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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Flores Amarelas


É minha a alma que queima no paraíso
e chora pelo sonho que morre sem um abraço
O anjo sorri tristemente, deixa escapar uma lágrima sem remorso
A solidão é livre, me escolhe e corre em minha direção
Naquela manhã, de longe se ouvia o coral de vozes apaixonadas
De perto, era noite, nada se sentia
A emoção falhou e meu coração, livre, ficou preso naquele dia
O mundo de sonhos agora é mágoa que ninguém confessa
Os planos estavam vivos naquela manhã de flores amarelas,
mas o Sol cometeu suicídio: não suportaria iluminar outra solidão
As esperanças se mataram no oceano abandonado pelas estrelas
Escuridão
A cada dia a feição de fé se desfaz
O café esfria enquanto minha alma queima sozinha no paraíso
As flores amarelas secaram e eu já posso desistir
Nenhuma oração passa do teto, tudo é em vão
Talvez Deus tenha me abandonado
E por ter a alma tão livre,
à liberdade de ser só estou aprisionado.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Resenha do "Sem Filtro na Veia", por Do Prefácio ao Epílogo


É indizível a alegria de ter um trabalho reconhecido!

Esta é mais uma resenha super positiva do meu 1º livro, o "Sem Filtro na Veia", assinado pela Natália, administradora do blog "Do Prefácio ao Epílogo"


Obrigada pela delicadeza e pelo carinho, Nat!
Sucesso para você e vida longa à nossa parceria!!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Caminhos


Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões
Amo as avenidas bem iluminadas que inauguras
por entre as minhas fortalezas de escuridão
E também amo as ruas de pedrinhas coloridas
que têm as mesmas cores dos olhos teus quando sorris
Amo o caminho que estendes dentro das minhas confusões
Amo as pontes floridas que desenhas com as pontas dos dedos
e as autopistas que descobres sob meus segredos
Amo as tuas asas imensas
que atravesssam os sete céus para me ver dormir
E não sei se amo delirar com todo esse amor que não existe,
que criei para me manter respirando
Odeio caminhar por esse caminho insano,
jamais estendido dentro das minhas explosões
Meus destroços que têm mais de mil sonhos e vontades
que morrem sempre em mais de mil solidões.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Espíritos


De repente o ar fica pesado. O puxo com toda força do meu peito, mas ele vem aos pedaços. Os sons mudam de posição: as vozes somem, os silêncios gritam. De repente sinto saudade do útero de minha mãe, da segurança, da doce solidão que não fere.

E me vejo há milhões de anos numa terra distante, onde eu era desconhecida e não falava. Isso me conforta porque a realidade me agride. Preciso de um abraço, mas minha força se foi. Meu espírito guerreiro adormeceu, fui tomada pelo espírito da poesia, que observa com calma as flores em volta do asfalto escaldante, que sente frio com a frieza das almas ausentes, que se comove com as folhas que se desgarram dos galhos ao toque do vento.

De repente sinto o amor morrer. Sinto que não sou forte como pareço, que preciso de uma eternidade de escuridão, que dure ao menos uma noite, onde eu possa chorar sem que ninguém veja, onde eu possa me arranhar inteira, como um animal indomável que não receberá atenção alguma.

Quem tem tempo para um toque nesse mundo absurdo, de absurda solidão? Quem desacelera o passo para o encanto da cumplicidade? Quem é saudável nesses tempos de perecimento? Nas agendas lotadas faltou espaço para a felicidade, fez-se um rabisco no canto de uma página sufocante.

Sei que o Sol me vê, ilumina meus passos, é cúmplice da minha dor silenciosa. 

Todos estão sorrindo, eu estou morrendo. Preciso ser alcançada pela escuridão consoladora, preciso chorar a saudade do amor que esmaece em mim porque falta-me força para insistir. Preciso ser resgatada, encontrada dentro do baú, encerrado há milhões de anos entre as pedras esquecidas.

Não haverá abraço. Não haverá colo. Não haverá carinho. Não haverá atenção. Pois não há tempo. Não há vontade. Não há equipamento para o mergulho profundo. E todos morrerão no raso, solitários, a milhares de pés sobre minha alma, que jaz no mais profundo do mundo.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Gotas de Bem Querer


Mandei o Sol embora, preciso lhe falar
Não tenho te ouvido,
mas estou falando contigo agora, na chuva
Contando segredos à tua alma
Bradando em trovões de urgências
Relampejando a raiva que sinto
do teu silêncio de orgulho
Talvez eu esteja respingando
no teu rosto o meu carinho
Ou estejam tamborilando nas tuas janelas
o meu bem querer em gotas delicadas
Abençoando o teu esconderijo,
onde eu muito queria estar agora
Há alguma força nessa minha saudade?
Há alguma saudade nessa tua força orgulhosa?
Ouça-me:
vou me jogar com mais violência
contra os teus vidros gelados
Inundar o teu silêncio
Afogar esse teu mutismo agressor
Não, eu não tenho te ouvido,
então mandei o Sol embora,
para lhe falar, em chuva
Revelar à tua alma um precioso segredo
Meu bem, abra a janela para me ouvir
antes que o Sol regresse
e me evapore para sempre da tua vida.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Um trem no meio do caminho


Hoje de manhã estava me lembrando de quando eu era criança, lá em Cachoeiro, e o trem impedia a passagem dos carros, ficando às vezes, horas ali, estático. Poucas vezes minha mãe e eu nos arriscamos a pular por entre os vagões, era muito perigoso. Isso me fez refletir no quanto éramos mais calmos _ou menos estressados e aceitávamos, sem surtos de estresse, aquela imposição do tempo. Os motoristas tinham que dar a volta, fazer outro caminho. Os pedestres não tinham opção. E aceitávamos isso, a contragosto sim, mas sem maiores alardes.

No que nos tornamos? No que essa pressa tresloucada da modernidade nos tem transformado? Não suportamos nada que não nos responda instantaneamente. Hoje sabemos se a mensagem foi recebida, se foi lida. E se foi lida, por que raios a pessoa não respondeu ainda?! Hoje recebemos a notícia que a moça está grávida e temos a impressão de que seis semanas depois ela já deu à luz, e daí mais uns três meses já recebemos o convite do primeiro aniversário do bebê.

O tempo. Perdemos sua noção.

Minha reflexão pousou sobre como tratamos nosso tempo. Isso reflete em como tratamos as pessoas, em como tratamos nossa própria vida.

Sempre estamos cansados, correndo, cuidando de tudo aquilo que tem nos consumido a alma. Pouco dormimos, mal nos alimentamos. Reclamamos do calor, mas não reparamos no brilho do Sol refletido numa árvore. Damos tablets nas pequenas mãos de uma criança para que ela nos deixe trabalhar em paz. Falta-nos tempo. Estamos desprovidos da lente da contemplação, que nos torna capazes de enxergar a beleza na feiura da rotina. Estamos estressados, tornamo-nos pavios curtos. Estamos perdendo o carinho, a empatia, o cuidado com o outro. Xingamos. Tratamos o próximo às caneladas, a duras sentenças. Tornamo-nos egoístas, afinal de contas, estamos numa correria e o próximo tem que entender isso.

No entanto, sempre fico de olho no tempo. Não no que eu não tenho no meu cotidiano, mas naquele que eu ainda tenho e não sei o quanto.

A vida me ensinou não sei quando, nem como que, mesmo correndo, eu não posso abrir mão da delicadeza com o próximo, já que desde que nascemos, todas as vidas estão por um fio. E que ser gentil não é fraqueza.

Que na correria da maldita modernidade não seja preciso um trem atravessado no teu caminho para te fazer enxergar as flores que sempre estiveram à beira dos trilhos.