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domingo, 10 de maio de 2015

Deve Haver Alguma Coisa que Ainda te Emocione (15/15)

“Deve haver alguma coisa que ainda te emocione
Um vinho tinto, um copo d'água
A chuva no telhado, um pôr-de-sol...”
(Humberto Gessinger)

Quem escreve, não para nunca. A gaveta ficava cada dia mais pesada, com mais escritos guardados. Aqui fora, muita gente me cobrando uma publicação. As pessoas não têm limites mesmo... não são poucas, até hoje, as que chegam para mim e dizem: “olha, meu ex-namorado se casou, mas me ligou ontem... escreve alguma coisa sobre isso?” ou então: “lembra daquele carinha da farmácia por quem me apaixonei e desapareceu? Semana passada dei de cara com ele na fila do cinema, nem consegui assistir ao filme, escreve alguma coisa sobre isso?” acho que esse tipo de pedido nunca vai parar. As pessoas dizem ter dificuldade de traduzir seus sentimentos e me pedem para intermediá-los. Isso não me chateia. É como um tema de redação, preciso dos elementos, mergulho na empatia e escrevo. Lastimável é escrever algo para a pessoa e ela sequer usar aspas. Já passei por isso algumas vezes. Ela simplesmente transcreve e... assina!

Enfim, em 2010 pleiteei o prêmio da Lei Rubem Braga, uma lei de cunho cultural que disponibiliza verba para diversas áreas da cultura cachoeirense. Não fui contemplada, mas no ano seguinte fui procurada para assumir o prêmio no lugar de um concorrente que, por questões burocráticas, não o poderia assumir. Dessa forma, em 17 de março de 2012, o livro “Sem Filtro na Veia” foi lançado, numa festa muito linda, regada a choro, com o grupo de choro Pó de Mico.

O livro foi prefaciado por Ignácio de Loyola Brandão. Não sou uma estrela para merecer tal prestígio, simplesmente sou uma tremenda cara de pau que corre atrás do que quer. As oportunidades às vezes são escancaradas, às vezes não. É preciso estar atento, apenas isso. Na época em que trabalhei na Secretaria de Cultura, o Ignácio foi a Cachoeiro ministrar uma palestra pelo projeto Tim Grandes Escritores. Fui designada a ir ao aeroporto de Vitória buscar a Márcia, sua esposa. No caminho para Cachoeiro, conversamos muito e eu não perdi a chance de dizer a ela sobre minha propensão a publicar um livro futuramente. Ao chegarmos a Cachoeiro, ela fez questão de me levar ao quarto do hotel onde já se encontrava o Ignácio e nos apresentou. Horas mais tarde, depois da palestra, conversamos mais uma vez e trocamos e-mails. Passei uma parte do material para ele e não sei quanto tempo depois, recebi por e-mail o prefácio. Me emocionei e me emociono sempre que o releio.

Outro fato inesquecível foi o dia em que consegui chegar perto dos Paralamas e chorei rios de ansiedade e depois, de emoção. A banda faria um show em Cachoeiro e eu acordei naquele sábado determinada: “hoje eu chego perto do Herbert Vianna, de qualquer maneira!” Fui à papelaria, comprei duas folhas de papel 60k, tamanha era a minha fé. Eles autografariam aquelas folhas, como não? Escrevi uma carta para ele, para entregar em mão, era uma poesia. 

À noite, no show, me separei de todo mundo que estava comigo, fiquei colada na grade, na primeira fila. Quando o show acabou, fui para perto do camarim. Vi entrar o prefeito, secretários, empresários, jornalistas... e eu, barrada. Mas meu choro comoveu os jornalistas, que começaram a interceder por mim. Quase não deu certo, as visitas estavam encerradas. Mas deu certo sim, abriram uma exceção e eu entrei no camarim dos Paralamas. Fui confortada pelo Bi, abracei os três. Realizei o sonho de repirar o mesmo ar que o Herbert Vianna. Tiramos fotos, recebi autógrafos... saí do camarim pisando em nuvens. Quando meu grupo me reencontrou, de longe todos sorriram: estava na minha testa que eu havia conseguido, claro que eu havia conseguido! Afinal, naquele dia eu acordei “só” para isso.

Anos mais tarde consegui que um exemplar do “Sem Filtro na Veia” chegasse às mãos do Humberto Gessinger, líder e vocalista do Engenheiros do Hawaíi. Trocamos tuítes, nem acreditei. Eu nem ia ao show, a mesa estava cara, eu não tinha grana, mas um casal de amigos me convidou. Pedi ao organizador do evento para entregar o livro e a prova de que ele foi realmente entregue foram os tuítes.


A vida é assim. Hoje você é um anônimo, mas pode ser que amanhã esteja sentado à mesma mesa em que está aquele cara que é uma estrela para você. Ainda não desfruto disso, mas não me chocarei quando acontecer. Aquela menina bobinha, que se viu diante de Roberto Carlos e mal conseguia esboçar uma palavra não chegaria até aqui se permanecesse retraída daquele jeito. O mundo é cruel. É preciso se jogar, ser ousado, sem ser inconveniente. Achar o tom é uma questão de tato. Não sou do tipo que chega sorrindo para todo mundo e apertando mãos, cordialmente, mas acredito (porque funciona!) no poder da educação. Tratar bem as pessoas abre portas, janelas, comportas... e é nisso que eu acredito.

Me lembro de um episódio de quando eu tinha uns 12 anos. Meu professor de Artes, Rosalvo Mantovani, me chamou à mesa dele para cobrar dois trabalhos que eu não havia entregado, mas havia feito. Eu era uma aluna aplicadíssima em sua matéria e estava inconformada por ter me esquecido dos dois trabalhos, que fiquei até alta madrugada fazendo. Ele me perguntou:

-- Você não me entregou os trabalhos, hoje vou fechar o diário. Que nota você acha que merece?

Eu nem pensei para responder. Meu coração falou:

-- Eu acho que mereço dez. Porque eu me dedico à matéria e porque eu sei, não estou mentindo, fiquei até de madrugada fazendo os desenhos, eles estão prontos. Eu só não tenho quem os possa trazer, mas eu fiz.

Rosalvo, meu professor de Artes, sorriu, me olhando dentro dos olhos. Aquele olhar me abraçou. E ainda sorrindo, ele pegou a caneta e, no campo em branco da minha nota, escreveu “10”.

Quando conto esses episódios da minha vida, ouço unanimemente que eu tenho sorte, mas eu discordo. A questão é saber enxergar as oportunidades ou ter forças para criá-las. E o mais importante da vida é não perder a docilidade, apesar de tantas amarguras. É conseguir se emocionar, em meio a tanta frieza. Sim, deve haver alguma coisa que ainda te emocione nesse mundo tão frio. Deve haver alguma coisa que te emocione, que te faça acreditar que vale a pena sonhar, que vale a pena amar, que vale a pena viver. No entanto, nada vai acontecer sem que haja sacrifícios. Prepare as estratégias. Esteja pronto para os imprevistos. Arrisque-se. Mas jamais perca a capacidade de se emocionar, ainda que a vida te bata forte, te espanque, te violente, Deus sempre, sempre estará presente e disposto pro que der e vier. Mais que disposição, Deus tem poder para proporcionar qualquer reviravolta em qualquer situação, é só olhar para mim, eu sou prova disso e, eu sei: ainda há muita emoção a caminho!

Com certeza há alguma coisa que ainda te emocione. Perceba!!!

Um comentário:

Rosalvo Mantovani disse...

Não adianta vivermos o presente olhando para o futuro como se não houvesse um passado. O presente é estruturado pelo passado.

Você me fez viajar e me emocionar.

Muita coisa mudou naquele professor que você conheceu - hoje trabalho na formação profissional das pessoas, em cursos de graduação.

Continuo tentando ser aquele professor que "abraça com os olhos", mas não posso deixar de mostrar o quanto as dificuldades se mesclam à vida, violentando as realizações humanas.

Encontramos gigantescos entraves na educação, pois o que se vê como exemplos para os estudantes são pessoas buscando caminhos mais fáceis para realizarem seus objetivos, se esquecendo dos verdadeiros valores necessários à caminhada, tão bem registrados por Martin Buber ao tratar da ética da humanidade.

Ludmila:

- Torço para que você consiga - através da sua literatura - fazer com que o ser humano sonhe mais e acredite mais, vendo mais possibilidades de encontrar a felicidade na "VERDADE", pois como nos ensinou o maior filósofo que já passou por esse planeta, ELE é a verdade e a vida!

Beijo carinhoso em seu coração, minha aluninha querida!

Que Deus abençoe e ilumine você, sempre!!!

ROSALVO MANTOVANI