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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O verbo mais nobre


Ouvir é o verbo mais nobre da atualidade. Essa sentença me veio depois que a angústia passou, graças a um bom coração que insistiu em me ouvir. Ouvir sugere amor, preocupação, empatia, importância, investimento, contemplação. Tempo. 

E o tempo corre tão escasso, as prioridades têm sido tão baratas, que não há tempo para ouvir. 

Lembro-me bem da época escolar em que a professora dizia: “leiam com atenção para responderem o que está sendo perguntado. Interpretem. Releiam quantas vezes for preciso. Não tenham pressa em responder.”

É bem isso, é exatamente isso. Ler com atenção. Investir tempo na leitura do outro. Ouvir sua dor, seus medos, ainda que sejam os mesmos de sempre, aquela velha ladainha nossa de cada dia. Todo mundo tem seus monstros interiores, suas batalhas diárias e seus cansaços naturais.

Mas nos cospem frases de correria, “a gente marca qualquer dia desses”. E as angústias aumentam, os monstros se agigantam e a urgência é cancelada com sucesso.

Já confundi muito sensibilidade com fraqueza. 

Mas hoje sei que são sentimentos diferentes. Quanto mais sensível for um coração, mais atingido ele será por coisas tão pequenas, que já foram desintegradas pela anestesia do cotidiano e pela cegueira que causam os dias comuns. Sensibilidade não é fraqueza. Ao contrário, é força. Só com muita força um coração não se deixa engolir pela vida sem brilho. É uma guerra a cada despertar. Corações que lutam precisam de ouvidos. E ouvidos dispostos só corações que lutam têm, que ironia! Por isso fortes andam com fortes, eles se compreendem, não minimizam as angústias do outro, sabem perfeitamente que elas não podem ser deixadas para depois porque pode não haver depois.

Ao compreender isso, tenho perdoado algumas pessoas e desistido delas, deixando-as em paz, liberando-as dos meus demônios interiores, urgentes e homicidas, a que chamam de dramas e exageros, coisa de poetisa, probleminhas adiáveis. Não são. Eu grito por um abraço, em silêncio, no limbo do precipício, mas ouvidos fracos nunca alcançarão isso. 

Que corram em paz, absortos em suas leituras superficiais.

Um comentário:

Kleidianne Nogueira disse...

Eu queria que o mundo inteiro visse esse texto.