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quarta-feira, 23 de maio de 2018

De sorte


I’m so lucky”, disse o príncipe, deslumbrado com sua futura esposa. Deu pra ver nos olhinhos faiscantes dele a felicidade do que estava por vir através daquela figura tão bonita, de branco, bem ali na sua frente. O que eu vi foram milhares de comentários suspirantes, com aquele quê de “inveja branca” _como dizem_ da Meghan. 

Por um breve [brevíssimo] instante quase suspirei também. Essa coisa do amor que freme, que faísca os olhos e congela a barriga todo mundo, lá no fundo que seja, deseja encontrar. Ainda mais se vier de um príncipe legítimo, com aquela pompa natural e imponência sutil que dele emana até mesmo quando está de pé, em silêncio, observando qualquer coisa. Um sonho! Sortuda é a Meghan, cara! Meghan ganhou na Mega! 

Passado o afã que me permitiu esse trocadilho tosco, esfriei as ideias e comecei a pensar no caminhão de renúncias que custou a essa “moça de sorte” para estar ali vivendo tudo aquilo. Atriz, feminista, ativista na luta contra o racismo, mulher pensante, que não perdia oportunidade de fazer belos discursos em tudo quanto fosse uma boa oportunidade, além de seu blog e suas redes sociais sempre atualizados. De repente, silêncio. Para se tornar “vossa alteza” é mister excluir toda vida virtual. Selfies são terminantemente proibidas. É obrigatório andar dois passos atrás do marido. À mesa, com a rainha, só se pode fazer a refeição enquanto ela estiver fazendo a sua. As roupas são escolhidas pela assessoria da família real. Em viagem não se bebe água de outra região e frutos do mar, proibidos: eles podem matar. Celular? Esquece. Agora viver-se-á conforme agendas, protocolos, regras e limites, muitos limites. 

Daí tem toda aquela glamourização da coisa, dizendo que ela já quebrou protocolos como adentrar sozinha à igreja para o casamento, não jurar obediência ao marido [...] e claro que uma mulher dessa não vai andar dois passos atrás do marido (aliás nem a Kate faz isso, o William a liberou disso), blablabla. Bem, ok. Não sei o quanto isso atinge a rainha e todas as centenas de anos de tradições que ela ainda representa, mas já imaginou hoje, ano 2018, você não ter rede social, não poder tirar uma selfie? Beleza, conheço várias pessoas que vivem muito bem assim, mas então prosseguindo, imagina você não poder escolher que roupa tá a fim de usar (aquele jeans surrado never more, baby!), ou ainda, não poder continuar almoçando aquela comida maravilhosa porque a avó do teu maridão já está satisfeita [!!!] Já pensou excluir teu blog e não poder mais se pronunciar sem antes tuas palavras serem medidas e permitidas por uma comissão julgadora? Já pensou em pegar teu trabalho (não estou falando de qualquer trabalho, estou falando de atuar na TV americana, ter fama, grana e glamour por isso) enfim, já pensou em pegar esse trabalho e dizer “xau, agora vou me enfiar nuns vestidos de tom pastel e sorrir comedidamente, falar só se me dirigirem a palavra e estar sempre ornando meu marido”, hum? 

Obviamente Meghan não é uma boba deslumbrada e sabe exatamente onde está se enfiando. No entanto, o preço é altíssimo. Essa coisa de “nunca mais ter boletos para pagar” é engraçada, mas não é tanto assim, já que tá custando liberdade. É pioneiro sim ter uma mulher divorciada, negra, feminista na família real, mas pensando nos pormenores de ter até o próprio nome alterado, é de um tolhimento absurdo! Imagina não poder dar uma volta sozinha, espairecer, tomar uma gelada, pegar um solzinho num domingo de manhã! Sei lá. A vida de atriz deveria ser anos-luz mais interessante. Quer saber? Ainda bem que Harry é consciente do quão sortudo ele é! Meghan é mesmo o seu bilhete premiado.