
Hoje eu acordei com uma sensação estranha. Não era exatamente um mau humor... era uma introspecção, aquela que te provoca uma vontade de ser invisível, pra que nenhuma outra boca venha te perguntar alguma coisa... acordei com um desprezo profundo pelo telefone e justo hoje ele tocou bastante, tocou e retocou... até arriar a bateria... Eu não quero falar com (quase) ninguém. Claro que até pra mau humor ou introspecções... seja lá o que isso for... há as exceções. Se minha inspiração ligasse para mim, eu atenderia com um sorriso na voz: “oi, amor! É maravilhoso falar com você!”.... “Ah... que dia lindo, não?!” Excepcionalmente adoraria o dia, ainda que por um, dois minutos... o tempo que durasse a ligação. Ou talvez pelo resto do dia, mesmo!
É, mas a inspiração não ligou...
As palavras têm me atormentado, não me deixam mais dormir. Fecho os olhos e elas começam a vir... “poemas, problemas”... “mau humor, introspecção”... daí, já viu, né? Quem dorme? Levanto correndo, acho um toco de papel e derramo as palavras...
Dia desses tive um aborto semântico... poético, gramatical, sei lá... eu estava sonhando com uma poesia (é, poeta sonha é com poesia... essa coisa do amor amado... é pra quem lê, não pra quem escreve...) então, eu estava sonhando com uma poesia. Não pense que era uma cena de amor: eu e poesia, um beijo molhado... claro que não... No meu sonho havia uma casa, de paredes rosa clarinho, e numa delas, (que era branca) tinha pátina, toda espiralada... e pela janela eu podia ver um jardinzinho, simples e floridinho... eu conversava com não sei quem... (talvez sozinha, repetindo a realidade), eu apenas ouvia a minha voz em bom tom, falando o tal poema que talvez nunca mais vai nascer... falava em “dia cinzento como a Irlanda do Norte”, em “gelatina de sombra”...
Não me lembro de mais nada... aqui, no mundo cruel e real, tocaram a campainha... dei um pulo da cama e acabou-se poesia... E a visita inesperada pergunta: “estou te atrapalhando?” E eu respondo: “ ’magina!!!” ( e resmungo: “Você só abortou uma poesia...”)
Ai, minha poesia... Ela estava tão formadinha... imagino seu nomezinho como seria... mas foi tão súbito, que não tive tempo de vir acordando e, como num ritual, ir capturando as palavras borboleteando em minha mente... só agarrei pelo pé essas vagas idéias...
Um dia, quem sabe, eu não junte esses restos de sonhos a outros e crie uma obra-prima?
Mas eu sinto saudade daquela casa, de pátina espiralada, do tom pueril do rosa nas paredes... talvez eu volte... mas isso é quase impossível...
Hoje está um dia assim, meio irlandês, de baixa temperatura, de chuvinha fina e gelada, de céu gris, sem graça... e eu, bombardeada pelas palavras, introspectiva, mas já disse: não é mau humor! Coisas de TPM, talvez... e eu não quero falar com ninguém, mas esse silêncio me endoida...
Liga pra mim?!