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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Eu gosto

Fotografia: Terezinha Ognibene

Gosto do jeito que você segura a xícara, meio frouxa, entre os dedos. Sempre tenho a sensação de que o café vai cair, mas ele nunca cai. Gosto do jeito que teus olhos sorriem, fascinados, sobre mim. Gosto do teu jeito de tratar as pessoas, gosto da tua voz rouca quando acorda. Gosto da expectativa que você cria quando antevê uma situação que sabe que vai me provocar. Gosto do teu jeito manso de me abraçar, da segurança que sinto quando encosto no teu peito, seja a hora que for. Gosto de te observar lendo minhas poesias, ver teus olhos marejando e tua pele arrepiando. Gosto quando canta para mim, plantando cada palavra no meu coração, mesmo que seja uma música repetida. Gosto de te ver enciumado porque sei que meu coração é só teu e teu ciúme é pura bobagem. Gosto de tudo que diz respeito a você, gosto até dessa saudade, que me faz chorar de vez em quando. Gosto de pensar que ainda pensa em mim. Gosto de falar de você no presente mesmo que você tenha me prendido no teu passado e prosseguido. 

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Espaço-tempo


Se perceber que naquele espaço
cabe teu amor guardado,
retira-o da caixa
limpa a poeira
e de novo acredita
Entrega teu amor inteiro
Ama sem pressa
Não te preocupa com o tempo,
espaço-tempo
Tempo que multiplica enquanto evapora
Se vai ficar uma vida ou uma estação
Se vai morar ou partir numa manhã chuvosa
Esqueça
Não pensa nisso
Há vidas que duram apenas uma estação
Há moradas que se confundem com temporadas de verão
O tempo é traiçoeiro
Ele parece ser imenso e,
num piscar de olhos acaba
Então ama descabidamente
Entrega teu coração inteiro
Sê feliz enquanto o amor e o tempo se entendem
Às vezes eles brigam
Sobra amor, falta tempo
Sobra tempo, falta amor
Mas se tiver a felicidade de encontrá-los em paz, dançando,
Desfruta disso
E se quiser pensar em algo,
Pensa na entrega, pensa no teu amor
Pensa no quanto é feliz naquele instante
Esqueça, pois, o tempo
O tempo é traiçoeiro,
parece ser eterno, mas fenece
O amor é mais resistente
e na falta de tempo, apenas adormece.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Coração Suturado


Por mais que você nunca tenha feito uma cirurgia ou sofrido um corte que precisasse de pontos, tenho certeza: você é um colecionador de suturas feitas ao longo da vida. Todo mundo as tem, visíveis ou não. Eu tive suturas na testa, no dedo anelar, no útero também. Outras, carrego comigo e às vezes elas doem feito cirurgia recente.

Onde foi a tua sutura mais escondida? Na vitória daquele vício que te envergonha? No teu filho drogado? Na decisão que sempre adiou? No casamento onde já morreu o amor?

No sim que você nunca se permitiu dizer? No aborto que você escondeu? Naquela traição que você nunca superou? Na promoção que não recebeu?

No não que te disseram sem a menor comoção? Na infertilidade que jamais superou? Naquela disputa que você perdeu? No suicídio que você cogitou?

No socorro que você não prestou? Na agressão que desferiu? No diagnóstico que você não aceitou? No sonho que você desistiu?

E onde é que dói mais a tua sutura? Nos teus pés, que não se arriscaram? Nas tuas mãos, que jamais se abriram? Na tua cabeça que não se deixou recostar no peito que te amava? Nos teus ouvidos, que se recusaram a ouvir? Nos joelhos, que jamais se ajoelharam? Nos teus olhos, que se fecharam para o novo ou no teu coração, que se faz de feliz, mas nada sente?


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Só Existem Paredes


Há momentos em que o acelerador quebra, o automático desliga, por mais que a gente pise fundo e queira ignorar o que se vê, o que se sente. E a gente é obrigado a enxergar cada coisa que está fora do lugar na nossa vida, e a gente é obrigado a sentir o que a gente conseguiu disfarçar por semanas.

Às vezes me sinto no filme Laranja Mecânica. A vida me prende e força meus olhos bem abertos para fitar tudo aquilo que não quero ver.

No fim do dia admito que sobram motivos para celebrar, mas não consigo. Meus destroços não se encaixam, eu perco a forma e, ao tentar me remontar, não me transformo em nada.

Foram tantos tropeços e descaminhos que me trouxeram até aqui, nada planejado, tampouco pretendido. Tantos desencontros, tantas vontades e choros engolidos.

Nesse arquipélago social em que "vivemos", onde tornamo-nos ilhas, pesa o peso de existir na contramão da leveza de viver. 

Seria pecado querer mais disso tudo e muito menos também, essa latejante contradição que transborda todo dia no meu coração?

O final de dias assim deveria ser consumado com um abraço compreensivo. Cumplicidade faz mais falta que paixão, mas só existem paredes. Melhor é tentar dormir, anestesia forçada na veia. Talvez amanhã o automático reinicie e minha atuação continue convencendo.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Lugar só Nosso


Há um lugar que é só nosso
Um lugar onde cheguei
conduzida pelas tuas mãos
Há um lugar que é só nosso,
que não sei o caminho, 
e que sozinha não o sei desfazer 
Sempre que teu coração 
precisar dos meus olhos 
ele há de saber onde os encontrar
Pois dentre tantos lugares
nesse vão que é o mundo 
eu poderia me perder a esmo
e a quaisquer outros lugares chegar
Mas foi aqui que meu coração se ajeitou,
foi aqui que meus olhos encontraram descanso 
nesse lugar, tão cheio de vida, tão cheio de planos,
nesse lugar que é só nosso,
onde minha vida sorri com a tua
e se torna vida de verdade. 




segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Se vai chorar



Se vai chorar, para de discrição
Não espere pela madrugada
Não feche a porta do teu quarto
Para de acreditar naquela máxima vazia
de que homem não chora,
de que a mulher moderna se basta
Se vai chorar, se exponha
Se retalhe, se ofereça em fatias de exaustão
Pare o trânsito, desfile tuas dores
Grite tuas revoltas, tuas mágoas diluídas
Mais que das tuas felicidades,
o mundo precisa conhecer tuas humanidades
Quem disse que precisa fugir?
Quem determinou que é pecado sentir?
Pois se vai chorar, escancare
Chorar é humano,
pensar em desistir é ainda mais
Eu, de minha parte,
desprezo os que se dizem intocáveis
e desconfio de quem não confessa 
os seus dias "invivíveis"
O que pode ser mais humano que admitir
o sangue desacreditado,
o desânimo ao despertar?
Se vai chorar, acenda velas e holofotes
Exiba, ao vivo,
as contrações exasperantes de teu coração
Mas saiba, de antemão,
que poucos ficarão para o assistir,
que quase todos o deixarão em solidão
Sairão, em julgamento, por nada compreender
Ora, mais que ironia!
Se justamente o único coração
que o sentir em completude
será digno o bastante para ao teu lado andar
e é o que vai tua mão segurar
toda vez que precisar chorar.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Nossa Fotografia


Repara no meu sorriso naquela fotografia,
naquele papel em que meus olhos estão brilhantes
enquanto estamos abraçados
Faz algum tempo e o tempo me tirou o sorriso,
também o brilho dos meus olhos
Hoje estou chorando, de olhos fechados,
com o corpo encolhido
me lembrando daquele dia
em que estávamos abraçados e felizes
Hoje estou sem saber o que tens feito,
se estás chorando também ou sorrindo,
como na nossa fotografia, onde estamos abraçados
O teu silêncio me tirou o sorriso
e também o brilho dos meus olhos
Mas onde quer que estejas,
espero que ainda tenhas aquela fotografia
em que estávamos abraçados e felizes
E que, de vez em quando, a tomes nas mãos
e repare no meu sorriso tão feliz,
e nos meus olhos que brilhavam,
no meu corpo radiante por estar rendido em teus braços,
estes, dos quais não tenho mais notícias.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Repara na bagunça não!


Quando a gente sabe que vai receber uma visita, a gente se preocupa em arrumar a casa, ainda que seja superficialmente. Não pega bem receber alguém com a casa bagunçada.
No entanto, quando se trata de alguém "chegado", a gente nem se preocupa tanto. Às vezes até se preocupa nada.
A pessoa entra e a gente logo diz "repara na bagunça não, cê é de casa."

Na vida também a gente age assim.
A gente não se preocupa em disfarçar nossa bagunça interior para quem a gente se sente à vontade. Se reparar bem, é bonito e tanto mais difícil a gente não precisar se disfarçar para alguém, isso traduz confiança. 

É muito raro mesmo a gente ter alguém com quem não é preciso se mostrar irretocável, arrumadinho, irrepreensível. É muito raro mesmo a gente ter alguém para quem possa expor nossas bagunças sem um fio de receio. É muito raro mesmo a gente ter alguém que não nos visita, simplesmente porque é de casa, mora na gente.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Antigo Sol


Do que é feito o teu medo?
De que matérias são os teus fantasmas?
Em que abismo enterraram a tua fé?
Em que profundidade do mar se perdeu tua vontade?
Volta para a vida, venha comigo
Me dê teu braço direito
e vamos à procura de mais vinho
A gente se senta naquele muro de pedras ancestrais
e assiste ao mais recente pôr do antigo Sol
Vou te contar segredos
e sorrir timidamente sempre que meu fascínio
me escapar pelos olhos
Vou tentar disfarçar,
olhando para os últimos raios do antigo Sol
e também mexer nos cabelos que, eu sei,
insistirão em cair sobre meus olhos famintos
de teus silêncios falantes
Vou te falar do teu coração,
desse teu depósito de histórias e sabotagens
Vou te dar colo quando o céu estiver sem assunto,
no entremeio do antigo Sol e as estrelas
Vou te pedir confiança
em um caminho de poesias e de olhos fechados
Vou te desarmar com um olhar
e te persuadir com a minha respiração
E então vou te perguntar mais uma vez
do que é feito o teu medo
e já não terás resposta
Não se lembrarás da solidão,
dos silêncios sepulcrais
que te cortaram nos dias mais frios
Adormeceremos abençoados pelas últimas estrelas,
entrelaçados sobre aquele muro de pedras ancestrais
até que renasça o antigo Sol
com o brilho novo sobre nossas vidas.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Poeira Estelar


Hoje passei em frente a um carro que esperava o portão abrir para adentrar a garagem.

Passei tão perto que senti o calor do seu motor queimando minhas pernas. Seus vidros estavam fechados e, o dia, ensolarado. Então imaginei que o ar condicionado estava ligado, gelando tudo lá dentro. E fiquei pensando por quanto tempo eu fui como aquele carro.

Nos eventos mais cotidianos da vida podem haver os encontros mais fascinantes. Às vezes não é no momento de adentrar a vida uma da outra que duas pessoas se encontram, mas elas se encontram, como se fossem um grifo de Deus em suas histórias, como se Ele dissesse: "volte aqui depois e releia esta frase. É que ela, lá na frente, dará sentido a toda sua história."

E Deus ainda continua: "até lá, daqui a 500 páginas de vida _momento exato em que esta frase vai ressurgir para você_, vá colecionando tudo o que for belo, tudo o que for delicado, tudo o que gentilmente pode tocar uma alma. De antemão saiba que tuas próximas páginas não serão de plenitude. Você vai sangrar e, olha, vai doer. Mas não volte a esta página antes da hora porque você não vai compreendê-la fora do tempo. E nem ela se deixará ser compreendida. Plante o que há de melhor no terreno mais íntimo da tua alma. Espere. Um dia hás de compreender."

Ouvi Deus dizer isso para mim uma vez.

Eu não entendia que, fora da hora, as plantas não vigoram, a música destoa, a poesia não flui. Deus tinha razão. Doeu. Sangrou. Tornei-me como aquele carro que era quente por fora, congelante por dentro. Como último estágio, tive que suportar uma dor tão grande e ser como Fênix, misturando-me às cinzas da dignidade e da fé no que se dizia humano.

E, numa noite que ainda está tão próxima a mim, em meio a tantos livros e palavras, sinto que o próprio Deus deixou o livro da minha vida aberto naquela página, com o Seu grifo, de propósito para eu ler, como um prêmio.

Eu, que já não tinha força, tampouco fé para me inclinar sobre minha própria história, eu que já havia desistido de tentar compreender como e por que cheguei até ali não precisei de esforço algum. Um anjo comovido apontou para mim aquela frase grifada, com seus olhos ternos que diziam: "agora vocês estão prontos, olhos e letras. Misturem-se. Compreendam-se. Completem-se. Sejam."

E, de repente, toda a poeira que estava derramada sobre minhas sensações há muito esquecidas se mostraram como poeira estelar e brilharam sobre cada uma delas.

Aquela noite está tão próxima a mim, não faz muito tempo, mas nesses poucos dias eu já senti tantos sentimentos que parece que faz anos que te li.

E faz.

Desde então vejo o pertencimento de tudo o que colhi até aqui. Cada tesouro que eu julgava guardar à toa era teu. Cada impressão digital gravada em meus anseios era tua. Nada foi em vão. A cada página da minha própria vida que eu avançava era para voltar àquela frase e relê-la à altura que ela merecia e precisava.

Desde aquela noite eu abri as janelas, tenho andado com os vidros bem abertos. Desde aquela noite eu não preciso mais me esconder sob o vidro fumê da felicidade automatizada.

Como o desenho da borboleta mais linda do mundo, aparentemente não lembrado por tantos anos e executado em poucos segundos, assim é o mistério do que nos rabiscou até aqui e sacudiu toda a poeira da nossa vida, iluminando nosso novo céu.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Sorrindo até Agora


Você sempre foi uma surpresa
Um encontro por acaso
Uma conversa
Um mergulho
Um impacto sem precedentes
Um choque de realidade tão profundo
A vida tem dessas coisas
A gente está preso em quem não deveria estar
e, de repente,
topa com a nossa melhor versão
Uma supresa
Duas almas sacudidas
Um desencontro
Uma saudade
É, a vida tem dessas coisas
e raramente ela dá segunda chance
Você sempre foi uma surpresa, sempre
Um reencontro por acaso
Um mergulho
Uma vontade
Na conversa eu ouvia a alma sussurrando o tempo todo
que eu nunca deveria ter saído de perto
Ela sentiu saudade,
eu também
Faz poucos dias
e eu ainda estou sorrindo
É feio dizer isso?
Devo seguir as regras do protocolo feminino,
fingir que não me importo?
Eu não ligo
Para as regras, eu me lixo
e para o que você possa pensar sobre isso
sinceramente eu não ligo
Eu só precisava mesmo dizer
que eu tô sorrindo até agora
Você sempre foi uma surpresa,
a melhor surpresa
que, de certa forma,
eu nunca deixei de esperar.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Meus Olhos sem Filtro


Quando viajo sempre escolho a janela. Gosto daquelas grandes e sem divisórias, bons metros de vidro que se tornam um portal para meus olhos famintos.

Vou olhando a paisagem na estrada. O céu, a profusão de cores lindas que se dá no fim da tarde ou no começo da manhã. E se é noite, a vastidão do negro véu, às vezes salpicado de estrelas, às vezes interrompido pela lua ou às vezes, sublimemente negro, uníssono, imperativo.

Quando passo dentro das cidades, observo as fachadas das casas, os semblantes das pessoas, os cachorrinhos de rua e o desprezo a eles dispensado, algo que dói no meu peito.

Fico pensando em como deve ser morar naquela casa na beira do asfalto e que está cheia de roupa no varal. Fico pensando em quanto será que recebe um vendedor de amendoim e jujubas no ponto de ônibus em frente à escola do bairro. E também fico pensando que eu penso demais.

Meus olhos não têm filtro e isso golpeia meu coração. Porque eles têm visto muita coisa triste. Eles têm visto que, mesmo com tantos estabelecimentos abaixando as portas, a construção civil não para, e em cada cidade percorrida, eles têm visto um grande shopping ou prédios de salas comerciais sendo erigidos.

Eles veem meninos de rua, famílias inteiras debaixo de pontes fétidas e expostas a tudo, sobretudo ao frio _climático e humano.

Eles veem cartazes e muros pichados com slogans políticos, exaltando cidades e seus respectivos administradores. E ironicamente eles também veem ratos correndo entre os lixos jogados em frente a esses mesmos muros pichados estampando fé no futuro, otimismo no crescimento da comunidade local e exaltando a idoneidade de seus líderes.

Daí fiquei pensando que o mesmo céu que vejo através desse vidro quase que imperceptível não pode ser contemplado pelas milhares de pessoas que estão, nesse exato momento, na fila do transplante, à espera de um milagre. Esse mesmo ocaso lindo, que me emociona e chega a fazer minha pele doer tamanho arrepio, não pode ser visto pelos sem teto, que há muito já não são vistos por ninguém.

Enquanto erigem prédios novos e fazem promessas de empréstimos sem necessidade de comprovar renda, crianças continuam com fome nas escolas porque a verba foi desviada, famílias inteiras são despejadas de suas casas porque o provedor da casa está desempregado, adolescentes que trabalham de dia, à noite vão à escola para responder chamada.

E meus olhos sem filtro são inundados por uma desesperação arrasadora.

Eu não sou politizada tampouco uma intelectual social. Sou apenas a portadora de um par de olhos sem filtro que captam a beleza simples do cotidiano, mas que não se fecham para a feiura do caos causado pelo sistema.

Estamos todos exaustos, cansados, desanimados. O Congresso Nacional é uma piada pronta, mas a gente só sabe se indignar superficialmente, fazendo apagão às 19:00h para provar que a gente está de olho, descontente ou, denunciando nas redes sociais que Fulano votou sim e Beltrano votou não, como se isso mudasse alguma coisa.

E o céu lá fora continua tão magistral! E as pessoas continuam morrendo à espera de um rim. E o negro véu salpicado de estrelas está tão lindo! E os hospitais que nunca vão atender a população continuam sendo construídos. E as montanhas que formam desenhos minuciosos arrematando o horizonte refletem tão delicadamente o Sol! E nossas crianças continuam sem merenda, sem perspectiva. Tudo isso ao mesmo tempo.

E daqui, da janela de vidro quase imperceptível, olhando para essa aquarela de cores harmônicas no céu, eu fico pensando que quem menos sofre nesse mundo ainda são os cachorrinhos de rua, apesar de serem desprezados. 

Para eles ainda há uma chancezinha de passar alguém e lhes fazer um carinho.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Feito dente de leite

Um dia a gente acorda diferente
Um fio se rompe,
feito dente de leite que cai, naturalmente
Outro fio se estica,
feito ponte reconstruída entre sorriso e coração
E vem a tarde, o céu muda o tom
E a gente sente o encanto gotejando por dentro,
até que começa a transbordar pelos olhos
Brilho intenso e peso de pluma:
quando vê, toda a dor já se foi
E numa tarde fria
a gente sente que se desprendeu do que passou,
feito dente de leite que cai, naturalmente
Ah! O encanto que transborda,
essa tragédia que nos salva!
Será que pegaria bem eu te avisar
que nesta tarde fria de inverno
eu estou me apaixonando por você?

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Coração Cheio


Quando a gente entende 
que poesia não é necessariamente o que se escreve, 
mas o que a gente é capaz de enxergar, 
a gente entende a poesia da vida. 
Quando a gente consegue captar a beleza de um dia chuvoso, 
do desenho delicado ou às vezes feroz 
que as gotas fazem ao caírem nas poças;
quando a gente se distrai 
observando uma formiga carregando uma folha; 
quando a gente observa 
a chuva de flores de ipê caindo com o vento; 
quando a gente se sente abençoado 
por poder comer uma comida que gosta; 
quando a gente se deixa arrepiar com uma boa música... 
É disso que estou falando. 
Não há espaço para orgulho num coração que só acolhe o bem. 
Às vezes as pessoas nos magoam, 
mas perdoá-las é a melhor maneira de tratar-nos bem, 
mantendo leve e livre o coração. 
Isso é poesia. 
É sabedoria também.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Só vivendo para Saber


Quando eu era criança, toda vez em que chovia,
eu pensava que no mundo inteiro estava chovendo.
E quando era dia,
eu pensava que o mundo inteiro estava ensolarado.
Com o tempo, fui sabendo que não é assim.
Faz noite aqui enquanto é dia lá.
Há paz aqui enquanto há guerra lá.
Sol, chuva.
Noite, dia.
Paz, guerra.
Costume aqui, ofensa lá.
Animal domesticado aqui, iguaria lá.
Às vezes ainda tenho aquela inocência pueril
de acreditar que não há antíteses no mundo
e que todos sentem o que sinto,
que todos veem o que vejo,
que todos são capazes do que sou.
As contradições do mundo às vezes me chocam.
Somos todos diferentes.
E eu volto à primeira lição que a vida me ensinou:
a gente só sabe do que é capaz vivendo.
Não adianta se imaginar.
Só vivendo é que a gente experimenta
a coragem própria e a covardia alheia.
E eu ainda me surpreendo com tudo isso.

sábado, 15 de abril de 2017

Sopra-me aos Ouvidos

Acorde-me com um cânone de Sol,
com teus raios me tocando
como um instrumento delicado
e afinado para te amar
Penteie meus cabelos
com as pontas dos teus dedos
Desfaça meus nós com teus sorrisos
Não me leve para aquele lugar gelado,
mas aqueça-me sobre tua terra
e faça uma flor comigo
Sugue as sombras das minhas veias
e sopra-me aos ouvidos
teu êxtase, fim e recomeço
Carrego o peso frio e implacável
de tentar sobreviver
São teus olhos que me ressuscitam
e exigem de mim
sacrifícios que quero pagar
Algumas perguntas nunca vou te fazer,
mas eu sempre soube
que nenhuma célula minha
condenaria tua liberdade
Finalmente eu entendi o sonho
Não era um girassol,
mas um escorpião amarelo
Coração onde, no mesmo dia,
conheci o céu e o inferno
Eu deveria ter te amado mais tarde,
ter te deixado dormir até à primavera
Pois as estrelas brilham,
mas seus extremos cortam
porque sofrem quando nascem fora de época
Então eu durmo para esquecer
que te espero até o dia em que enfim
me acordarás com um cânone de Sol,
com teus raios me tocando
como um instrumento delicado
e afinado para te amar.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Seu cheiro


Ontem a saudade estava tão feroz, que olhar tuas fotos não bastou.
Decidi ir à loja de perfumes, pedi à vendedora a amostra do teu perfume emprestado. 

Dei duas borrifadinhas no pescoço e várias no papel do provador.
Agradeci emocionada, ela sorriu olhando diretamente nos meus olhos. 
Decerto entende de saudade também.
Voltei pra casa sentindo teu cheiro e limpando do meu rosto as lágrimas que teimavam cair.
Peguei aquele papelzinho do provador, ainda encharcado com teu cheiro, e saí esfregando em tudo quanto é coisa: celular, pernas dos óculos, cordãozinho de corda, o livro que estou lendo, nos cabelos, travesseiro, camisola.
Às vezes a única coisa que se pode ter de alguém que se ama é o seu cheiro.

quarta-feira, 22 de março de 2017

22 de Março - Meu Dia


Tom Jobim que me perdoe, mas prefiro meu março sem as águas. Sou solar. É o Dia Mundial da Água, mas eu não quero água nesse dia que também é meu. Pura contradição, eu sei. Amo, mas quero espaço. Deixo minha alma livre para se prender ao que quiser. Que chova, mas não hoje. Hoje quero me entrelaçar nos raios de Sol para tocar naquela pele que tanto amo.

Nasci às 06:15 da manhã. Com certeza passei a noite escrevendo, tendo as sinapses mais poéticas que um útero pode abrigar. E depois dos rascunhos jogados fora e dos poemas passados a limpo, resolvi nascer para, enfim, poder dormir. 

Foi uma manhã quente, como é meu coração, do jeitinho que preciso que sejam comigo.

Minha mãe não tinha passagem, eu também não forcei. Há passagens que não se forçam: eis meu primeiro teste de paciência. Tiveram que cortar camadas de pele e de carne para que eu fosse encontrada. Dolorimentos naturais da vida. Deixei marcas. A felicidade tem seu preço, e lá foi mamãe pagá-lo para finalmente me dar à luz _sinceramente espero que tenha valido o investimento.

Acho também que não cheguei naturalmente ao mundo junto com as contrações porque não teria sentido eu nascer noutra data que não fosse 22, o número da loucura, da excentricidade, da renovação e da angústia ante a rotina. Por isso esperei amanhecer.

É, tudo faz sentido.

Era outono, manhã do dia 22. Fui recebida pela chuva e pelo astro-rei, dia de contradição no céu _será que isso explica meu coração? Talvez.

Nasci poeta, notívaga, canhota. Nasci sabendo que não posso invadir espaços. Por isso os conquisto, ainda que demore. Eu espero.

Nasci estranha, observadora, escritora, habitante de cavernas e fascinada pela liberdade. Ariana duas vezes, marciana, pronta para a luta. 

Às vezes me fecho e converso somente com a Lua porque eu sei que ela não existe sem o Sol. No meu céu cheio de contradição, somos todos um só poema. E mesmo quando caem as águas de março, nem assim se apaga o eclipse no meu coração.

terça-feira, 14 de março de 2017

Paredes


Ao adentrares um coração pela primeira vez, 
não te contentes apenas em ir a todos os seus cômodos 
conferir se há alguma presença ali escondida, 
mas peças licença ao dono 
e faças uma pequena prospecção em suas paredes 
Muitas presenças não são palpáveis, 
mas estão sob a tinta das paredes, 
onde foram escritos seus nomes, 
suas histórias, seus rabiscos e sonhos
Existem corações aparentemente vazios e dispostos a te acolher, 
mas estão carregados de ecos, cheiros, 
desejos e sons escondidos sob a tinta, sob o tapete, 
atrás dos quadros, na beiradinha do espelho, 
numa telha quebrada, numa toalha florida
A princípio o espaço parece livre para ti, mas tem dono
Não podes mudar isso, posto que muito desejes
E então teus olhos, outrora brilhantes, hão de ser tristes
insistindo em lutar com quem ali não mais reside,
mas presente permanece.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Dia da Mulher todo dia é!


Acordar. Cuidar. Resolver. Conferir.
Sangrar. Depilar. Esmaltar. Sorrir.
Cozinhar. Correr. Treinar. Persistir.
Ensinar. Defender. Perfumar. Sentir.
Trabalhar. Provar. Limpar. Parir.
Representar. Doer. Disfarçar. Dormir.
Não me traga uma flor hoje,
traga-me 365, e não todas de uma vez
Traga-me uma a uma, 
a cada amanhecer
como uma bênção para meu dia
Ser mulher virou sinônimo de autossuficiência,
mas isso é mentira do sistema, acredita não!
Seja ombro, abrigo, carinho, coração
Seja cúmplice, parceiro, seja doce proteção
Pois na vida de uma mulher
entre o acordar e o dormir
Faz toda diferença ter alguém 
que verdadeiramente se importa,
alguém com quem a vida 
é um presente dividir.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Sobre Guerreiros


Hoje deixo a poesia adormecida para falar da realidade, do dia a dia.

Nós mulheres saímos da cozinha e fomos para o ringue da vida. Eu fico estarrecida com tanta autoafirmação que leio atualmente, e me pergunto até que ponto a gente ataca para se defender.

As redes sociais são vitrines do orgulho de dar conta. Dar conta da casa, dos filhos. Do trabalho, da academia. Do tempo que se encontra para o happy hour com a make e o decote perfeitos. Dar conta da vida, de conquistar um espaço que parecia ser do outro, apenas do outro. Dar conta de ser linda, de ser atlética, de ser resistente, a que inverga-mas-não-quebra. Dar conta das contas, dar conta da dieta, do tempo, da grana, da saúde, dos problemas. Nunca a imagem de guerreira foi tão pregada.

Até bem pouco tempo atrás, homem não chorava. Hoje em dia, mulher não chora. Chorar é para os fracos e estrogênios são fortes. Implacavelmente fortes.

Tentando ser gatas, mais parecem patas com seus bicos sensuais _ironia mode on.

Tentando ser suficientes, dispensam publicamente as companhias, subestimam os homens e se orgulham de sua “individualidade” _eu chamaria de solidão, mas deixa.

Vejo diariamente uma enxurrada de legendas cheias de frases de efeitos, mas algo me grita que são meras tentativas de preencher um vazio interno, sabe? Aquele que camadas de maquiagem, litros de silicone, centímetros a menos na roupa regados a doses cavalares de bebidas fortes camuflam _quase que_ muito bem.

Não estou me colocando no alvo da discórdia, apenas hoje me peguei pensando no quê estamos nos transformando. Como se não estar bem fosse uma fraqueza. Como se não ter um corpo “padrão” fosse desleixo. Como se chorar fosse coisa de gente fraca.

Essa apologia à autossuficiência me fez perceber o quão solitárias estão as pessoas _eu disse “pessoas”.

Eu já vi guerreiro chorar, já vi guerreiro com medo, assustado, preocupado. Já vi guerreiro pedir colo, sair mais cedo para poder chorar longe dos demais. Já vi guerreiro pedir conselho, já vi guerreiro ter dúvidas. E eu nunca vi nenhum deles se gabando da sua força, da sua perfeição ou da sua autossuficiência sobre todas as coisas. Guerreiros se prostram. Guerreiros se arrependem. Guerreiros se cansam. Guerreiros choram.

Ah! Guerreiras também.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Maldito Costume


Não foi pela vizinha,
nem foi pelo porteiro
Não foi o frio,
não foi o desemprego
Não foi o tempo,
tampouco desespero
Foi o costume,
maldito costume
que apagou o brilho,
que abriu a porta para o tédio
Que permitiu pequenos desrespeitos
Que silenciosamente
fez pouco caso do carinho,
desprezou o amor
E assim se quebrou a promessa
Difícil acreditar
que onde jazem dois corações
já houve tanta festa.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O Primeiro Passo


Dar o primeiro passo: eis o desafio.
O que é preciso para dar o primeiro passo?
Uma insatisfação gritante, uma vontade gigantesca de mudar, uma fé veemente.
Contudo, o primeiro passo é somente o primeiro passo.
Não se chega a lugar algum dando apenas um passo.
E eu nunca ouvi ninguém falar do segundo passo.
O segundo passo é o da persistência, o da querência constante, o da força.
Ele precede o terceiro passo, que precede o quarto, o quinto dos cem, dos mil que precisamos dar para realmente mudarmos de lugar.
Dar o primeiro passo é importante, mas não define muita coisa.
Na verdade, não define nada.
É preciso estar disposto a caminhar, feito a criança que descobre que andar é mais divertido que engatinhar, e desembesta a percorrer e desbravar todo espaço à sua frente.
Parar no primeiro passo é ainda mais frustrante que nunca ter se mexido.
É morrer na intenção.
O primeiro passo nada mais é que um quase.
E quase não é o bastante.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Estrelas que Choram

Por: Alex Peron e Ludmila Clio
Você se lembra de quando era criança
e não conhecia's outras crianças,
mas em dez minutos você já brincava com todas?
Se lembra de quando contava estrelas
e ficava fascinado com seu brilho?
Eu nunca fui assim,
ou fui, mas não me lembro bem
Essa felicidade carregada de levezas
está tão distante de mim,
parece que foi há um milhão de anos que a vivi
Eu cresci
Sempre fui um fantasma,
Uma folha carregada pelo vento,
que sabe muito bem o seu fim
Crescemos
Somos uma bela geração de fotos sorridentes
e de travesseiros encharcados
Hoje ouço estrelas chorando no céu, nos camarins
Desdenho fotos sorridentes
que escondem almas desdentadas, choros engolidos
em prol da ditadura da felicidade
que proíbe a todos de chorar
Então sorrimos, bebemos, nos drogamos
Sim, com uma certeza desafiadora, sorrimos
Ao som do choro das estrelas, ao fundo,
que morrem todos as noites por não terem quem as contemple,
pois estamos todos chorando escondidos.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Relações Boleto



Cobrança.
Taí uma coisa que não suporto.

Pior que receber cobrança de alguma compra ou de alguma prestação de serviço é receber um protesto de relacionamento, o que por obviedade _ao menos para mim_, é algo indiscutivelmente gratuito.

Existe cobrança escancarada: textão, cara feia, resposta malcriada. Gente que reclama o débito de um suposto direito adquirido.

Também existe cobrança velada _e essa ainda é mais irritante. É aquela que testa o outro fazendo silêncio até onde não se aguenta mais.

Coisa boa é ter prazos respeitados. Os relacionamentos mais caros sabem disso. Ontem mesmo enviei uma mensagem para uma amigo, depois de meses sem contato. Ele foi comigo o mesmo coração amoroso de sempre. A gente não sabe bem quando foi a última vez em que se falou, mas nossas almas sabem, isso é o bastante. Elas retomam sempre do mesmíssimo ponto, unicamente porque elas não se desligam, não desafinam, não desbotam. Elas sabem que têm uma a outra sempre que precisar. E quando precisam, se procuram. E o melhor de tudo: elas se acham. Sempre se acham!

No entanto algumas contas simplesmente não fecham. 

Há quem aprecie cobranças de amizade ou de provas de amor. Dizem que soa importância. Gostam de relatórios diários, planilhas de sentimentos, rotinas de afetos. Pera lá! Reviro os olhos com esses argumentos. Cobrança é feito kriptonita: enfraquece até o mais forte dos corações.

Pode haver quem precise dizer ou ouvir todo santo dia o que se passa, mas não estou nesse time. Eu preciso de prazos para abater minhas dívidas interiores, eu preciso de silêncios para recalcular meus planos, respirar minhas dores. Dividi-las ou não é uma escolha minha e absurdamente há pessoas que não aceitam isso.

Mas quem ama respeita. 
Não cobra, não pressiona, não testa.

Quem ama se dispõe silenciosamente e sabe muito bem quem está disposto também, é quase que telepatia. Sintonia rara que dispensa palavras.

Amor não se prova.
Amizade não se testa.

Não meça minha lealdade pelo "bom dia" enviado. Até porque meu humor não é dos melhores pela manhã.