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quinta-feira, 29 de junho de 2017

Feito dente de leite

Um dia a gente acorda diferente
Um fio se rompe,
feito dente de leite que cai, naturalmente
Outro fio se estica,
feito ponte reconstruída entre sorriso e coração
E vem a tarde, o céu muda o tom
E a gente sente o encanto gotejando por dentro,
até que começa a transbordar pelos olhos
Brilho intenso e peso de pluma:
quando vê, toda a dor já se foi
E numa tarde fria
a gente sente que se desprendeu do que passou,
feito dente de leite que cai, naturalmente
Ah! O encanto que transborda,
essa tragédia que nos salva!
Será que pegaria bem eu te avisar
que nesta tarde fria de inverno
eu estou me apaixonando por você?

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Coração Cheio


Quando a gente entende 
que poesia não é necessariamente o que se escreve, 
mas o que a gente é capaz de enxergar, 
a gente entende a poesia da vida. 
Quando a gente consegue captar a beleza de um dia chuvoso, 
do desenho delicado ou às vezes feroz 
que as gotas fazem ao caírem nas poças;
quando a gente se distrai 
observando uma formiga carregando uma folha; 
quando a gente observa 
a chuva de flores de ipê caindo com o vento; 
quando a gente se sente abençoado 
por poder comer uma comida que gosta; 
quando a gente se deixa arrepiar com uma boa música... 
É disso que estou falando. 
Não há espaço para orgulho num coração que só acolhe o bem. 
Às vezes as pessoas nos magoam, 
mas perdoá-las é a melhor maneira de tratar-nos bem, 
mantendo leve e livre o coração. 
Isso é poesia. 
É sabedoria também.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Só vivendo para Saber


Quando eu era criança, toda vez em que chovia,
eu pensava que no mundo inteiro estava chovendo.
E quando era dia,
eu pensava que o mundo inteiro estava ensolarado.
Com o tempo, fui sabendo que não é assim.
Faz noite aqui enquanto é dia lá.
Há paz aqui enquanto há guerra lá.
Sol, chuva.
Noite, dia.
Paz, guerra.
Costume aqui, ofensa lá.
Animal domesticado aqui, iguaria lá.
Às vezes ainda tenho aquela inocência pueril
de acreditar que não há antíteses no mundo
e que todos sentem o que sinto,
que todos veem o que vejo,
que todos são capazes do que sou.
As contradições do mundo às vezes me chocam.
Somos todos diferentes.
E eu volto à primeira lição que a vida me ensinou:
a gente só sabe do que é capaz vivendo.
Não adianta se imaginar.
Só vivendo é que a gente experimenta
a coragem própria e a covardia alheia.
E eu ainda me surpreendo com tudo isso.

sábado, 15 de abril de 2017

Sopra-me aos Ouvidos

Acorde-me com um cânone de Sol,
com teus raios me tocando
como um instrumento delicado
e afinado para te amar
Penteie meus cabelos
com as pontas dos teus dedos
Desfaça meus nós com teus sorrisos
Não me leve para aquele lugar gelado,
mas aqueça-me sobre tua terra
e faça uma flor comigo
Sugue as sombras das minhas veias
e sopra-me aos ouvidos
teu êxtase, fim e recomeço
Carrego o peso frio e implacável
de tentar sobreviver
São teus olhos que me ressuscitam
e exigem de mim
sacrifícios que quero pagar
Algumas perguntas nunca vou te fazer,
mas eu sempre soube
que nenhuma célula minha
condenaria tua liberdade
Finalmente eu entendi o sonho
Não era um girassol,
mas um escorpião amarelo
Coração onde, no mesmo dia,
conheci o céu e o inferno
Eu deveria ter te amado mais tarde,
ter te deixado dormir até à primavera
Pois as estrelas brilham,
mas seus extremos cortam
porque sofrem quando nascem fora de época
Então eu durmo para esquecer
que te espero até o dia em que enfim
me acordarás com um cânone de Sol,
com teus raios me tocando
como um instrumento delicado
e afinado para te amar.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Seu cheiro


Ontem a saudade estava tão feroz, que olhar tuas fotos não bastou.
Decidi ir à loja de perfumes, pedi à vendedora a amostra do teu perfume emprestado. 

Dei duas borrifadinhas no pescoço e várias no papel do provador.
Agradeci emocionada, ela sorriu olhando diretamente nos meus olhos. 
Decerto entende de saudade também.
Voltei pra casa sentindo teu cheiro e limpando do meu rosto as lágrimas que teimavam cair.
Peguei aquele papelzinho do provador, ainda encharcado com teu cheiro, e saí esfregando em tudo quanto é coisa: celular, pernas dos óculos, cordãozinho de corda, o livro que estou lendo, nos cabelos, travesseiro, camisola.
Às vezes a única coisa que se pode ter de alguém que se ama é o seu cheiro.

quarta-feira, 22 de março de 2017

22 de Março - Meu Dia


Tom Jobim que me perdoe, mas prefiro meu março sem as águas. Sou solar. É o Dia Mundial da Água, mas eu não quero água nesse dia que também é meu. Pura contradição, eu sei. Amo, mas quero espaço. Deixo minha alma livre para se prender ao que quiser. Que chova, mas não hoje. Hoje quero me entrelaçar nos raios de Sol para tocar naquela pele que tanto amo.

Nasci às 06:15 da manhã. Com certeza passei a noite escrevendo, tendo as sinapses mais poéticas que um útero pode abrigar. E depois dos rascunhos jogados fora e dos poemas passados a limpo, resolvi nascer para, enfim, poder dormir. 

Foi uma manhã quente, como é meu coração, do jeitinho que preciso que sejam comigo.

Minha mãe não tinha passagem, eu também não forcei. Há passagens que não se forçam: eis meu primeiro teste de paciência. Tiveram que cortar camadas de pele e de carne para que eu fosse encontrada. Dolorimentos naturais da vida. Deixei marcas. A felicidade tem seu preço, e lá foi mamãe pagá-lo para finalmente me dar à luz _sinceramente espero que tenha valido o investimento.

Acho também que não cheguei naturalmente ao mundo junto com as contrações porque não teria sentido eu nascer noutra data que não fosse 22, o número da loucura, da excentricidade, da renovação e da angústia ante a rotina. Por isso esperei amanhecer.

É, tudo faz sentido.

Era outono, manhã do dia 22. Fui recebida pela chuva e pelo astro-rei, dia de contradição no céu _será que isso explica meu coração? Talvez.

Nasci poeta, notívaga, canhota. Nasci sabendo que não posso invadir espaços. Por isso os conquisto, ainda que demore. Eu espero.

Nasci estranha, observadora, escritora, habitante de cavernas e fascinada pela liberdade. Ariana duas vezes, marciana, pronta para a luta. 

Às vezes me fecho e converso somente com a Lua porque eu sei que ela não existe sem o Sol. No meu céu cheio de contradição, somos todos um só poema. E mesmo quando caem as águas de março, nem assim se apaga o eclipse no meu coração.

terça-feira, 14 de março de 2017

Paredes


Ao adentrares um coração pela primeira vez, 
não te contentes apenas em ir a todos os seus cômodos 
conferir se há alguma presença ali escondida, 
mas peças licença ao dono 
e faças uma pequena prospecção em suas paredes 
Muitas presenças não são palpáveis, 
mas estão sob a tinta das paredes, 
onde foram escritos seus nomes, 
suas histórias, seus rabiscos e sonhos
Existem corações aparentemente vazios e dispostos a te acolher, 
mas estão carregados de ecos, cheiros, 
desejos e sons escondidos sob a tinta, sob o tapete, 
atrás dos quadros, na beiradinha do espelho, 
numa telha quebrada, numa toalha florida
A princípio o espaço parece livre para ti, mas tem dono
Não podes mudar isso, posto que muito desejes
E então teus olhos, outrora brilhantes, hão de ser tristes
insistindo em lutar com quem ali não mais reside,
mas presente permanece.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Dia da Mulher todo dia é!


Acordar. Cuidar. Resolver. Conferir.
Sangrar. Depilar. Esmaltar. Sorrir.
Cozinhar. Correr. Treinar. Persistir.
Ensinar. Defender. Perfumar. Sentir.
Trabalhar. Provar. Limpar. Parir.
Representar. Doer. Disfarçar. Dormir.
Não me traga uma flor hoje,
traga-me 365, e não todas de uma vez
Traga-me uma a uma, 
a cada amanhecer
como uma bênção para meu dia
Ser mulher virou sinônimo de autossuficiência,
mas isso é mentira do sistema, acredita não!
Seja ombro, abrigo, carinho, coração
Seja cúmplice, parceiro, seja doce proteção
Pois na vida de uma mulher
entre o acordar e o dormir
Faz toda diferença ter alguém 
que verdadeiramente se importa,
alguém com quem a vida 
é um presente dividir.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Sobre Guerreiros


Hoje deixo a poesia adormecida para falar da realidade, do dia a dia.

Nós mulheres saímos da cozinha e fomos para o ringue da vida. Eu fico estarrecida com tanta autoafirmação que leio atualmente, e me pergunto até que ponto a gente ataca para se defender.

As redes sociais são vitrines do orgulho de dar conta. Dar conta da casa, dos filhos. Do trabalho, da academia. Do tempo que se encontra para o happy hour com a make e o decote perfeitos. Dar conta da vida, de conquistar um espaço que parecia ser do outro, apenas do outro. Dar conta de ser linda, de ser atlética, de ser resistente, a que inverga-mas-não-quebra. Dar conta das contas, dar conta da dieta, do tempo, da grana, da saúde, dos problemas. Nunca a imagem de guerreira foi tão pregada.

Até bem pouco tempo atrás, homem não chorava. Hoje em dia, mulher não chora. Chorar é para os fracos e estrogênios são fortes. Implacavelmente fortes.

Tentando ser gatas, mais parecem patas com seus bicos sensuais _ironia mode on.

Tentando ser suficientes, dispensam publicamente as companhias, subestimam os homens e se orgulham de sua “individualidade” _eu chamaria de solidão, mas deixa.

Vejo diariamente uma enxurrada de legendas cheias de frases de efeitos, mas algo me grita que são meras tentativas de preencher um vazio interno, sabe? Aquele que camadas de maquiagem, litros de silicone, centímetros a menos na roupa regados a doses cavalares de bebidas fortes camuflam _quase que_ muito bem.

Não estou me colocando no alvo da discórdia, apenas hoje me peguei pensando no quê estamos nos transformando. Como se não estar bem fosse uma fraqueza. Como se não ter um corpo “padrão” fosse desleixo. Como se chorar fosse coisa de gente fraca.

Essa apologia à autossuficiência me fez perceber o quão solitárias estão as pessoas _eu disse “pessoas”.

Eu já vi guerreiro chorar, já vi guerreiro com medo, assustado, preocupado. Já vi guerreiro pedir colo, sair mais cedo para poder chorar longe dos demais. Já vi guerreiro pedir conselho, já vi guerreiro ter dúvidas. E eu nunca vi nenhum deles se gabando da sua força, da sua perfeição ou da sua autossuficiência sobre todas as coisas. Guerreiros se prostram. Guerreiros se arrependem. Guerreiros se cansam. Guerreiros choram.

Ah! Guerreiras também.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Maldito Costume


Não foi pela vizinha,
nem foi pelo porteiro
Não foi o frio,
não foi o desemprego
Não foi o tempo,
tampouco desespero
Foi o costume,
maldito costume
que apagou o brilho,
que abriu a porta para o tédio
Que permitiu pequenos desrespeitos
Que silenciosamente
fez pouco caso do carinho,
desprezou o amor
E assim se quebrou a promessa
Difícil acreditar
que onde jazem dois corações
já houve tanta festa.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O Primeiro Passo


Dar o primeiro passo: eis o desafio.
O que é preciso para dar o primeiro passo?
Uma insatisfação gritante, uma vontade gigantesca de mudar, uma fé veemente.
Contudo, o primeiro passo é somente o primeiro passo.
Não se chega a lugar algum dando apenas um passo.
E eu nunca ouvi ninguém falar do segundo passo.
O segundo passo é o da persistência, o da querência constante, o da força.
Ele precede o terceiro passo, que precede o quarto, o quinto dos cem, dos mil que precisamos dar para realmente mudarmos de lugar.
Dar o primeiro passo é importante, mas não define muita coisa.
Na verdade, não define nada.
É preciso estar disposto a caminhar, feito a criança que descobre que andar é mais divertido que engatinhar, e desembesta a percorrer e desbravar todo espaço à sua frente.
Parar no primeiro passo é ainda mais frustrante que nunca ter se mexido.
É morrer na intenção.
O primeiro passo nada mais é que um quase.
E quase não é o bastante.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Estrelas que Choram

Por: Alex Peron e Ludmila Clio
Você se lembra de quando era criança
e não conhecia's outras crianças,
mas em dez minutos você já brincava com todas?
Se lembra de quando contava estrelas
e ficava fascinado com seu brilho?
Eu nunca fui assim,
ou fui, mas não me lembro bem
Essa felicidade carregada de levezas
está tão distante de mim,
parece que foi há um milhão de anos que a vivi
Eu cresci
Sempre fui um fantasma,
Uma folha carregada pelo vento,
que sabe muito bem o seu fim
Crescemos
Somos uma bela geração de fotos sorridentes
e de travesseiros encharcados
Hoje ouço estrelas chorando no céu, nos camarins
Desdenho fotos sorridentes
que escondem almas desdentadas, choros engolidos
em prol da ditadura da felicidade
que proíbe a todos de chorar
Então sorrimos, bebemos, nos drogamos
Sim, com uma certeza desafiadora, sorrimos
Ao som do choro das estrelas, ao fundo,
que morrem todos as noites por não terem quem as contemple,
pois estamos todos chorando escondidos.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Relações Boleto



Cobrança.
Taí uma coisa que não suporto.

Pior que receber cobrança de alguma compra ou de alguma prestação de serviço é receber um protesto de relacionamento, o que por obviedade _ao menos para mim_, é algo indiscutivelmente gratuito.

Existe cobrança escancarada: textão, cara feia, resposta malcriada. Gente que reclama o débito de um suposto direito adquirido.

Também existe cobrança velada _e essa ainda é mais irritante. É aquela que testa o outro fazendo silêncio até onde não se aguenta mais.

Coisa boa é ter prazos respeitados. Os relacionamentos mais caros sabem disso. Ontem mesmo enviei uma mensagem para uma amigo, depois de meses sem contato. Ele foi comigo o mesmo coração amoroso de sempre. A gente não sabe bem quando foi a última vez em que se falou, mas nossas almas sabem, isso é o bastante. Elas retomam sempre do mesmíssimo ponto, unicamente porque elas não se desligam, não desafinam, não desbotam. Elas sabem que têm uma a outra sempre que precisar. E quando precisam, se procuram. E o melhor de tudo: elas se acham. Sempre se acham!

No entanto algumas contas simplesmente não fecham. 

Há quem aprecie cobranças de amizade ou de provas de amor. Dizem que soa importância. Gostam de relatórios diários, planilhas de sentimentos, rotinas de afetos. Pera lá! Reviro os olhos com esses argumentos. Cobrança é feito kriptonita: enfraquece até o mais forte dos corações.

Pode haver quem precise dizer ou ouvir todo santo dia o que se passa, mas não estou nesse time. Eu preciso de prazos para abater minhas dívidas interiores, eu preciso de silêncios para recalcular meus planos, respirar minhas dores. Dividi-las ou não é uma escolha minha e absurdamente há pessoas que não aceitam isso.

Mas quem ama respeita. 
Não cobra, não pressiona, não testa.

Quem ama se dispõe silenciosamente e sabe muito bem quem está disposto também, é quase que telepatia. Sintonia rara que dispensa palavras.

Amor não se prova.
Amizade não se testa.

Não meça minha lealdade pelo "bom dia" enviado. Até porque meu humor não é dos melhores pela manhã.