Hoje completo 45 anos de vida e este não é um amontoado de palavras de gratidão generalizada que costumo fazer em dias de aniversário.
Sempre celebrei esta data - 22 de Março - com extrema euforia, desde criança. Nos últimos anos, eu escolhia uma foto específica para postar nas redes sociais à meia-noite em ponto: eu queria receber todos os parabéns que fossem possíveis, como se meu aniversário realmente merecesse ser anunciado aos sete mares. Contudo, neste ano, não senti essa ansiedade e cheguei a me perder no calendário às vésperas do "meu dia".
Acordei hoje estranhamente serena. No celular, uma mensagem matadora de linda, da minha mãe. Fui ao banheiro e deixei caírem as lágrimas, involuntárias e até inexplicáveis. Até agora não sei nomear o que senti. Não foi melancolia, tampouco tristeza, mas algo que se parece com responsabilidade, a responsabilidade de viver à altura da vida. Parece algo redundante, mas esse despertar é profundo. Respirar é mecânico. Viver é artesanal. Dá trabalho. Requer muita atenção e esmero, não dá para fazer de qualquer jeito. De repente me ocorreu que, se tudo correr bem, é muito provável que eu já tenha vivido mais do que tenho para viver. E foi aí que soou o alarme da responsabilidade de estar vivendo com excelência.
Enquanto escritora, entre os lançamentos dos meus cinco livros de poesia, frequentemente me perguntavam quando eu publicaria um romance. E eu sempre respondia que "lá pelos meus 50 anos, quando eu tiver maturidade para isso". Eu adiava para um futuro distante - muito distante - um compromisso especial, que eu admitia não ter ainda matéria-prima suficiente. Intuitivamente, eu supunha que, aos 50, teria. Hoje, o futuro distante está ali, a poucos quarteirões. E (mais) essa responsabilidade me fascina!
A poesia inflamada e urgente da juventude já não arde, e as palavras mais lapidadas afloram, silenciosamente, por dentro.
Amadurecer é um verbo conhecido por fotografia, como um parente distante que um dia chega, desfaz as malas e começa a habitar conosco. Dia a dia, ele nos conta as suas melhores histórias e nos ensina seus gostos mais especiais.
Um dia a gente acorda e começa a reparar que há muita gratidão pelos detalhes, que há menos coisas realmente preocupantes e infinitas pequenas causas pelas quais não vale a pena discutir. Fica quem quer, a porta já não se tranca. A beleza troca suas pétalas e a obsessão quase que paranoica de ser exuberante evapora. As palavras são mais seletivas e o silêncio, também. O futuro não é mais uma lugar barulhento e isso, incrivelmente, não entristece.
