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sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Pontos de Luz


Me explica como podes trocar o Sol todos os dias
Me explica como podes me dar um céu novo a cada manhã
Me explica como consegues fazer meus olhos
verem a mesma paisagem de forma diferente
Como, na escuridão da vida,
foste espalhando pequenos pontos de luz
e clareando a noite
que se mostrava a cada hora, mais escura
Me explica como podes me levar a lugares que não fui
e minha alma já estar lá com a tua
Me explica por que o sono se vai,
ansioso pelo Sol novo
que já renovaste para mim quando ainda é noite
Me explica de onde vem essa certeza
de que todo amanhã será mais leve,
de que todo fim era somente uma madrugada mais longa,
prenunciando um recomeço iluminado pelos pontos de luz
que só encontro dentro de teus olhos?

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Uma lembrança natural


Gasta teu passado
Fala nele, fala dele, 

fala, fala, fala dia e noite,
não pare de falar
Enquanto doer, fala
Enquanto sangrar, fala
Gasta essa dor,
gasta tuas suposições,
gasta todas as possibilidades

que tinham tudo para ser, 
mas não foram
Não guarda nada: fala!
Fala daquele quase amor
Fala daquele quase para sempre,
que saiu à tarde e nunca mais voltou
Fala de todas as verdades 
que estão estragando dentro do teu coração,
de toda vontade que foi virando aflição
Gasta teu passado,
não evite falar nele
Esgote tua dor, tuas reclamações, 
tua incompreensão toda
Fala do teu passado até que ele perca o sentido,
até que ele perca sua importância,
até que ele se transforme em uma lembrança natural
Numa tarde qualquer, 
feito aquela em que teu quase amor foi embora,
hás de reparar em um detalhe interessante do presente,
e outro, e outro
E começarás a prestar mais atenção nele,
e sentirás uma vontade de descobri-lo,

cada dia um pouco mais
Quando olhares para dentro
não verás mais a dor em estoque no teu coração,
terás gastado toda frustração que ficou acumulada
Haverá um espaço incrível
onde antes só havia vazio e solidão
Então acordarás mais forte por teres sobrevivido,
com uma nova cicatriz
e disposto a viver tudo que estará indo em tua direção,
ansioso por toda novidade
que estará bem à porta do teu coração
esperando apenas por teu convite para entrar
e ali fazer morada.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Amenidades Importantes


Hoje, mais cedo, vi na rua uma moça bonita que estava chorando enquanto falava ao celular. Ela tentava disfarçar, abaixava a cabeça, mas era inevitável: todos que passavam por ela ficavam com aquela cara, misto de piedade com curiosidade. Daí eu fiquei pensando como seria se as pessoas conseguissem enxergar quando outras estão chorando por dentro. 

É um dom raro mesmo. 
Mas não deveria.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Desencontro


O tempo, nublado,
entristeceu o coração
O tempo, dormente,
passou calado e abatido
O tempo, confuso,
perdeu-se na contagem dos janeiros
O tempo, embriagado,
nos separou para sempre.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

As redes são públicas, mas o bom senso é particular


Antigamente os amigos se encontravam num boteco e lá na mesa ou no balcão discutiam quem era o melhor ponta direita do campeonato, se aquele gol foi legítimo mesmo ou não, se o cartão vermelho foi merecido ou exagerado. Nas calçadas ou num churrasco às vezes rolavam temas como política, religião _aqueles assuntos nevrálgicos_, mas que em geral, todo mundo tem um posicionamento e, entre amigos, o expõe.

"Reencarnação existe?"
"Fulano rouba, mas faz." 
"Meu time é o melhor!"

Às vezes alguns se exaltavam um pouco, outros deixavam pra lá. Panos quentes para esfriar cabeças quentes. Era a redundância antagônica do olho no olho que só antigamente existia.

Àquela época você se sentaria à mesa com amigos que saíram após o trabalho para trocar uma ideia, mesmo sendo você o único estranho entre eles? Você entraria numa casa onde estivesse rolando um churrasco de uma família que você nem conhecesse só para contestar o time para o qual ela torcia?

Pois é, quando você comenta no mural de alguém que você só sabe o nome _embora o Facebook os chame de "amigos"_ é exatamente essa deselegância que você comete. É de uma extrema grosseria _e por que não chamar de burrice_ ir ao mural de alguém que defende ideia X e rosnar contra ela porque você defende ideia Y. É de uma ignorância estratosférica agredir verbalmente alguém que não torce pro teu time, que não acredita na mesma doutrina que a tua. Sabe por quê? Porque ninguém vai mudar o voto ou a torcida ou a fé só porque você discorda. É tão simples, mas tem muito bebezão véio por aí que não entende isso e faz questão de entrar em post que não tem nada a ver consigo e começa a atacar, diminuir, ofender tanto quem postou como quem comenta, estragando o clima da brincadeira, pesando a zueira, acabando com o momento de relaxamento de quem vive num país tão cheio de submarinos emocionais, só pra ter razão. É exatamente a ideia de adentrar a festa sem ser convidado e ofender o anfitrião. As redes sociais são públicas, eu sei, mas o bom senso é particular, como o perfil de cada um.

Falando em perfil, "Perfil", ao pé da letra, significa "contornos do rosto de alguém visto de lado." Sabia que nem gêmeos univitelinos têm o mesmo perfil? Isso é único, exclusivo, pessoal. Portanto respeite as diferenças. Entenda quando é brincadeira. Saiba brincar. E saiba, antes de tudo, se você foi chamado para brincar. Você pode até entrar sem ser chamado _publicidade a gente vê por aqui_, mas não estrague o clima, não diminua o outro por conta de uma escolha diferente da tua, não vá berrar na timeline do outro que o teu perfil é o bom. Tenha bom senso, seja educado. Saiba a hora de parar. Acredite: é possível brincar, até mesmo discordar de alguém sem ofender, e é justamente isso que torna a discussão gostosa.

Quando um imbecil rosna contra minhas escolhas sobrepujando as dele, automaticamente eu só consigo sentir mais repúdio por suas escolhas. Opções existem e somos livres para escolhê-las. E se algum dia quisermos mudá-las, seguramente não será sob xingamentos e escárnios de outrem que o faremos, é tão óbvio!!! Mas Umberto Eco tinha toda razão: "as redes sociais deram voz aos imbecis". Agora aguenta.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Desperdício

Hoje, 07/08/2018, a Lei Maria da Penha completa 12 anos

Quantas luas, lá do céu,
já testemunharam a minha certeza
de que essa vez é o fim
Quantos sóis abriram o novo dia
e não viram [de novo] nada novo acontecer
Quantas vezes
olhei dentro dos meus olhos no espelho
e prometi a eles que de hoje não passa
Quantas explicações tive que dar a mim mesma,
chorando, pela mesma promessa fracassada
Você peca e pede perdão
Eu banco a santa e finjo perdoar
e é sempre a última vez
Você chora e eu me compadeço
Promete mudar e eu acredito
Você me ama e eu me mato
Me estende a mão e a solta no precipício
e é sempre a última vez
Depois volta, suplica perdão e é tudo igual
Só depois que eu mudei
foi que eu percebi que nada muda
Você sempre me manda embora,
mas nunca me deixa ir
e é tudo sempre, sempre igual,
as luas, os sóis, os espelhos
e eu sempre te dou uma nova última chance,
adiando o nosso final,
fazendo força para crer 

em tuas drásticas mudanças
Cansaço
Exaustão
Eu fico sempre em tuas mãos
Piedade
Acomodação
Sempre igual,
é sempre a última vez,
é sempre a última chance,
mas só temos essa vida.

sábado, 4 de agosto de 2018

Eu já me chamei Tatiane Spitzner



Eu já me chamei Tatiane Spitzner. No começo, eu me sentia especial. Aquele ciúme me parecia proteção, aquela implicância com a roupa que eu vestia me parecia zelo, aquelas entrevistas perguntando quem era a pessoa que me cumprimentou na rua me pareciam preocupação. É, eu não percebia. A gente não percebe. A gente simplesmente começa a aceitar que esse é o "jeito da pessoa" e vai se adequando. Foi o que eu fiz.

Com o tempo, fui parando de usar certas roupas, certas maquiagens. Fui falando menos nas rodas de amigos, comecei a fingir que não via as pessoas na rua para evitar cumprimentá-las e cheguei até ao ponto de atender ao telefone e fingir que era engano, só pra não ter que dar explicações eternas sobre o que eu estava falando, já que a desconfiança pairava até sobre meu comportamento com a minha própria mãe.

Parece absurdo. É absurdo.
A gente simplesmente não percebe que dia a dia vai falando menos, desviando olhares, trocando de canal, doando roupas que a gente gosta, perdendo o brilho, o apetite pela vida.

Até que um dia o inesperado acontece. A violência social e psicológica passa a ser física. De repente o "protetor" vira um demônio e vai com tudo pra cima de quem ele diz amar. O sangue escorrendo nem é sentido. O que dói pra valer é a dignidade esvaindo por dentro. Os hematomas, puxões de cabelo e arranhões se misturam à adrenalina paralisante da humilhação ora vivida.

Não, você não acredita. Você, mulher ainda em formação ou já empoderada, você que se deu, se doou, se submeteu, respeitou o outro atropelando a si mesma, você simplesmente não acredita.

No dia seguinte, o pedido de perdão, o choro de crocodilo e você, já tão enredada nessa trama psicopata, se comove. De fora a maioria diz que jamais se comoveria, mas você, só você que já viveu esse inferno é capaz de dizer que sim, a gente se comove. E perdoa. E tenta esquecer. E se cala de novo, mais um dia, mais um mês, ou até à proxima vez.

Eu já me chamei Tatiane Spitzner. Nossa diferença é que eu morava no térreo, estava grávida quase parindo quando conheci o inferno e sobrevivi. Ela não. 

E se você hoje silenciosamente enfrenta esse demônio, de todo meu coração eu te imploro: aja, denuncie. Nem todas têm a chance que eu tive. Muitas, como Tatiane Spitzner, morrem esmagadas na calçada da vida, defenestradas por seus próprios parceiros, os mesmos que sorriem ao seu lado nos álbuns de família, nas fotos das redes sociais.

Eu já me chamei Tatiane Spitzner, mas há muito tempo, não mais.