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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Se doesse de verdade


Não havia amor, disso eu sempre soube
Não cabia, sangrava, muito doía
Na dor eu acreditei e é isso o que me dói mais
Quis abraçar, quis cuidar
Eu nunca soube se estava indo ou se estava vindo
Hoje sei que não saí do lugar
Estava me despedindo de tudo sem saber
Diluindo minha alma em partículas que deixei pairando no ar
Impressas nas almofadas, taças, toalhas e maçanetas
Ficou muito de mim no azul das manhãs,
nos ipês carregadinhos de flores,
em eventuais girassóis pelo caminho
E também em acordes e timbres específicos,
tatuagens, lençóis e temperaturas
Em temperos, cores, expressões e filosofias
(é, não vai ficar fácil daquele lado também)
Entreguei meu todo, célula por célula
E acreditei estar diante da maior alma que a minha já encontrou
Não
Ainda preciso aprender mais de almas,
ainda me impressiono com quem dissimula bem
Nunca houve amor, disso eu sempre soube
Mas cada dia em que eu pensava estar deixando lentamente a superfície,
eu era abraçada pela esperança de curar a dor daquele coração,
que parecia se contorcer de tristeza,
mas hoje vejo que era de prazer
Não houve palavra, não houve clareza
Não houve espaço para trocarmos de lugar
Me dispus a andar na corda bamba,
com o precipício bem abaixo dos meus pés
Sem rede de proteção e com o peito cheio de coragem,
Decidida a sentir aquela dor também
Abracei os riscos
e me coloquei na linha de frente para compreender aquele coração
Contudo, de enigma logo passei à piada pronta,
um troféu empoeirado na estante, que vez ou outra era ostentado
O silêncio me corroía, eu temia ser indiscreta e implodia,
E por puro medo de fazer dolorir mais, eu puxava mais dor para mim
Para me fazer de pluma, me tornei um container de perguntas
Para ser borboleta, me afundei em angústias que ninguém pode supor
Tudo porque acreditei que estava diante da maior alma que a minha já encontrou
Mas que ingenuidade a minha!
Se doesse de verdade,
meu amor se alastraria e toda aquela suposta dor
seria hoje uma amena lembrança do que nos fez mais fortes e amados
Se doesse de verdade,
hoje não haveria riso daquele lado e pranto por aqui.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O verbo mais nobre


Ouvir é o verbo mais nobre da atualidade. Essa sentença me veio depois que a angústia passou, graças a um bom coração que insistiu em me ouvir. Ouvir sugere amor, preocupação, empatia, importância, investimento, contemplação. Tempo. 

E o tempo corre tão escasso, as prioridades têm sido tão baratas, que não há tempo para ouvir. 

Lembro-me bem da época escolar em que a professora dizia: “leiam com atenção para responderem o que está sendo perguntado. Interpretem. Releiam quantas vezes for preciso. Não tenham pressa em responder.”

É bem isso, é exatamente isso. Ler com atenção. Investir tempo na leitura do outro. Ouvir sua dor, seus medos, ainda que sejam os mesmos de sempre, aquela velha ladainha nossa de cada dia. Todo mundo tem seus monstros interiores, suas batalhas diárias e seus cansaços naturais.

Mas nos cospem frases de correria, “a gente marca qualquer dia desses”. E as angústias aumentam, os monstros se agigantam e a urgência é cancelada com sucesso.

Já confundi muito sensibilidade com fraqueza. 

Mas hoje sei que são sentimentos diferentes. Quanto mais sensível for um coração, mais atingido ele será por coisas tão pequenas, que já foram desintegradas pela anestesia do cotidiano e pela cegueira que causam os dias comuns. Sensibilidade não é fraqueza. Ao contrário, é força. Só com muita força um coração não se deixa engolir pela vida sem brilho. É uma guerra a cada despertar. Corações que lutam precisam de ouvidos. E ouvidos dispostos só corações que lutam têm, que ironia! Por isso fortes andam com fortes, eles se compreendem, não minimizam as angústias do outro, sabem perfeitamente que elas não podem ser deixadas para depois porque pode não haver depois.

Ao compreender isso, tenho perdoado algumas pessoas e desistido delas, deixando-as em paz, liberando-as dos meus demônios interiores, urgentes e homicidas, a que chamam de dramas e exageros, coisa de poetisa, probleminhas adiáveis. Não são. Eu grito por um abraço, em silêncio, no limbo do precipício, mas ouvidos fracos nunca alcançarão isso. 

Que corram em paz, absortos em suas leituras superficiais.