculdade insistindo em dizer que entreguei um trabalho que nunca fiz. Eu já fingi estar doente só pra não ir trabalhar.

Eu já fiz tanta coisa, eu já vi tanta coisa das quais não tenho orgulho algum ou que simplesmente não me acrescentaram muita coisa. Mas todas elas são os meus retalhos, os meus capítulos, os elementos que resultaram no que sou hoje.

Apesar de ter me decepcionado com a minha igreja, nunca perdi o temor a Deus, mesmo tendo cometido tantas bobagens. Anos depois, firmei em uma nova igreja, onde assumi a liderança de jovens e estava trabalhando de corpo e alma com eles, na música, no teatro, nos eventos, sempre buscando a excelência para Deus. Em 2013, depois de um teste de seleção, fui chamada para ingressar numa companhia de teatro cristão, no interior de São Paulo. Certa de que estava direcionada por Deus, deixei minha filha em Minas, com nossa família e fui.

Durou apenas 46 dias, não deu certo por vários fatores que não merecem ser mencionados. Fui, então, para a casa de uma amiga, em Hortolândia, a Carol. Carol é um anjo de Deus na minha vida. Cheguei lá com 03 malas e uma sacola de sapatos. Era tudo o que eu tinha. Passei pouco mais de 02 meses na casa dela. Sem um real. Ela me dava dinheiro para o ônibus, pra eu procurar emprego e tal. Busquei Luísa e decidimos recomeçar. Aliás, não tínhamos opção.

Precisamos sair da casa da Carol. Luísa e eu fomos acolhidas em uma associação católica de Campinas, que cuida de ex-usuários de drogas e portadores de HIV. Morávamos na casa administrativa, com a governanta. Éramos nós três na casa. Em troca de comida e um teto, Luísa e eu éramos literalmente obrigadas a assistirmos três missas, diariamente. Trabalhávamos na associação, às vezes a jornada durava das 08:00h às 23:00h. Luísa sem escola, a ponto de perder o ano letivo. Não conhecíamos ninguém em Campinas e quem dizia poder nos ajudar, nada fazia por nós.

Por fim me revoltei. Parei de ir à missa da manhã. Ouvi barbaridades da liderança da associação. Todos se sentiam confrontados, do lado de lá e do lado de cá. Depois de uma discussão monstruosa com um deles, eu chorei loucamente, decidi voltar para Cachoeiro. Estava disposta a pedir dinheiro emprestado. Luísa me pediu calma. Disse para esperar passar o dia seguinte e, se nada acontecesse, voltaríamos.

Na manhã seguinte fui chorando para a missa. Me senti obrigada, sem opção. E Deus agiu. Em 20 anos de associação aquela foi a primeira vez que não teve a missa matinal. O preletor se sentiu exausto e não foi.

À tarde recebi uma ligação da Livraria Cultura, onde havia deixado currículo. Me convidaram a iniciar o processo seletivo. Parecia uma resposta clara de Deus, não?

Uma moça que conheci na associação arrumou uma escola para a Luísa, já era setembro. E a quarta escola do ano que ela estudava.

Na semana seguinte comecei a trabalhar. Apesar dos mais de 10 veículos da associação e de seus motoristas, ninguém levava Luísa para a escola, estavam chateados conosco. Foi aí que ela teve que aprender na marra a andar sozinha em Campinas. E aprendeu.

Os primeiros 04 domingos na Livraria eram minhas folgas, devido à escala do shopping. Como éramos terminantemente proibidas de ir à nossa igreja enquanto estivéssemos lá, nos meus 04 domingos de folga eu saía cedo com a Luísa dizendo que teria evento para as crianças na Livraria, ia pra outro shopping com ela, passávamos o dia lá, quase sem dinheiro e à noite, íamos para a igreja. Chegávamos no mesmo horário, no caso de eu estar mesmo trabalhando.

Por fim, nem xixi eu fazia mais na casa, porque quando eu chegava do trabalho, chegava na ponta do pé, no escuro e ia direto pro meu quarto. A governanta implicava demais comigo e o nosso banheiro ficava entre nossos quartos. Eu tinha papel higiênico e sacolas plásticas dentro do quarto. Fazia xixi na sacola e no dia seguinte, quando a governanta não estava, jogava fora e tomava o banho do dia.
A Luísa continuou explorada lá. Eu entrava no trabalho às 13:40h e, de manhã, tinha que ir à missa e trabalhar na associação até ao meio-dia. Ainda assim, ninguém levava Luísa para a escola. Quando ela voltava da escola, tinha que ir pra associação e trabalhar até às 22h. Eu chegava do shopping por volta das 23:30h.

Até que desabafei com minha mãe e ela, lá de Portugal, começou a pesquisar apartamentos aqui para a gente. E conseguiu. Em 02 de novembro de 2013, Luísa e eu nos mudamos. Pra variar, foi a Carol quem nos buscou da prisão e nos levou para o apartamento. Ela nos emprestou um saco de dormir e um colchão de solteiro. Além disso, só havia paredes dentro do apartamento. E os guarda-roupas, que já havia nele.

Começamos do zero, sem ter sequer um copo, uma colher.

Mas Deus nos sustentou.

Para começar, um vizinho quis alugar nossa garagem e quis pagar um ano inteiro adiantado. Combinamos 100 por mês, mas ele depositou 1560, o equivalente a 130 por mês. Compramos a geladeira, o fogão e uma sapateira, além de panelas e talheres. De Natal, ganhamos uma máquina de lavar da minha mãe. Logo nosso apartamento estava mobiliado, com cara de lar.

Trabalhei por 09 meses na livraria. A dona da imobiliária que alugou meu apartamento ficou tão chegada à gente, que me convidou para trabalhar com ela. Estou na imobiliária desde julho de 2014. Agora tenho feriados, finais de semana, trabalho sentada, num escritório lindo, no bairro mais caro de Campinas que, por sinal, é onde moro atualmente. Meus patrões têm diversos imóveis e quando o apartamento em que moro foi desocupado, eles decidiram que o melhor seria Luísa e eu morarmos aqui, a quatro minutos (a pé) do trabalho. Ando pelas ruas daqui e ainda custo a acreditar. São prédios lindíssimos, ruas arborizadas. No meu bairro estão os metros quadrados mais caros de Campinas e eu ainda não digeri que moro nele. Meus patrões também me deram a carteira de motorista de presente, o que foi o estopim do divórcio dos meus pais tornou-se uma bênção na minha vida.

Mas as particularidades permanecem...

Houve uma vez em que passei tanto mal, e não conhecia ninguém aqui, fui sozinha de táxi para o hospital. A enfermeira errou minha veia, fiquei com 05 vergões no braço. No dia em que fui de táxi e sozinha para o hospital, postei uma frase bonita no Facebook, acredito que ninguém tem que saber o que acontece na minha vida real.

Sabe, mais que nunca, abracei meu rótulo de esnobe e metida. Só Luísa e eu sabemos o que passamos aqui. Descobri que posso suportar muito mais que imaginava. Nada disso foi por acaso. Vim parar aqui por obediência a Deus.

Hoje, além de tudo, Luísa está adolescente, com 14 anos. Ela não poderia ser outra coisa senão guerreira. Além de se privar de tudo o que não posso lhe dar e ter um pai que não a procura, que não deposita sua pensão há anos, que a bloqueou do próprio Facebook e sequer lhe parabeniza em seu aniversário, é por ela que eu vivo, foi por ela que não me matei. Ela é a âncora que me mantém agarrada à vida e eu agradeço a Deus, de todo meu coração, com toda a minha alma e força pela bênção de tê-la por filha. Luísa é especial e só nós duas sabemos de nossos bastidores. Realmente não há liga mais eficiente em um relacionamento que a dor.


Parafraseando a Pitty, sim eu sou mais do que seu olho pode ver, então não desonre o meu nome.

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