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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Sobre a única certeza da Vida


Dizem que a única certeza da vida é a morte.
Hoje esbarrei nela. Perdi alguém querido. Perdi meu avô.
Era o último vivo, dos quatro.
Não tenho muitas memórias dele, já que cresci no Espírito Santo e ele morava nas Minas Gerais.
Nos encontrávamos uma vez ao ano, sempre na época do réveillon, mas isso foi até os meus dez anos. Depois que vovó morreu, o vi, no máximo, umas 04 vezes.
Tenho memórias vagas, de seu jeito calado, tipicamente mineiro.
Lembro-me de seus ofícios com madeira, dele de short verde na praia e também de sua caligrafia perfeita.
Canhoto por natureza, destro por obrigação.
Devo a ele minha sinistralidade, isso eu herdei do vô Zé Nunes.
Embora não tenha grandes momentos para me recordar de nós dois, o sentimento é triste.
É como se quem abriu caminho para as próximas gerações, aos poucos foi ficando para trás, dando lugar aos netos, bisnetos. E de repente, a gente olha para trás e encontra desfalcada a retaguarda da tropa. A vida segue e seguimos sempre com mais gente adiante, menos gente atrás da gente.
A morte sempre esvazia o caminho.
A morte sempre enche o coração.
Enche-o de vazio, de saudade, de sentimento de orfandade.
O fluxo não para, o clichê maior diz que a vida continua.
É, continua.
Mas ela continua meio trêmula, duvidosa, carente de um colo.
Hoje mais que nunca eu queria a minha mãe, que com certeza tem infinitamente mais memórias de seu pai que eu de meu avô.
É estranho não sentir sua sombra sobre nós, olhar para trás e não ver presença, mas pegadas.
Há história, memória. O palpável já não mais existe.
Que Deus conforte nossa família nesse momento tão triste, tão cheio de certeza e nada natural. 

Desculpa vida, mas com essa sua única certeza ninguém lida bem.

Um comentário:

Ciana Andrade disse...

Lindo o texto! Eu ainda tenho minha avó e meu avô maternos, a minha avó paterna eu perdi o contato. Mas meu carinho especial é pela minha avó materna, ela já está com 86 anos, idade complicada, cheia de dores, mas agradeço a Deus por permitir que ela esteja com a família.
Me emocionei ao ler seu texto. bjs
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