Depois que ele foi embora, ela
passou meses juntando os próprios cacos. Foram pouco mais de oito, nove semanas
juntos, mas foram tempos avassaladores, tais quais a dor que ela ainda sentia
quando se lembrava dele, de seu sorriso ou da forma em que ele arqueava a sobrancelha
direita ao falar.
Lentamente a saudade doída foi se
acalmando e se transformando em uma breve lembrança. Teria ela o esquecido ou
guardara tudo numa caixa de memórias abandonadas?
Era dezembro. Reencontrara um
antigo pretendente. Cara desses interessantes, que a atraía, mas que jamais
tivera oportunidade de estar junto dela. Ele a convidou para enfim fazerem o
tira-teima. Afinal, seus mundos davam voltas, quase se esbarravam, mas quase.
Ela aceitou. Não tinha medo de
correr nenhum dos riscos oferecidos pela paixão. Iria passar o Natal e o Ano
Novo com ele. Estava de mala pronta. Iria para o Chile. O encontraria para
cessar as ilusões e, definitivamente, saber se ele era o amor da sua vida.
Sentia-se ansiosa, feliz. Estava
confiante. O desconhecido a fascinava.
Na manhã do embarque, conferiu a
passagem, enfiou-a na bolsa de mão, que estava pendurada em seu ombro esquerdo.
Levantou a alça da mala e rumou em direção à porta. Quando girou a maçaneta,
porém, o telefone tocou. Por alguns segundos, ela quase o ignorou, mas atendeu,
ainda segurando a alça da grande mala.
A voz, do outro lado da linha,
disse apenas:
- Por favor, não desliga. Sou eu.
Ao ouvir essas palavras, a bolsa
deslizou do ombro e parou em seu antebraço. Seu coração parecia bater dentro
dos ouvidos. Ela não mais sentia as pernas, como se sua pressão arterial tivesse ido ao
zero.
Há amores que julgamos superados,
mas só estão intocados na caixa.
Já é setembro e ela ainda não
conhece o Chile.